16 setembro 2009

Histórias e Estórias do Crato de Antigamente - Por Ivens Roberto de Araújo Mourão



Os Personagens da Praça ( Siqueira Campos )

Os gregos celebravam suas assembléias e aplicavam a justiça numa praça, denominada Ágora. A Praça Siqueira Campos era a verdadeira Ágora cratense. Tudo o que acontecia no Crato ocorria lá ou era comentado nos seus bancos. Eram seus freqüentadores, além dos boêmios, componentes das duas Câmaras, a nata da Sociedade, nos “passeios” diários e vários personagens, conhecidos ou anônimos, que protagonizaram estórias as mais engraçadas. Um que se destacou sobre todos os demais foi o Senador Epifânio. Foi, sem dúvida, a pessoa mais querida e folclórica do Crato, nas décadas de quarenta e cinqüenta. A sua morte deixou uma grande saudade e, principalmente, um grande vazio na cidade. Ninguém mais o substituiu. Já o conheci em idade avançada, após ter tido um derrame. O título de Senador, deve ter sido dado pelos seus amigos, aos quais ele se referia como “a canalha”. O derrame provocou diversas seqüelas: todo um lado do corpo “morto”; caminhava, mas arrastando uma perna; um braço com tremores, como doença de Parkinson; a língua meio embolada, dificultando a fala, que era arrastada. E, o mais grave, afetou o seu discernimento. Passou a ter manias de grandeza. Era dono do Crato inteiro. Andava sempre de terno. Aliás, todo o seu enxoval era presente da “canalha”. No dia do seu aniversário, eles se cotizavam e cada um dava as roupas necessárias para um ano inteiro. Nesse dia faziam a festa na Sorveteria Glória, juntavam várias mesas para os presentes, bolos, refrigerantes, bebidas e, do lado de fora, os fogos de artifício estourando. Vivas, discursos! Era um verdadeiro acontecimento!

Senador Epifânio em foto colhida em 1949 em passeio promovido pelo Rotary à fazenda Serra Verde, dos Boris.

O Dr. Antônio José Gesteira foi outro que deixou saudades. Personalidade ímpar no Crato. Pernambucano do Recife, médico da mais alta qualidade, cirurgião de primeira linha. Certa ocasião houve um acidente num caminhão que transportava implementos agrícolas. Uma enxada abriu o tórax de um passageiro. Via-se-lhe o coração batendo! E o Dr. Gesteira o operou, fez enxerto, salvando-lhe a vida! Operação, em cidade do interior, era sempre “da barriga pra baixo”. Esta façanha foi publicada em jornais da capital. Muitos cirurgiões de Fortaleza tinham receio que o Dr. Gesteira fosse para lá, com medo da concorrência. Além de bom médico, era culto. Falava inglês fluentemente, sendo conhecedor de música clássica, como poucos. Era amigo do grande pianista nacional, Arnaldo Estrela. Excelente orador, além de ser um homem dotado de grande beleza física. Estava sempre bem vestido, em terno de linho branco. Alto, corado, de olhos azuis. Viera de Teresina onde tivera uma desavença amorosa, separando-se da esposa. Esta, com suas duas filhas também moravam no Crato. Dr. Gesteira residia em um apartamento, no térreo do Grande Hotel, quase vizinho à Sorveteria Glória. Tinha um defeito que só prejudicava a ele próprio: alcoolismo. Passava dias bebendo trancado no seu apartamento. Outra característica da sua personalidade era ser extremamente caridoso. Seguidamente deixava de cobrar seus honorários, ou não cobrava a quem lhe devia. Como conseqüência, também não cumpria com suas obrigações financeiras. Não tinha a menor preocupação com dinheiro. Na Praça, comandava a Câmara dos Lordes, embora também gostasse de freqüentar a Câmara dos Comuns.
Dr. Antônio José Gesteira. Nasceu em 1900 e faleceu em 1958.

Foto do Grande Hotel, onde no térreo e na lateral o Dr. Gesteira tinha um apartamento.

Júlio Saraiva, outra figura notável, tinha como profissão a fotografia. Quem, no Crato dos anos 40 e 50 não têm a sua fotografia tirada no estúdio do “Seu” Júlio, na “Rua da Vala?”. Algumas, artisticamente pintadas, antecipando a fotografia colorida! Discutia qualquer assunto. Era um questionador político e um socialista exaltado. Dizia-se ateu. Não era agnóstico, fazia questão de ressaltar: “Agnóstico é o ateu que não tem coragem de assumir”. Era um crítico feroz daqueles que esposavam idéias ridículas. Gostava de comer lingüiça e beber cerveja altas horas da noite e gabava-se desse feito, na idade em que estava. Foi pioneiro em muitas iniciativas: fábrica de mosaicos, fábrica de colorau, beneficiamento de arroz. Foi responsável, e trabalhando de graça, por muitos melhoramentos na cidade: monumentos, praças, traçados dos canteiros, projetos de ruas, calçamentos, fontes luminosas, arborização, reservatórios de água. Era ele quem liderava a “Câmara dos Comuns”.

Júlio Saraiva, figura impar do Crato pela sua inteligência e de múltiplas atividades. O seu “studio” fotográfico registrou quase toda a geração cratense dos anos 40 e 50.
Na foto abaixo a logomarca do Foto Saraiva, continuada por sua filha, Telma Saraiva, hoje famosa por fazer arte na fotografia: pintar as fotos, antecipando o Phot Shop.
Outro personagem que deixou estória foi o Chico Soares da Silva. Era funcionário da Receita Federal. Foi transferido, com a influência do Dr. Wilson Gonçalves (político cratense de muito prestígio), para Belo Horizonte. Viveu uns tempos por lá, voltando para o Crato. Chico Tinha prazer em dizer que era o maior caloteiro do Crato. Ninguém sabia se era verdade ou mais uma de suas brincadeiras. Por fim, aposentou-se, o que lhe possibilitava viver batendo papo com os amigos, na Praça Siqueira Campos.
Josino nunca poderá ser esquecido. Era um freqüentador assíduo das conversas da Praça Siqueira Campos. Pessoa simples, humilde, gostava muito de criar passarinhos e de tomar umas biritas. Tinha uma frase que sempre utilizava o que nos dias atuais, no linguajar da televisão, seria um “bordão”. Para tudo, ele dizia: “Hoje vai correr uma mão de... (alguma coisa)”. Por exemplo, se passava um grupo de seminaristas ele dizia: “Hoje vai correr uma mão de padre!” Caso o tempo estivesse fechado ele dizia: “Hoje vai correr uma mão de chuva!” Para tudo usava esse seu bordão. Era muitíssimo estimado por todos aqueles figurões, que primavam por não ter nenhum preconceito e serem extremamente democratas.
A Glorinha, a dona do cabaré mais famoso da cidade, era uma figura folclórica, quase uma atração turística. Seu aniversário era um acontecimento na cidade! Só faltava ir o Bispo! Ao sair de casa, era facilmente reconhecida. Com o cabelo bem louro, oxigenado. Usava muitas jóias, anéis, pulseiras e cordão de ouro, com um crucifixo enorme pendurado no pescoço! As pernas, bem cabeludas! Estava sempre presente na Siqueira Campos, através das conversas dos “boêmios”.
Vou começar a relatar as estórias desses personagens, contadas pelo Luís e acrescidas de algumas outras participações.

O BANCO

O aniversário do Senador Epifânio era uma verdadeira festa! Pessoas, as mais ilustres, “mandavam” presentes para ele:
- “Senador, esta camisa quem mandou foi o Governador Agamenon Magalhães, de Pernambuco”.
- “Muiiiiitoooo meeeeeeuuuu aaaaamiiiiigo. Aaaaaaagraaaaadeeeeçaaaa por mim aaaaa eeeele.
Num desses aniversários, um dos participantes da “canalha” chegou para ele e disse:
- “Senador, telefone para o senhor. É o Santo Padre!”.
O telefone da Sorveteria Glória era aquele de parede. Ao atender, o Senador foi logo se ajoelhando, pedindo a bênção e agradecendo pela lembrança! Logo outro da “canalha” tirava-o do telefone, dizendo que o Santo Padre era muito ocupado, não podendo demorar-se muito tempo...
Com a chegada de um novo Gerente no Banco do Brasil, alguém da “canalha” chegou para ele e disse:
- “Senador, tem uma pessoa de fora que tomou conta do seu Banco. Está dizendo que é o dono!”
O Senador não teve dúvidas. Dirigiu-se ao Banco, subiu pelo elevador, entrou na sala do Gerente que, perplexo, foi colocado para fora aos gritos:
- “Quem mannnndooooou voooooocêê toooooomaaaaaar cooooontaaaa do meeeeeu baaaaaanco?”

O CATETE

O Luís morou um tempo no Rio de Janeiro e vinha sempre passar as férias no Crato. Numa dessas ocasiões, quando estava na Praça Siqueira Campos, percebeu que o Senador Epifânio vinha em sua direção. O Luís não gostava de fazer brincadeiras mais fortes com o Senador, temendo que, num dos seus acessos de raiva, ele tivesse um derrame fulminante e viesse a falecer. O Senador atravessava a rua calmamente, o que era possível no trânsito sossegado da época. Vinha da Casa dos Leões (não existe mais a casa) encaminhando-se para a Praça. Chegando perto do Luís, foi logo dizendo:
- “Eu queeeeeero faaaaaalar é com vooooooce meeeeesmo”.
O Luís logo imaginou: “Ih!!!Alguém da canalha deve ter feito algum fuxico!”. Dito e feito! O Senador já estava irritado e foi logo perguntando:
- “Me diiiiiga uuuuuma cooooooisa, por que é que voooooocê não tá maaaaaandaaaando meus aaaaluuuuugueis? “Tá moooorando lá e tá deeeeveeeendo meus aaaaaluguéis?
O Luís saiu-se muito bem, podendo, inclusive, conhecer uma excelente faceta daquela mente perturbada: a generosidade. Explicou-lhe o atraso da seguinte maneira:
- “Senador, o senhor se lembra quando eu fui morar no Rio?
- “Eu me leeeeembro. Eu dei até um diiiiinheeeeiro pra aaaaajuuuudar na paaaassagem. E voooocê nem maaaanda meus aluuuuguéis!”
E foi ficando, mais exaltado! E o Luís:
- “Senador, quando eu cheguei ao Rio só tive foi fracassos. Abri um negócio e deu tudo errado! Perdi tudo e fiquei liso... Nisso, a família foi aumentando e fiquei sem condições até de sustentá-la! Eu sei que lhe devo. Não pude mandar ainda o seu dinheiro”.
O Luís percebeu que a fisionomia dele foi abrandando, ficando com pena da sua situação de penúria. E continuou:
- “Senador, assim que a minha situação melhorar eu mando seu dinheiro, com certeza! Veja o senhor, meus filhos estão no colégio e muitas vezes eu não tenho nem dinheiro para pagar as mensalidades. Vez ou outra os meninos estão sendo ameaçados de não freqüentar as aulas, por falta de pagamento.”
O Senador foi se enternecendo e os seus olhos já estavam lacrimejando, de tanta pena que estava, demonstrando uma beleza de caráter por trás de toda aquela demência. Então o Senador fez a seguinte proposta:
- “Vaaaaaamos faaaaazer um neeeeegóóócio. Mas tem que fiiiiiicar só ennnnntre nós dois.”
Então, olhava para um lado e para o outro. Chamando o Luís para mais perto, disse:
- “Ennnnquaaaanto vooooocê não se deeeeesapeeeertar, não tire seus fiiiiilhos do cooooolégio não. Não paaaaaassse neeeeceeeedidade. Vooooocê póóóóde fiiicar mooooorando de graaaaça!”

Fonte: Livro: "So no Crato", de Ivens Roberto de Araújo Mourão - Direitos de publicação concedidos ao Blog do Crato pelo autor - Todos os direitos reservados.

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