15 agosto 2009

Woodstock - 40 Anos de uma bela calamidade (Parte I)



José Teles
teles@jc.com.br
Jornal do Comércio
Recife-PE



Na sexta-feira, 15 de agosto, de 1969, o New York Times mandou o repórter Mike Jahn cobrir um evento denominado Feira de Arte e Música de Woodstock. Ele preferia cobrir o festival de jazz de Newport, mas seu editor não concordou. Mike Jahn não tinha a menor idéia do que iria encontrar no local. Quando chegou lá quase não acreditou no que via. Ligou imediatamente para a redação e pediu reforço. O NYT mandou um helicóptero com outros repórteres. O festival mais famoso dos anos 60, considerado o auge do movimento contracultural, foi iniciativa de dois advogados caretas, jovens e milionários, Joel Roberts e John Rosenman. Na conta de Roberts estavam US$4 milhões que herdou da mãe, falecida quando ele era criança. Ronsenman e Roberts tornaram-se amigos na universidade, acabaram criando uma empresa, a Challenge International Inc. Inicialmente pensaram em produzir um seriado de TV, mas desistiram. No final de 1968, eles colocaram um pequeno anúncio no New York Times: “Jovens com capital ilimitado querem participar de empreendimento interessante e legal”.

Das centenas de propostas que receberam, interessaram-se por uma enviada por dois jovens, Mike Lang e Artie Kornfeld que pretendiam montar um complexo musical em Woodstock, no interior do Estado de Nova Iorque. O lugar se tornara cult, desde que Bob Dylan resolveu morar lá. Seria um estúdio, bares e restaurantes, e um local onde compositores pudessem compor, trocar idéias com outros compositores. Depois que tudo fosse construído, produziriam um grande concerto de rock que chamasse atenção para o empreendimento. Roberts, o dono da grana, gostou da idéia, mas sugeriu que o concerto fosse um grande festival, com três dias de shows. Assim nasceu a Woodstock Ventures Incorporated.

Eles acreditavam que o festival poderia atrair 50 mil pessoas. Todos sabem quantas pessoas vieram. Entre 400 a 500 mil. Numa sexta-feira como esta, há 40 anos, a região virou um caos. Havia apenas 300 guardas para controlar o trânsito, que evidentemente não foi controlado. O engarrafamento estendia-se por quilômetros. Na fazenda de Max Yasgur, na sexta, já se espremiam mais de 200 mil pessoas. A fazenda fora alugada às pressas. Quatro semanas antes da data marcada para o festival. Com todos os 50 mil ingressos vendidos, a produção não sabia onde seria o evento. Woodstock e várias outras cidades recusaram-se a recebê-lo. Por isso o festival de Woodstock não aconteceu em Woodstock, mas na vizinha Bethel. Desde quando as cercas foram derrubadas, e se descobriu que o festival receberia dez vezes mais gente do que estava previsto, foi o caos. O governador de Nova Iorque, Nelson Rockfeller ameaçou mandar a Guarda Nacional para impedir que o festival acontecesse. Foi preciso muita diplomacia para convencêe-lo a abandonar a idéia. Como se não bastasse, o engarrafamento impedia que vários artistas chegassem ao local. Outros escalados não vieram, caso do Jeff Beck Group, que acabou antes do dia de sua apresentação. Da Moody Blues, que também teve problemas internos, e da Iron Butterfly, cujas exigências irritaram a produção, que rescindiu o contrato com o grupo, mandando-lhe um telegrama desaforado.

The Woodstock Music and Art Fair tinha tudo para ser um desastre, e foi. Primeiramente, o desastre financeiro. Os dois mecenas mauricinhos, que nem sequer assistiram ao festival, já sabiam de antemão que amargariam prejuízo. A chuva que caiu na sexta-feira, fez do trecho da fazenda de Max Yasgur um imenso lamaçal. A comida acabou. O som era precário, e temeu-se que as torres não aguentassem a tempestade. Declarada zona de calamidade pública,o governo e entidades beneficentes enviaram médicos, comida, roupas, para aquele campo de batalha, com muita música, paz e amor, mas sem guerra. Pior foi a quantidade insuficiente de banheiros químicos. Um cara chamado Harriet Schwartz, que estava na platéia, contou a Pete Fornatele, autor do livro Woodstock (lançado recentemente): “Se você tivesse que ir ao banheiro em Woodstock provavelmente seria melhor ir no mato, só que não havia mato nenhum...E assim que você chegava perto de um deles, e você tinha que ficar de pé na fila, os olhos enchiam de lágrimas e a garganta quase fechava. Foi o cheiro mais horrendo que eu já senti na vida”.

Foi um milagre que os três dias de paz e amor, como o documentário foi vendido, não acabasse numa das maiores tragédias da história. Tantos os artistas, quanto a produção e os milhares de hippies, tinham diante de si um fato incontestável: todos estavam no mesmo barco. E se alguém fizesse movimentos bruscos, o barco não aguentaria. Quem define bem o que foi o milagre Woodstock é Arlo Guthrie, que se apresentou na primeira noite: “As chances de se estar num momento histórico, que não seja um desastre são bastante raras. E as de você estar lá e com noção de que aquele é um momento histórico, astronômicas. E foi assim que aconteceu. E foi maravilhoso, emocionante, divertido” (ao citado livro de Fornatale). Deve-se dar o desconto a Arlo Guthrie por ele estar tão chapado que caiu num buraco de dois metros de altura e não sentiu nada. Antes de subir ao palco ele, que já se aditivara com tudo que lhe deram, ainda bebeu uma caixa de champanhe. Guthrie mesmo confessa que nem lembra o que tocou. Uma das canções, a que aparece no filme é Coming into Los Angeles, porém o que se ouve no filme não foi a gravação feita em Woodstock, que não ficou boa. A gravação foi tirada de um show de Guthrie, que nem ele mesmo sabe qual foi.

Arlo Guthrie parece ser o mais chapado dos artistas que aparecem no documentário, mas as drogas circularam fartamente durante os três dias do festival. Segundo Henry Gross, da Sha na na, o mais jovem artista em Woodstock (com 18 anos na época): “Foram consumidas umas 23 toneladas de maconha em Woodstock e nenhum caso de glaucoma foi registrado”. A impressão do guitarrista Alvin Lee, da Ten Years After, confirma a contabilidade de Gross: “Eu estava com o corpo meio para fora do lado aberto do helicóptero e um cara me fez botar o cinto porque eu me projetava para fora. Lá de cima de toda essa gente eu sentia um cheiro incrível de maconha, Depois pensei: como era possível aquilo acontecer se as hélices do helicóptero empurravam o ar para baixo? Mas havia muitos hectares de gente e o helicóptero sugava o ar por cima. Era aquilo mesmo. Então, antes de pousar eu já estava meio doidão”. As autoridade tiveram a prudência de sugerir que a polícia ignorasse as drogas.

Quem salvou Woodstock do fiasco financeiro e fez com que o festival se tornasse um evento histórico foi o documentário de Michael Wadleigh, perfeito, com um edição primorosa (entre os que o editaram estava o jovem Martin Scorsese). O sucesso do filme, e dos dois álbuns, transformou um prejuízo de US$ 1,3 milhão em um lucro de US$ 17 milhões, isto apenas em 1970. O escritor e crítico Bob Santelli ratifica a manipulação do documentário, comentando o show do The Who: “O que tornou a apresentação deles tão lendária foi o tratamento que recebeu no filme. o salto de Pete Townshend em câmera lenta, os moinhos, a jaqueta com tiras e o cabelo flutuante de Roger Daltrey. Cinema perfeito. Acho que o Who esteve mais bem representado no documentário do que todos os outros artistas”.

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