17 agosto 2009

Nunca se atrase! – por Carlos Eduardo Esmeraldo


Brasileiro é aquele povo que teve início na oca, continua ainda meio selvagem, sem preocupação nenhuma com o tempo e os compromissos. Por aqui nada começa na hora marcada! Reuniões, inicio das aulas, exibições de peças teatrais, shows, horário de vôos, saídas de ônibus, nada mesmo. Casamento, então, parece até superstição! Se começar na hora marcada não dá certo! Já fui a um, em que até o padre se atrasou. Mas atrasar-se a certos compromissos dá prejuízo, sim. E como!

Certa vez, quando eu trabalhava na Coelce, fui representar a diretoria da empresa numa solenidade de inauguração de energia elétrica da Vila dos Popôs, um lugarejo perdido no meio dos grotões da Serra do Horto, alguns quilômetros por trás da estátua do Padre Cícero. O acesso era cheio de estradinhas carroçáveis sinuosas e bifurcadas, subindo e descendo, de modo que o motorista que me acompanhava se perdeu e terminamos por chegar atrasados. A energia já havia sido inaugurada e no palanque discursavam os últimos vereadores. Ao me ver, o prefeito me convidou para subir no estrado de madeira existente sobre quatro tambores de óleo vazios à guisa de palanque, e anunciou o meu discurso. Nessas ocasiões já tínhamos uma peça de oratória previamente preparada. Dizíamos alguns detalhes técnicos sobre a obra, como quantidade de postes, transformadores, o custo e a origem dos recursos. Lembro-me muito bem que disse que o Governo do Estado era o responsável por aquele investimento, Terminada a solenidade, logo após a minha falação, notei que o prefeito ficou de cara amarrada e ao me despedir dele, não me deu nenhuma atenção. Antes de sair, eu cumprimentei a equipe de eletricistas que havia trabalhado na obra e um deles me disse: “O senhor desmentiu o prefeito. Ele falou antes dizendo que a prefeitura havia sido a responsável pelo pagamento da obra.” Por ter chegado atrasado àquela solenidade e, involuntariamente desmentido o prefeito, quase fui demitido do cargo. É que ele, o prefeito, pediu minha cabeça ao governador, que após informar-se sobre minha pessoa aos meus superiores não atendeu ao esse pedido sem cabimento algum.

A propósito desse assunto, recebi outro dia uma dessas mensagens que inundam nosso correio eletrônico. Contava a história de um velho padre que desde sua ordenação fora trabalhar numa pequena cidade do interior. E no dia de sua aposentadoria e conseqüentemente, sua despedida da cidade foi homenageado pela população. Em seu discurso de agradecimento, o velho pastor de almas, provavelmente emocionado pela despedida, cometeu uma indiscrição: revelou um segredo de confessionário na primeira penitência que ele celebrara, justamente naquela cidade. Era a confissão de um jovem rebelde, sem, entretanto dizer o nome do penitente, que entre os inumeráveis pecados, além de viciado em drogas, era também traficante, havia roubado televisores, rádios e outros objetos das lojas da cidade; traíra a namorada com uma irmã dela e muitos outros pecados mais cabeludos, cuja lista não cabe aqui mencioná-la por completo. Terminada a oratória do padre, adentra no salão o prefeito, atrasado como sempre. Então, os presentes solicitaram a ele fazer a entrega de um presente ao velho pastor que deixava a comunidade. Em seu discurso, tacou essa peça reveladora: “jamais esquecerei que eu fui o primeiro fiel a se confessar com este baluarte da igreja!...”

Portanto, se não por educação, mas para evitar prejuízos incalculáveis, nunca se atrase.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

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