21 agosto 2009

Nicarágua, a revolução duas vezes derrotada*. Por William Héctor Gómez Soto **


O sandinismo virou "danielismo"

Foi em julho de 1979 que a Nicarágua ficou mais perto do Brasil. Neste ano, a Ditadura de (Anastasio) Somoza foiderrotada por uma insurreição de massas. Na verdade, foi nesse momento que a Nicarágua ficou mais perto do mundo. Com a vitória sandinista abriu-se um novo período na América Latina. Foi o início do período da democratização, do desmonte das velhas ditaduras militares. Recentemente, a
Nicarágua voltou aos noticiários do mundo. Desta vez, a razão é a vitória de Daniel Ortega nas eleições de 5 de novembro de 2006. Alguns se perguntam se esta vitória significa a volta da revolução sandinista.

A vitória de Daniel Ortega nas últimas eleições contrasta radicalmente com a vitória da revolução de julho de 1979. Obviamente, são dois momentos diferentes.Nestes 27 anos, muita água correu sob a ponte.Daniel Ortega concorreu à presidência em três eleições e foi derrotado em todas elas. O sandinismo dividiu-se em várias correntes. Em fevereiro de 1990, a revolução foi derrotada nas urnas. O povo, cansado da guerra, elegeu a candidata Violeta Chamorro, apoiada pelos Estados Unidos. A derrota da revolução teve vários motivos. O principal deles foi a guerra de baixa intensidade financiada pelos Estados Unidos. O bloqueio econômico e a ameaça de invasão estenderam-se por dez anos. Foi esta a primeira derrota da revolução.

A pior derrota, no entanto, veio a ser “La Piñata”, nome dado para a usurpação de fazendas, empresas e outras propriedades do Estado, distribuídas entre membros do círculo dirigente da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN). Foi a derrota da ética revolucionária. O sandinismo entrou em crise, dividiu-se. Milhares de militantes empobrecidos perderam a esperança. O danielismo, isto é, um grupo sob o forte controle de Daniel Ortega, substituiu o sandinismo.

Após a derrota, Ortega começou a costurar alianças impensáveis, principalmente com os liberais e com a Igreja Católica. Ele teceu uma rede de influências que lhe permitiu alianças junto ao Legislativo e ao Judiciário e alguns postos importantes do Executivo. Daniel mudou muito. Sua vitória recente está vinculada com essa mudança. O único elemento que permanece constante no conturbado cenário político nicaragüense é a intervenção descarada do Império. Na Nicarágua, o imperialismo existe em carne e osso.

Nas últimas eleições, congressistas americanos ameaçavam proibir, no caso de uma vitória da FSLN, as remessas (de dólares) que milhares de nicaragüenses radicados nos Estados Unidos enviam com freqüência para seus parentes da Nicarágua. Por sua vez, o embaixador dos Estados Unidos em Manágua, Paul Trivelli, dedicou-se a unificar a direita dividida. A unidade da direita era estratégica para a derrota de Ortega. Trivelli chegou ao
cúmulo de propor eleições primárias entre os partidos da direita para escolher o candidato que, apoiado pelos Estados Unidos, enfrentaria Ortega. Porém, os esforços do dedicado embaixador deram em nada e a direita chegou dividida ao confronto eleitoral.

Ortega empenhou-se em apagar a imagem do revolucionário que tinha entrado na praça da revolução 27 anos antes. E certamente, não o é mais. O vermelho intenso da bandeira da FSLN foi substituído por uma cor mais amena e reconciliadora: a cor-de-rosa. A FSLN escolheu como candidato a vice-presidente um dos líderes dos “contras”, o exército contra-revolucionário financiado pelos Estados Unidos para derrotar a revolução sandinista. Outro elemento importante que deu vitória a Ortega foi a redução do mínimo de votos necessários para ganhar as eleições: 35%. Ortega obteve 38%. Eduardo Montealegre (ALNPC), o candidato apoiado pelos Estados Unidos,obteve 28%, enquanto José Rizo (PLN) 27%. Como se pode observar, a direita unificada poderia ter facilmente
derrotado Ortega. Alguns observadores atentam ironicamente para o fato que o resultado eleitoral, com Ortega vitorioso, foi o melhor resultado para os Estados Unidos. Ortega se apresenta agora como um conciliador, domesticado. Um governo que promete obediência, que promete a defesa da propriedade privada, da economia mista, que promete greve zero e nenhuma mobilização dos trabalhadores. Com certeza, os conflitos futuros explodirão entre as próprias fileiras do sandinismo, entre os militantes que ainda sonham com a revolução perdida.

*Artigo publicado na revista da Seção Sindical dos Docentes da UFSM / ANDES, Dezembro de 2006.

** Prof. do Instituto de Sociologia e Política da UFPel (RS) e ex-pesquisador do Centro de Investigaciones y Estúdios de la Reforma Agrária (CIERA) durante o Governo Sandinista (1979-1990) .

Um comentário:

  1. O mesmo fenômeno que ocorreu na Nicarágua, onde o sandinismo sucumbiu ao "danielismo", embora em direções opostas e com outras características, está acontecendo no Brasil, onde o petismo está sucumbido (ou sucumbiu) ao lulismo.

    Isto é grave para a duramente reconquistada democracia brasileira: a emergência de líderes populistas que usam de programas meramente assistencialista como forma de conquistar o apoio de segmentos carentes, que formam a ampla maioria do eleitoral, e viabilizando a contrução de um canal direto com o povo, prescindindo dos outros poderes.

    Há algo no ar além dos aviões de carreira...

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