30 julho 2009

Solidariedade, cumplicidade e proteção motivaram mães de líderes estudantis cearenses


Luíza Gurjão, 94 anos; Zelinda Torres, 90 e Maria Dolores Feitosa, 85. “Três meninas danadas” que enfrentaram ditadura, polícia, governo em nome da defesa do direito dos estudantes de se manifestar. Elas foram personagens importantes na organização da Passeata dos 20 mil em Fortaleza. Quarenta e um anos depois, presenciei nesta quarta-feira (29/07) o reencontro cheio de emoção e nostalgia das amigas. Entre elas, o sentimento de dever cumprido.

A aparente fragilidade física se contrapôs às personalidades fortes. Cada uma dentro da sua característica mostrou a forma intensa em que viveram aqueles duros anos de repressão e a forma como se empenharam na luta pela liberdade. O encontro aconteceu na casa de Dona Luíza, mãe de Bergson Gurjão (militante comunista assassinado em combate nas selvas do Araguaia).

Foram abraços apertados, gargalhadas, lembranças e nostalgia. O elo inicial que uniu as três jovens mães nos idos de 1968 foram os trabalhos na Igreja da Piedade. Entre missas e palestras, surge a consciência de que a liberdade devia ser preservada. “Sempre fui contra a alienação. Acho que as pessoas devem se engajar e lutar pelos seus direitos. Nesta época meus filhos não estavam fazendo parte do movimento estudantil em Fortaleza mas mesmo assim permitia que acontecessem reuniões lá em casa”, revela Dona Dolores. Segundo ela, o sentimento de mãe era superior. “Mãe é universal. Considerava todos eles como meus filhos. Queria protegê-los”.

Com a morte de Edson Luís, assassinado em março de 1968 no Restaurante Calabouço no Rio de Janeiro, as mães desses jovens se engajaram na organizaram da passeata dos 20 mil em Fortaleza. Percebendo as articulações em torno da passeata, elas entraram em cena para garantir que os jovens teriam o direito de se manifestar como cidadãos. “Nós fomos encontrar o Governador Plácido Castelo para pedir que nada fosse feito contra os estudantes. Assinamos até um documento nos responsabilizando pela passeata: não podíamos permitir um massacre. Garantimos que não ia ter baderna”, relembra Dona Zelinda.

“Nossa intenção era garantir que os jovens tivessem o direito de se expressar mas com ordem. Eles também não queriam nos colocar numa fria”, contextualiza Dona Dolores. Na época com 44 anos, ela confessa que usou artifícios para impor mais respeito perante os militares. “Como era uma das mais jovens, colocava talco no cabelo para que os fios ficassem brancos. Quem desrespeitaria uma senhora decente?”, revela em meio às gargalhadas das colegas. Apesar de engraçado, as “garotas do barulho” confessam que o susto foi grande quando chegaram à Praça do Ferreira. “Os militares estavam nos esperando com metralhadoras. Nós, mães, íamos na frente, de mãos dadas e os estudantes atrás”, completa. Dona Zelinda tem mais recordações. “Foi lindo. Todos cantavam o hino nacional”.

Após a morte do líder estudantil no Rio de Janeiro, aumentaram as passeatas em Fortaleza. Os estudantes estavam em permanente mobilização. Em meados de 1968, numa dessas passeatas, os universitários realizaram outra manifestação em defesa da liberdade, democracia e também em busca de melhores condições de ensino na UFC. Os estudantes seguiram pelas ruas do Centro de Fortaleza até a Praça José de Alencar. Dona Luíza e Dona Dolores estavam por acaso na região e viram a concentração de policiais nas redondezas. Unidas, correram para a Igreja do Patrocínio (localizada na Praça José de Alencar) e seguraram as portas do templo para que os estudantes pudessem se refugiar lá. “Lembro que a gente pediu para um estudante que passava pelo local para avisar aos outros manifestantes que a Igreja não seria fechada”, afirma Dona Dolores. Foi nessa passeata que Bergson Gurjão foi espancado ao tentar retirar um coquetel molotov atirado debaixo de um carro para não prejudicar o movimento estudantil. “Preso, ele permaneceu internado mais ou menos por 80 dias”, contabiliza a mãe, Dona Luíza.

Dona Dolores recorda ainda que entre os estudantes havia diferença de posturas. “Os meninos do Liceu do Ceará eram mais insubordinados, mais danados. Já os universitários não. Acho que os secundaristas, por serem mais jovens, eram mais agitados”, avalia. Enquanto Dona Zelinda relembra que a manifestação passou em frente à linha de militares armados, Dona Luíza revela que as imagens daqueles tempos ainda permanecem vivas. “Tem noites em que deito e fico revivendo aquilo tudinho”.

Sobre o Bergson, Dona Dolores revela: “Ele era controlado, de paz. Era exatamente o tipo de manifestante que a gente queria. Não gostava de bagunça nem baderna, só queria o direito de protestar”. As declarações dela vão além. “A gente era quase doida. Acho que é por isso que ainda hoje tenho esse espírito briguento. Sinto-me feliz e orgulhosa com o que fiz. Só lamento a alienação da juventude de hoje. Deveriam ter o espírito mais aguerrido dos universitários daqueles anos”.

Espírito de mãe

Tânia Gurjão, irmã de Bergson que também participou do encontro compara: “Elas lembram as mães da Praça de Maio da Argentina”. As três mães cearenses retratadas aqui simbolizam um sentimento que perpassou outras tantas mães, algumas delas sem sequer ter filhos envolvidos no movimento estudantil na época. Para ter a perspectiva de viver dias melhores com a família era preciso antes disso a consolidação da democracia e da justiça no país. Determinadas na luta de garantir o futuro dos filhos, muitas ousaram e se engajaram da defesa dos ideais de liberdade. Espírito de mãe é assim mesmo: vai além.

Bastidores

Ielnia, irmã de Bergson que mora nos Estados Unidos, também conversou conosco via Internet. Ao ver as três garotas via webcam afirmou: “Estão uns brotos!”. Fátima Feitosa, filha de Dona Dolores, também participou do animado encontro.

Após duas horas de bom papo, Dona Luíza nos serviu um farto café. Os biscoitos, pães de ló e torta de maçã foram feitos pessoalmente por ela. Ao avistar a mesa diversificada, Dona Dolores declara: “Não vamos contar tudo hoje não. É bom que a gente guarda mais histórias para outro dia. Assim a gente vai ter o pretexto de voltar aqui novamente.”

Sentados à mesa, todos fazemos uma oração liderados por Dona Dolores. Agradecer a oportunidade do reencontro e a fartura do café foram os pontos da oração.

“Não podia vir mas não podia deixar de vir”. Foi com esta frase que Dona Zelinda expressou a felicidade de estar com as amigas e relembrar o passado.

Ao final do encontro, Dona Luíza recebe a visita do advogado Benedito Bizerril. O comunista levou o filho Bergson, nome dado em homenagem ao guerrilheiro cearense, para apresentar e conhecer a família do líder estudantil morto no Araguaia.


De Fortaleza,
Carolina Campos com colaboração de Inácio Carvalho e Mariano Freitas

Um comentário:

  1. Prezada Norma paula,

    Um excelente e louvável depoimento. Um registro merecido que se faz a essas três pessoas, que merecem toda a nossa admiração. Eu também atingi uma pequenina parte daquela época de ditadura e me assuntei com o que via. Imagine o que elas testemunharam.

    São pessoas de fibra, de muita coragem, e de muita integridade.

    Parabéns a elas, e parabéns a Norma Paula pela excelente, oportuna e importante reportagem, que certamente ficará registrado aqui para a posteridade.

    Dihelson Mendonça

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