19 junho 2009

Origens da rivalidade entre Crato e Juazeiro (II)

A Sedição de Juazeiro

Juazeiro foi elevado a município em ato oficial que se deu no dia 4 de outubro de 1911, quando Padre Cícero Romão Batista foi empossado como prefeito, iniciando-se na vida política. Neste mesmo dia, foi assinado em Juazeiro o famoso Pacto dos Coronéis, uma tentativa de pacificar a região, bastante tumultuada pelas violentas deposições de coronéis por outros coronéis, com uso de milícias particulares formadas, notadamente, por jagunços e cangaceiros.

Um ano depois, aproximadamente, Padre Cícero envia telegrama ao coronel Franco Rabelo, que tinha sido eleito presidente do Estado do Ceará, depois de vencer o grupo do comendador Nogueira Acióli, oligarca que governou com mão de ferro a província do Ceará por longo tempo. No telegrama, Padre Cícero busca esclarecer o que ele considera fruto de intrigas de políticos adversários, ou seja, de que ele estaria preparando um levante contra o governo do Estado, estocando armas e munições. A denúncia poderia resultar numa intervenção armada em Juazeiro por parte do governo do Ceará. A íntegra do texto telegráfico encontra-se publicado no espaço reservado aos comentários. O importante neste episódio, é que já pairava uma nítida tensão política no Estado e que uma trama política se desenrolava, tendo como base o Juazeiro.

No final de 1913, o senador Francisco Sá envia, da capital federal, tendo como portador Floro Bartolomeu, uma carta ao Padre Cícero onde a deposição do coronel Marcos Rabelo era tramada. A partir dali, reinou um clima de instabilidade política no Estado, com trocas de telegramas entre o coronel Franco Rabelo e o Padre Cícero, agora, da parte deste, com veladas ameaças, sempre colocadas como uma necessidade de defender o Juazeiro frente iminente ataque governista

A Sedição de Juazeiro para depor o coronel Franco Rabelo irrompeu, assim como já se anunciava, no dia 8 de dezembro de 1813, com o desarmamento de um destacamento da polícia do Estado que tinha a incumbência de prender ou matar Floro Bartolomeu. No dia seguinte, vários políticos juazeirenses, como o prefeito João Bezerra de Menezes, sucessor do Padre Cícero, refugiaram-se no Crato. Assim, o Crato virou alvo da milícia que Floro Bartolomeu recrutou entre famosos e temidos celerados vindos de várias partes do Nordeste.

No dia 15, Padre Cícero telegrafa, pela segunda vez para o Marechal Hermes da Fonseca, presidente da República (na primeira, dia 11, foi feito um apelo para que o governo federal interviesse no Estado). Eis o texto do segundo telegrama:

“Para maior justificativa das minhas afirmativas sobre a anarquia do Estado, transmito a V. Excia. o telegrama sob o número 364, dirigido às 9 da noite, ao dr. Floro Bartolomeu da Costa pelo capitão Ladislau, comandante da força policial do Crato. Ei-lo:
“Estou com 600 homens em armas. Prepare-se, meu velho, que hoje ou amanhã vou comer o capão que me ofereceu daí e buscar os soldados e armamentos do governo. Não sofra do coração, que o negócio está feito.

“Povo repelirá a agressão. Por mais este telegrama V. Excia. se convencerá da veracidade das minhas afirmativas quanto à anarquia Estado, promovida pelo próprio governo. Respeitosas saudações. Padre Cícero Romão Batista.[1]

O governo federal “lavou as mãos”.


[1] PINHEIRO, Irineu. Efemérides do Cariri. Fortaleza, Imprensa Universitária do Ceará, 1963.

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