28 maio 2009

Prisma

Os brasileiros quando assistem de cadeira de balanço à invasão do Iraque , ao extermínio dos afegãos, às lutas fratricidas do continente africano ou aos conflitos envolvendo Israel e árabes, no Oriente Médio deviam ao menos perceber que a briga lhes diz respeito. De alguma maneira estão sendo dizimados irmãos nossos, nestas pelejas internacionais. Não, não falo aqui biblicamente, invocando o nome de Adão, nosso pretenso ascendente comum. Os mouros têm uma profunda influência na cultura brasileira estudada por um dos maiores gênios da raça, o potiguar Luiz da Câmara Cascudo. O tempero árabe-sarraceno esteve fortemente presente no caldeirão étnico quando da cocção gradativa da identidade pátria. Somos um país único , fruto da fabulosa miscigenação de um número incontável de raças e culturas e carregamos conosco a fagulha da esperança. Ensinamos a todos a possibilidade de união dos povos, sem barreiras, sem preconceitos e que é possível sim semear a tolerância e conviver pacificamente com a diferença. No Brasil, não existe purismo, não há arianos. Qualquer um de nós , se formos revolver o passado, não chegamos à terceira geração sem que nos deparemos com nossos ascendentes na Taba, na Senzala, na Sinagoga ou na Mesquita. Nossas veias não transportam sangue azul ou negro; o prisma da nossa colonização fez o milagre da refração e cá estamos todos multicoloridos , enchendo de brilho a aquarela do nosso país. Neste aspecto, o Brasil é, estrategicamente, a nação do futuro.
No que tange à nossa influência moura ela é simplesmente enorme. Não bastasse a presença dos árabes por aqui, eles estiveram na península Ibérica durante oitocentos anos, de 661 dC até quarenta anos antes do descobrimento do Brasil. Além de tudo, influenciaram sobremaneira a Cultura Afro, um dos pedestais mais fortes da nossa etnia. As tintas árabes tingiram nossa cultura bem mais que os judeus, os ingleses, os franceses, os holandeses e os japoneses. O gênio de Luiz Câmara, em seus mais de 150 livros, deu um cascudo na maior parte dos pesquisadores do Sudeste e deve-se a ele o descobrimento do Brasil árabe-sarraceno. No Nordeste, então, esta influência tem tintas fortíssimas. O cuscuz, o arroz doce são iguarias que deles herdamos. O hábito de comer no chão limpo, tão freqüente por aqui ,também é influência moura. Beber água depois da refeição e não durante. Os panos que as mulheres gostam de usar na cabeça e os turbantes que usam sobre os penteados. Mulher andar a cavalo ou de moto de lado e não escanchada. Fazer renda, usar leques, guarda-sóis, véus no rosto, uso de tintas nas sobrancelhas e brilho nos olhos são herança dos nossos irmãos mouros. A alpercata de rabicho é tipicamente árabe , assim como o próprio nome alpercata. O fascínio pelos doces parece também ter forte origem sarracena. Apanhar de chinela da mãe não era uma verdadeira desonra? Igualzinho a se jogar sapato no Bush ! O aboio dos nossos vaqueiros , segundo Câmara, também de lá veio, bem como o pandeiro e o tamborim que adornam nossas escolas de samba. As histórias e festas populares nordestinas estão povoadas da cultura islâmica: as Cavalhadas, o Reisado, A Chegança, o Cordel , Duelos de Espadas, os nossos Contos Infantis. “Bão-Balaão, Senhor Capitão/ Em terra de mouros , morreu seu irmão...”Há historiadores que lembram, inclusive, a semelhança entre o Afeganistão e Canudos de Antonio Conselheiro ou das hordas iraquianas com as imagens Glauberianas em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Seriam uma espécie de Afegani-sertão ? – Chegam a perguntar. Basta dar uma olhadinha em uma foto de Canudos, de Flávio de Barros, para se ficar em dúvida: não foi clicada num campo de refugiados árabe?
Existe um outro traço tão freqüente no cotidiano brasileiro de profundas raízes arábicas. O fatalismo é uma delas. “Quando a gente nasce, tudo já está determinado !” Só se falta completar com o Maktub: Estava Escrito! Nossa relação com o divino, também. Vejam os pára-choques de caminhão, o outdoor do pobre. “Deus sempre ajuda” “Dirigido por mim, guiado por Deus””Deus proteja esse carro” “Deus me Guia” . Pois não é lá no Alcorão que se lê: Allah-U-Akbar, ou seja, Deus é grande? Uma das razões de sermos um povo muito supersticioso, devemos também a eles. Tememos o trovão, o relâmpago, o gato preto, as sextas-feiras, a lua nova, o lobisomem, o vôo da coruja... Acreditamos ainda nos sonhos como orientador para o jogo do bicho. Semana passada, observei várias frases em carros aqui em Crato e percebi claramente o temor que temos com a inveja , o “Olho Gordo”. “Não me inveje, trabalhe!” “Falar de mim é fácil, difícil é ser eu” “A sua inveja faz a minha fama””A Tua inveja é minha felicidade” “Com as pedras que me atiras construirei meu castelo” “Deus te dê em dobro o que me desejas”. Pois bem, lembrei o velho Cascudo. Rogar praga a torto e a direito, imprecação, maldição é uma outra herança árabe. Praga de mãe, então, é pior do que bomba atômica. Lembram da praga materna na história do Lobisomem ? E do genial poema “Rogando Praga” do nosso Patativa?
Assim, amigos, não custa recordar que cada míssil que explode no Afeganistão de alguma maneira atinge Canudos; cada bomba que explode no Iraque bombardeia também o Caldeirão; o embate fratricida entre islâmicos e israelenses fere de morte os brasileiros. Você pode até fechar os olhos e concluir que nada tem a ver com isso. Cansado de mourejar, resolve deitar-se num sofazinho baixo e amplo, cruza as pernas e prefere ficar “na sombra e água fresca”. Tudo bem, mas não esqueça que tanto o verbo mourejar, quanto o sofazinho, o cruzado de pernas e a visão paradisíaca da sombra e da água fresca você deve à fabulosa cultura que agora mais uma vez está sendo bombardeada.


J. Flávio Vieira

4 comentários:

  1. Abraço ao grande Darlan pela apciência em ver o texto.

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  2. Zé Flávio

    Parabéns por esta importante lição de sociologia. Cada vez saboreio o nosso delicioso alfenim,(nome de origem ártabe) lembro-me de nossas ligações sanguíneas com mulçumanos e judeus.

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  3. Caro Eduardo,

    Obrigado pela paciência de ler o texto. Vc tem razão nós somos tofos meio orientais, queiramos ou não.

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