15 maio 2009

A Força da Palavra – por Carlos Eduardo Esmeraldo

Sentado na varanda do velho casarão do São José, onde vivi minha infância e parte da adolescência, gozo minhas merecidas férias. Neste momento ansiosamente aguardado, revejo a linha do trem, com vários operários realizando os últimos preparativos para a instalação do Metrô do Cariri, que transportará os moradores do Crato para o Juazeiro e vice-versa. Como que de repente, as lembranças afloram. Não encontro mais a bodega às margens da poeirenta estrada para o Juazeiro, repleta de trabalhadores nas manhãs de domingo. Alguns realizavam suas compras semanais e acertavam o pagamento dos débitos anotados na cadernetinha; outros bebericavam uma cachaça com gengibre. Não existe mais a velha e sombreada mangueira no meio do amplo terreiro trazendo-nos sombra e abrigo. Nem o limoeiro carregadinho de frutos na beira da cerca do curral. E as vacas que estão no antigo curral, hoje transformado numa vasta plantação de capim, não são mais aquelas vaquinhas pé-duras de então. Mas encontro aquele menino tímido, a poucos metros da ferrovia, baladeira em punho, operando-a com a mão esquerda certeira e estraçalhando as vidraças das janelas do trem de passageiros. E o que pensávamos improvável, aconteceu; o trem parou fora da estação, sem nenhum defeito, apenas para que o guarda-freio comunicasse o fato ao pai daquela criança peralta que, mais de meio século depois, revive aquela cena. Revejo aquele menino de oito anos de idade, ainda hoje um incorrigível sonhador, que resolveu ganhar alguns trocados vendendo limão de porta em porta nas ruas do Crato. Pensava garantir as compras mais essenciais para qualquer criança: o ingresso aos cinemas nas manhãs de domingo e sorvetes. “Quer comprar limão?” Gritava debalde. Quando alguém respondia lá de dentro da casa, era com um sonoro “não!” Como ele aprendeu a receber um não! Até que, numa casa de sala alta da Praça da Estação, após uma mulher gritar que não precisava de limão, a outra, sua companheira, emendou: “Esse menino é filho de Zé Esmeraldo. Não precisa vender limão. Vai ver que foi o pai dele que mandou!”
Pela primeira vez aquela criança sentiu o peso das palavras sobrepondo-se aos sonhos. As palavras, às vezes, carregam uma cruel violência, principalmente quando carregadas de preconceitos. Por isso, da venda de limões ficou apenas o apelido “Limão”, que ganhou de um rapaz que morava na Rua José Carvalho; apelido esse, substituído por “Lagartixa”, pouco tempo depois. Mas aí já é outra história.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

7 comentários:

  1. Prezado Carlos,

    Pois é, depois de rodar o mundo todo e mais alguma coisa, a tendência de todos nós é se aconchegar em algum canto e enveredar pelas reminiscências de um passado repleto de lições de vida.
    Agora, aqui prá nós, a "casa de sala alta da Praça da Estação" seria a residência do Miguel Theunas, depois prefeito do Crato ???

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  2. Olá Mariano

    A bem da verdade, não conhecia os moradores daquela casa que ficava no meio do quarteirão fronteiro da praça. A casa do senhor Theunas era um amplo casarão da esquina e eu não oferecia meus limões por lá, pois achava que rico não precisava de limão. Imaginava que somente os obres faziam chá de limão com folhas de eucalíptos.

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  3. Entre as boas lembranças da infância no interior, a história mostra como a "força das palavras" gera efeitos que permanecem vivos ao longo do tempo. Imagina aqueles que sofrem esse tipo de violência constantemente, não só através de palavras, mas através de gestos que buscam atestar a sua inferioridade na sociedade brasileira, tal como acontece quando atravessamos a rua, com medo de um "preto e mal vestido" que vem em direçao contraria, por pressupormos que é um ladrão. Ou quando nos dirigimos a um outro preto no supermercado para pedir uma informação, pressupondo que é um funcionário. Ou ainda quando, por exemplo, os condomínios obrigam os funcionários a usarem um elevador separado dos moradores (Elevador social e elevador de serviço, tal como uma Casa grande e Senzala). às vezes nem sequer percebemos os efeitos de nossas palavras e gestos

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  4. Carlos excelente texto. Não é uma mera lembrança, um encadear de reminiscências. È o mesmo menino rico que não precisava vender limão, quebrava vidro de baladeira, vendo o metrô em frente da seu velho alpendrado. Tudo fazendo sentido, não apenas a recolha da vida como bem nota o Mariano (não podia usa o Nilto e nota), é algo mais, fazendo sentido mesmo quando os sonhos são outros e a realidade igualmente diferente.

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  5. Carlos

    Você só esqueceu do carro de boi que ficava encostado no canto da cerca.
    Mas isso já foi depois que nos conhecemos. Gostei muito do seu texto.
    Beijos

    Magali

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  6. Prezado Zé do Vale

    Muito obrigado pelo incentivo. Mas faço uma ressalva: Menino rico uma "ova"! Eu tinha mesmo que vender limão e comprar livro "fiado" na Livraria Católica.

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  7. A Magali e Carlos Eduardo Filho

    A plateia de casa tem o direitode se manifestar. Fiquei feliz com os comentários da mãe e do filho. Abraços e beijos.

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