10 março 2009

Sufoco - Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Ah, os médicos! Na ânsia de prolongar nossos dias nesta vidinha mais ou menos, criaram um idioma próprio para nos deixar aflitos. É justo que cada categoria profissional tenha seus termos técnicos. Até os pedreiros os têm. Mas a língua dos homens de jaleco branco é russo puro! Ai do pobre mortal que se meter a besta de ler os diagnósticos dos inúmeros exames que eles pedem. É sofrimento na certa! Outro dia, eu fui fazer um exame rotineiro do coração, pois não desejo ser surpreendido por um enfarte. A minha cardiologista, com muita competência, ressalte-se, achou de pedir dois exames esdrúxulos que, apesar de indolores, deixaram meu pescoço e peitoral todo lambuzado de um gel difícil de ser retirado. Haja papel toalha para limpar o estrago. Ao receber o resultado, fui surpreendido pela Magali, que me mostrou os exames e lá estava para um leigo na tradução da língua médica, um terrível diagnóstico: “doença ateromatosa discreta da carótida, turbulência diastólica no ventrículo esquerdo devido à insuficiência aórtica.” Pronto, com tamanha verborréia, eu que imaginava viver até os cem anos, como a minha tia Rosinha Esmeraldo, achei que não botaria nem até a próxima semana. Por isso, apressei-me a levar o resultado à doutora, a fim de ver se era caso de cirurgia ou se haveria algum medicamento que minorasse os efeitos daquelas anomalias. A atendente me disse que ela somente poderia me receber na semana seguinte. Argumentei que os resultados do exame não eram muito bons e em tom dramático disse que não saberia se na próxima segunda-feira, eu ainda estaria vivo. Com esse papo, ela conseguiu que a médica me visse imediatamente. “Nada demais, tudo normal, o senhor está perfeitamente bem. Essas discretas calcificações são próprias da idade. Seria preocupante se fosse num menino de dez anos.” Tranquilizou-me a doutora.

No ano passado, andei sentindo umas tonturas muito fortes. Como fazia uma semana que usava um colírio por recomendação médica, li a bula e lá estava: “possíveis aparecimento de tonturas e cefaléias.” Pronto, o problema é o colírio, pensei. Só falta agora a dor de cabeça! Antes que ela aparecesse, voltei à oftalmologista e pedi que mudasse de colírio, pois vinha tendo muitas tonturas. Ela me deixou bastante preocupado, ao mandar-me ao neurologista, pois com toda a certeza as minhas tonturas não eram do colírio. Puxa! Só faltava essa: um tumor no cérebro! Vali-me do meu amigo Marcos Cunha, que me indicou um otorrinolaringologista. Meu caso era compatível com labirintite, disse-me ele. Este, após uma glicemia em jejum, precedida de uma deliciosa garrafinha de glicose pura, me encaminhou a um endocrinologista, que constatou uma novidade: eu estou “pré-diabético.” Nada de doces. Adeus rapadurinha da Serra Grande, substituta à altura da rapadura do engenho do Pau-Sêco, a melhor do mundo! Ah, coitadinho do doce de buriti do São José, o mais gostoso dos doces! A receita, minha mãe herdara da minha avó e hoje está com a minha prima Elza, que continua a produzir o excelente doce de buriti do São José, para tristeza de todos nós, pobres "pré-diabéticos". Agora enfrento um regime alimentar totalmente dietético e com muito mato. Até que, recentemente descobri nas prateleiras do supermercado um doce de goiaba dietético. Achei de comprá-lo. Após o almoço, enquanto conversava, experimentei o tal doce. Estava delicioso! Tinha goiaba ao vivo! Sem que me desse conta, comi meio pacote desse doce e, saí para as minhas aulas na UECE. Após as primeiras horas de aula, comecei a sentir uma turbulência no meu ventre baixo. Os gases denunciavam alguma diarréia a caminho. As tripas estavam revoltosas. No intervalo do recreio, fui ao banheiro dos alunos. Mas não tive coragem de encará-los. Estava imundo, mal-cheiroso e sem papel. Acreditei que daria tempo chegar a minha casa, afinal restavam apenas mais cem minutinhos de aula. Que nada! O sufoco ia crescendo a cada instante. Precisava arranjar um meio de me aliviar. Não poderia ser nas calças, ali na frente dos alunos. Então eu me lembrei do novo prédio do Centro de Estudos Sociais Aplicados, onde pela manhã, dou aulas de Cálculo Integral no curso de Administração de Empresas. Era a minha salvação. Ainda houve tempo suficiente para que deixasse um problema de matemática com os alunos, cuja resolução, levaria no mínimo uns vinte minutos. Corri para o novo prédio, cerca de cem metros de onde eu estava. Lá havia banheiros exclusivos para os professores. Estavam muito limpos, mas faltava papel higiênico. Que fazer? Não havia como pedir à secretária, pois esta não se encontrava no seu local de trabalho. Desesperado, fui até a porta do banheiro, quando vi no corredor defronte, o flanelógrafo repleto de avisos. Não tive a menor dúvida: arranquei-os todos, entre eles um cartaz de um curso de mestrado e fui me aliviar. O aviso do mestrado deu o arremate final no polimento do "alívio". Ao retornar à sala de aula, o problema que seria solucionado em vinte minutos, já estava pronto. Os alunos conversavam animadademente e, ao me virem, um deles, muito gaiato, indagou: “Melhorou do sufoco, professor?” Somente depois desse dia, é que fui informado que doce dietético em excesso provoca desarranjo. Agora estou mais contido no meu desejo irrefreável de saboreá-lo, pois se houver uma recaída, quem sabe se a exigência daquele pequeno órgão a ser limpo, não evoluirá para um curso de doutorado?

Por: Carlos Eduardo Esmeraldo

9 comentários:

  1. Pois é, Carlos,

    Como eu sou também muito hipocondríaco, também morro de medo de exames por 2 razões:

    1 - A dor de fazer o exame. Tem exame que é doloroso.

    2 - O resultado do exame. Quem procura, acha!

    Sendo assim, desde o ano 2000, estou para fazer um exame de sangue e de outras coisas. Coração ? Ih cara! talvez eu pertença ao grupo que irá bater as botas de repente. Talvez seja melhor morrer na ignorância do que passar o resto da vida com mêdo da morte próxima. Mas eu me cuido. Se for REALMENTE preciso, creio que posso enfrentar tudo isso, mas infelizmente, prevenção é coisa difícil de se executar.

    Prevenção significa exames. Exames podem relevar problemas. Eu estou tão atarefado de coisas pra fazer que não posso me dar ao luxo de ficar doente fazendo exames, parando os trabalhos que precisam ser feitos e que ninguém faz por mim...42 anos.

    Viver é uma coisa complicada...

    Abraços,

    Dihelson Mendonça

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  2. Carlos Eduardo,

    Mesmo diante da "gravidade" (falei gravidade e não gravidez... risos) do caso, você tem a marca do humor e faz com que a gente não absorva a ansiedade vivida por você.Gostei de te ler...

    Abraço,

    Claude

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  3. Prezado Dihelson

    Quem escreve, expõe até as vísceras, sem saber, ou sem querer. No texto "Sufoco", aqui postado, minha intenção era ironizar a terminologia médica que pode nos levar a conclusões diametralmente opostas. Relatei situações de minha própria saúde, que graças a Deus está bem, assim penso eu, e o cuidado que tenho em me tratar. E também uma pequena história vivida em sala de aula, que quando narrei para alguns amigos, foi motivo de muitas gargalhadas. Não sabia que era hipocondríaco. Obrigado por ter me advertido. Mas cuide de sua saúde, ninguém tem dia marcado para morrer e este, que será inevitável, poderá ser adiado.
    Abraços

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  4. Claude

    Muito obrigado pela sua observação em que você tão bem percebeu o sentido que desejei dar às minhas palavras no presente texto. Fico feliz pelo seu comentário.

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  5. Bela crônica esta de Dr. Carlos. Fala das coisas do mundo dos homens com um humor fino e delicioso como os doces de S. José.
    Crônica como esta revigora nosso entusiasmo pela vida.
    Parabéns !

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  6. Carlos,

    Uma situação tão constrangedora como essa que você passou, desesperado procurando papel higiênico nos banheiros da Uece, na hora não foi nada engraçado. Mas você tem o dom de amenizar as situações difíceis da vida com muito humor. Quando me contou o caso me fez rir muito e quando escreveu também. Rir é o melhor remédio para a nossa saúde. Continue contando seus "causos" engraçados, alegrando a vida das pessoas.

    Beijos

    Magali

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  7. Carlos.

    Eu vou sempre adiando de manha para a tarde, de um dia para o outro e nada de exames. Sou medroso. Com diz o Dihelson: não procuro.

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  8. Prezados amigos:
    Prof. Zé Nilton, Magali e Morais:
    Agradeço as palavras de incentivo de vocês. São estímulos para que procuremos continuar. Abraços!

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  9. Também passei por um sufoco semelhante, quando ainda estava na faculdade. Estava dirigindo, resolvendo pendências, quando começou aquela dor fina, que rapidamente se tornou insuportável, querendo a todo custo descarregar a necessidade de forma mais imediata possível. Na rua onde eu estava o local mais próximo onde havia um banheiro era exatamente no prédio da faculdade, e era o primeiro dia do semestre letivo. O prédio da faculdade ficava a cerca de 2km de distância, mas a quantidade de semáforos e a dor intensa fez parecer uma eternidade. Ao mesmo tempo em que buzinava desesperadamente (e olha que detesto buzina), perdi as contas de quantos "pai nossos" e "ave marias" rezei para poder aguentar chegar ao destino com a minha cueca limpa e intacta. Quando finalmente cheguei, rezei para que não encontrasse ninguem conhecido, pois assim que saí do carro fui correndo como um atleta em busca de quebrar o recorde dos 100 metros. No caminho para o banheiro, um amigo grita: "Carlos Eduardo, essa hora da manhã e você assim tão apressado"?? Eu continuei correndo, disse "oi", permanecendo no meu percurso até o banheiro. Não quis nem saber se tinha ou não papel higiênico, em questão de segundos já tinha descarregado todo o sufoco. Ainda tentei encontrar meu amigo para explicar a situação, mas não consegui. Depois disso fiz um pequeno mapeamento da cidade para saber quais banheiros de acesso público posso usar numa situação como essa.

    Carlos Eduardo Filho

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