03 fevereiro 2009

O "inquestionável" progresso de Juazeiro - Por: José Nilton Mariano Saraiva

Juazeiro na "Mídia" Global

Transformada por absoluta conveniência televisiva no novo xodó da mídia global, Juazeiro do Norte, não há como se negar, até porque em assim procedendo estaríamos a obscurecer o próprio óbvio ululante, cresceu, expandiu-se e literalmente “inchou” de forma vertiginosa em relação às demais cidades interioranas, à sombra da cruel, massacrante e desumana exploração da fé dos “romeiros do meu padim ciço”. Em verdadeiras hordas itinerantes, oriundas de esquecidos e recônditos grotões interioranos do Nordeste, essas singelas e inocentes pessoas, normalmente desprovidas de maior conhecimento ou saber, ainda assim e até por isso mesmo, são capazes de - à custa de extenuantes sacrifícios materiais, físicos e financeiros - pouparem os parcos e suados trocados que percebem durante anos a fio, para, adiante, em verdadeiras e bravas odisséias a bordo de paus-de-arara desprovidos de higiene, de qualquer resquício de conforto e comprovadamente inseguros, os consumirem em sofridas e desgastantes excursões à Meca prometida, mesmo que de lá retornem mais indigentes, esfolados e maltrapilhos que nunca, porquanto constituindo-se presas fáceis e massa de manobra em potencial para as maquinações de picaretas e aproveitadores que se escudam atrás do pomposo rótulo de operosos “comerciantes”, a serviço do “padim”.

“Comerciantes” que, na verdade, não passam de eficientes “laranjas” ou testas-de-ferro de invisíveis, megalômanos e insensíveis empresários de alto coturno, estes, sim, reconhecidos grandes sonegadores de tributos ao fisco por anos a fio, mercenários por natureza e cujo objetivo derradeiro é a satisfação das próprias necessidades e projetos pessoais, independentemente da torpeza dos métodos utilizados na sua obtenção (se preciso for esfolar financeiramente o coitado do romeiro, esfole-se; arrancar-lhes até o couro, porque não; sem maiores traumas). Isto posto e abdicando da latente hipocrisia que caracteriza e normalmente faz-se presente na discussão de tão controverso tema por parte dos sacripantas de plantão (que dele só se beneficiam), permitimo-nos ousar na definição simplória mas contundente do “porquê” ou das “causas” do exponencial crescimento da cidade de Juazeiro do Norte (em seus primórdios), mesmo que em assim procedendo sujeitemo-nos ao escalpo do nosso ainda vasto couro cabeludo, à ira dos fiéis, ou às pragas e à ignomínia dos seus apaixonados habitantes: é que, maquiavelicamente, numa bem ensaiada, urdida e harmoniosa ação coletiva, estimulada pelo próprio poder público e insistentemente divulgada pela mídia, a pretexto de se comemorarem os diversos aniversários envolvendo a figura do Padre Cícero (do nascimento, da ordenação, da celebração da primeira missa, da ocorrência do pretenso “milagre”, da morte, e por aí vai) a população daquela cidade passa todo o ano (e o ano todo) a locupletar-se despudoradamente, sem dó nem piedade e com uma avidez impressionante, daquela pobre e humilde gente, através das tais romarias, hoje famosas e globalizadas (recentemente, aqui mesmo no blog, reportagem transcrita do Diário do Nordeste mostrou a absurda exploração na atual festança, onde presumíveis duzentos mil romeiros foram literalmente espoliados pelos “magnânimos” comerciantes e moradores da cidade).

Assim, em bom português e para que quaisquer dúvidas não remanesçam: o inquestionável progresso de Juazeiro, a arrancada vertiginosa da “santa” e “religiosa” urbe, se acham umbilicalmente interligados e ultradependente de, pelo menos, duas principais ações pecadoras e ultrajantes, quais sejam, 1) o evidente descalabro do enriquecimento ilícito, oriundo da criminosa sonegação fiscal por parte de uma classe empresarial desprovida de quaisquer escrúpulos e que sempre gozou do beneplácito de fiscalizações suspeitas e corruptas, quando tanto; e 2) ao aviltante escorchamento e exploração da miséria coletiva da ignara plebe rude por parte de testas-de-ferro de tais empresários, mancomunados e coadjuvados pela própria “religiosa” população da cidade (fato, aliás, absolutamente corriqueiro e que sói acontecer em urbes que se pretendam santuários religiosos - Aparecida-SP, é um exemplo).

Esta é uma dura constatação, bem o sabemos; evidentemente que de difícil absorção por parte do verdadeiro exército de pessoas com interesses envolvido, fácil constatar; mas à qual não se poderá fugir quando se pretenda examiná-la a fundo, doa a quem doer, aqui ou lá. Além do que, como a mídia é poder e precisa forjar de tempos em tempos situações, mitos e heróis que de alguma forma lhe propiciem algum iminente retorno mercantil de curto ou médio prazo, a estratégia utilizada em sua alavancagem e consolidação é de uma oportunística simplicidade franciscana: divulgar, aqui e alhures, sistemática e maciçamente, em conluio com a Igreja, o duvidoso (já que nunca comprovado) “milagre de Juazeiro”, fixando no imaginário popular a idéia de que, muito embora num passado não tão distante o insurreto e controverso Padre Cícero haja sido “injustamente” penalizado e até ameaçado de excomunhão por ela, Igreja, a tendência natural é que esta finde por quedar-se à força do mito, da mídia e da conseqüente pressão popular, reabilitando-o com toda a pompa, galhardia e circunstância, para, ao final – suprema glória - beatificá-lo e transformá-lo no tão sonhado “santo de Juazeiro”. Como corolário, teses de mestrados e doutorados serão elaboradas a toque de caixa, e “especialistas”, preferencialmente estrangeiros, serão convocados a se pronunciarem; novos milagres hão de ser-lhe atribuídos e agregados à sua biografia (ainda que saibamos que tal processo obedece, sim, à lógica capitalista e, como tal, sua materialização dar-se-á por questões de cunho eminentemente mercantil). Afinal, tão fortes parceiros, Igreja e mídia, disso necessitam, independentemente da providencial entrada em cena de um ator de peso e influência: o onipresente, determinante e todo poderoso componente político. Mas isso já é uma história, um outro olhar, uma outra angulação, uma outra realidade.

Autoria e Postagem: José Nilton Mariano Saraiva

14 comentários:

  1. Prezado Jose Nilton, voce abordou o assunto com um brilhantismo, técnica e perfeição, que não arriscaria dizer nada, pois se assim o fizesse estragaria esse maravilhoso texto.Meus sinceros cumprimentos e respeitos.Luiz Cláudio Brito de Lima

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  2. Luiz,

    Obrigado. Apenas procuramos colocar no papel aquilo que todos sabem, mas evitam comentar.
    O mais triste nisso tudo é constatar, todos os anos, a morte de romeiros na volta da perigrinação: agora mesmo a televisão informa que ontem à noite onze pessoas faleceram e muitas ficaram feridas na virada de um caminhão pau-de-arara que voltava de Juazeiro.
    As autoridades constituídas informam que vão investigar o porque dos romeiros viajarem de caminhão (é vero, não é brincadeira).
    Quanta hipocrisia !!!

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  3. Luiz,

    Só por curiosidade: você morou na rua Teopisto Abath, quando residia no Crato ??? Seu pai se chama (ou chamava) Válter ???

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  4. Amigo José Nilton, o único local em que morei no Crato, foi na Rua Cel. Raimundo Lobo, próximo ao sesc. Meus Pai chama Severino Baia de Lima e minha Mãe Neuma Brito de Lima, ambos, graças a DEUS vivos.Abraços meu prezado amigo. Luiz Cláudio Brito de Lima.

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  5. Luiz Cláudio,

    Veja só que coincidência: a casa dos meus pais e irmãos é exatamente na rua Cel. Raimundo Lôbo, 173, alí pertinho da mercearia do Bezerra. Embora só visitemos o Crato esporadicamente (na exposição), será que já nos cruzamos por lá ???
    Meus pais: Pedro Saraiva de Macêdo (que foi vereador da cidade em várias legislaturas) e Josefa Mariano dos Santos (D.Zefinha), recém-falecida.
    Será que nossas famílias se conhecem ???

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  6. Nasci virgem sobre a proteção de São Raimundo Nonato, abençoado por Nossa Senhora da Conceição, e devoto de Nossa Senhora Mãe do Belo Amor.
    Fui durante as pregações do Padre Argemiro, um acompanhante fiel, devotando-lhe o maior respeito, pela figura carismática que era, e pelo voto de pobreza que tinhamos a oportunidade de ver e de acompanhar.
    Fugi das ordes religiosas, quando vi o sentimento religioso misturtado-se com a política, e o lado carnal das relações no meio dos seus representantes ser um assunto banal, batendo de frente com tudo aquilo que era proclamado pela igreja.
    Sofri todo tipo de censura familiar e de amigos, por ser considerado escrachado, pelo fato de ter a coragem de romper o silêncio do tema, e tentar entender essas disparidades conceituais.
    Via na crescente ganância financeira, o rompimento de todas
    as vertentes que transformassem a fé, na salvação dos pecadores, e virasse apenas um comércio de penas, em benefício de uma instituição superior, que exigia bons resultados financeiros.
    E o que vemos hoje, é toda uma verdade narrada no seu artigo, tão bem articulado.
    É uma pena, que do meio de uma instituição que sempre pregou a caridade, o amor ao próximo,a estruturação familiar, e tantos outros belos temas, surja uma enxurrada de picaretas, que prostituem a fé, pensando apenas nos resultados financeiros, que lhe proporcionem apenas, uma vida nababesca, de uma centena de verdadeiros vivaldinos.
    De longe observamos o contraste que se transformou o Juazeiro,de um lado o jornalismo religioso, e do outro a crônica policial mostrando o inferno, que se instalou na sua periferia.
    Tem muito pano pra se esticar.

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  7. Jose Nilton, acredito que fui vizinho de seus Pais sim.Apenas me confirme as seguintes dúvidas: seu Pai (Sr.Pedro) era um senhor que sempre estava de chapéu? sua irmão chamava Dilma e seu irmão Coquil(acho que assim que se escreve)?A casa que morava com meus Pais, era do Sr.Geraldo Lobo, eram várias casas identicas.Acho que tinha outro irmão chamado Wilson É isso mesmo?

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  8. Luiz,

    Na mosca; as pessoas que que você descreve são os meus familiares.
    E você, está aonde, hoje ???
    Labuta com quê ???

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  9. Que coincidência Jose Nilton.Eu com meus 12 anos, gostava de ficar parado ao lado de sua irmão Dilma, olhando ela fazer as palavras cruzadas,eu falava,falava,falava, ela sorria muito e respondia algumas coisas.Já Coquil,à época, era rapaz e eu criança.Todo final de ano estou no Crato, evito compromisso nesse período, justamente para passar com meus Pais.Respondendo sua pergunta, estou em São Paulo, sou advogado.E voce amigo,esta no Crato? Trabalha com o que?Que satisfação, a minha admiração agora aumentou mais.Abraços.Luiz láudio Brito de Lima

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  10. Estive no Horto há bem pouco tempo. Na casa do Padre Cicero vi uma filheira de potes de cantaleiras desprotegidos de qualquer higiene, nem um guardanapo cobria-lhe a boca. Uma mulher segurava uma mangueira ligada a uma torneira da rua abastecendo os potes com agua enquanto as filas de romeiros se serviam da agua no mesmo momento que era colocada no pote. O padre devia colocar bebedouros já que o dinheiro de comprar uma agua mineral o romeiro prefere deixar para igreja.

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  11. Morais,

    Isso é "café pequeno" ou só um "aperitivo".
    Você sabe que se eles pudessem esfolavam o pobre e ainda arrancavam o couro do coitado ali mesmo, ao vivo, à procura do vil metal (que é o que lhes interessa, afinal)
    Agora, veja só: os coitados foram reverenciar o "padim" e acabaram por perder a própria vida (onze ja morreram e dezenas ficaram feridos).
    Como a Igreja explica isso: que o pagamento da devoção seja a própria extinção (não venham com a manjadíssima desculpa da "fatalidade",ok) ???.

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  12. Prezado Luiz,

    Residimos em Fortaleza (desde 1971), terminamos Ciências Econômicas na UFC, somos aposentados do serviço público (BNB-Banco do Nordeste do Brasil S/A) e ainda hoje estamos a nos submeter a concursos (INSS, Receita Federal, etc) numa tentativa de complementar nossa combalidíssima renda mensal.
    Prazer imenso conhecê-lo, ainda que virtualmente (mais um "serviço" do blogdocrato).

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  13. Jose Nilton, é provavel que não lembre e/ou tenha visto o amigo no Crato, pelo fato de, conforme voce esclareceu que deixou a cidade para Fortaleza em 1971 - nessa data tinha tinha apenas 1 ano de idade.Porém, foi uma satisfação imensa saber desses detalhes, e saiba que a minha casa nessa cidade tão poluida, terá o prazer imenso em recebe-lo, quando por aqui estiver.Abraço.Luiz Cláudio Brito de Lima

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