17 fevereiro 2009

Impressões luso brasileiras. Falar português - Andrei Lapa de Barros Correia

Pensei em chamar esse texto Lusofonia, mas seriam duas palavras muito parecidas, muito próximas. Dizem que as repetições de palavras devem ser evitadas, pois os efeitos estilísticos são ruins. A regra não deve ser assim tão absoluta e, se for, é desobedecida frequentemente. O primeiro período do texto fornece um exemplo. Talvez a regra aplique-se às palavras menos comuns, ou cuja repetição é inevitável, mas continuo sem saber como delimitar a sua aplicação. O fato é que me pareceu melhor chamar a língua por seu nome próprio, o nome que serve a ela e à nação onde ela surgiu. De toda forma, a repetição evitada com a utilização de sinônimo termina resultando no mesmo e pode ter sido vã minha preocupação. A língua está aqui a propósito do signiicado que tem para o povo que a utiliza. Ela pode ser muito mais que o código usado por um grupo para comunicar-se e ainda pode ser mais que um elemento comum de identificação desse povo. Pode ser indissociável desse povo, no sentir das pessoas. O português não é indissociável dos brasileiros, dos moçambicanos, dos angolanos, dos caboverdianos e, principalmente, dos timorenses. Nós, brasileiros, somos, entre outras coisas, identificados pelo uso do idioma português, mas ele não é originalmente nosso, não foi nossa criação. Talvez pertençamos mais a ele, que ele a nós. Antes que se vejam motivos para me acusar de alguma comparação desfavorável aos recebedores do idioma, quero advertir que não vai aqui algum juízo de valor dessa espécie. Os norte-americanos, por exemplo, ainda são a nação mais poderosa do mundo e poderiam ser objeto da mesma abordagem. Onde se receberam línguas – tendo perecido as que se falavam antes – não existem muitos problemas de exaltação ou rejeição, de orgulho ou vergonha, de cuidado ou desleixo. As coisas simplesmente não se colocam nesses termos, apenas tem-se a língua como o meio comunicador e um dos elementos de identificação. Acontece que as linguas são vistas diferentemente – talvez menos do que esteja me parecendo aqui – por quem as tem como suas, propriamente suas. Conversava com um colega português bastante agradável, um advogado que de certa forma não parece exatamente talhado para a advocacia, tal é seu gosto pela literatura. Dizia-me da sua percepção dessa relação com a língua portuguesa, que me fez destilar os parágrafos anteriores. E perguntava-me sobre o que sentíamos. Claro que afirmava mais que perguntava, o que é sempre sinal de gentileza nas pessoas inteligentes e de presunção nas menos aquinhoadas. Ele está no primeiro grupo.

Então, lembrei-me da nossa situação na América do Sul. Somos os únicos lusófonos, imersos em faladores de castelhano e meia dúzia de utilizadores de francês e holandês. Antes que eu articulasse esses pensamentos e os expusesse, meu perspicaz interlocutor disse que a lusofonia isolada do Brasil, na América, tendia a ser mais um elemento de afirmação, uma vez que estávamos enriquecendo a olhos vistos.

Não discordei, porque era o que estava pensando, ainda confusamente. É curioso, se fosse a Argentina a ter um potencial econômico igual ou maior que o resto do continente somado, não faria o mesmo. Não faria porque o castelhano, sozinho, não os distinguiria dos outros sul-americanos falantes de castelhano.
Aí está, o português é para nós um elemento de distinção, muito nítido nas nossas relações sul-americanas, mas não vai ser carregado na bagagem de alguma epopéia brasileira, como tesouro precioso. Se houver uma epopéia brasileira, será um pouco à maneira de Odisseu, ávido por voltar para casa, botar os usurpadores a correr e, quem sabe, contar como triunfou sobre as sereias.

Nós, temos, sim, muitos cuidados com a língua. Nos a estudamos, a enriquecemos, nos a mantemos muito viva, mas não somos seus pais. Por isso, talvez até sejamos menos piedosamente escrupulosos e demos a ela maiores possibilidades vitais. Somos co-proprietários, mas não estávamos presentes aos trabalhos de construção dos seus alicerces. Não digo, até porque disso não se trata mesmo, que Portugal seja um país de eruditos, de praticantes da mais fina sofisticação linguística, de falantes que extraem do idioma tudo que ele pode dar. Não é disso que falo, muito embora o nível médio do domínio da língua seja sensivelmente maior por aqui que no Brasil, até porque a educação é melhor. Digo que a língua, para Portugal, é mais que uma forma de não ser espanhol, ou alemão, ou francês. É mais que um meio de identificar o autor de uma obra, seja ela boa ou má. Ela é parte da própria obra.

Por: Andrei Lapa de Barros Correia
De Braga, Portugal.

Um comentário:

  1. Andrei: acabei de ler o teu texto e me vi na contramão justamente do que já havia por certo. Ao buscar uma matriz maior, afinal a estrutura central das línguas centrais do teu texto (o português e o castelhano) é a mesma, ou seja o latim. Se estamos numa igualdade central a diferenciação portuguesa e espanhola afinal é uma forma tão própria assim? Por esta visão não seriam. Seriam ramos de tronco bastante sólido posto que civilizado. O outro dado é a contemporaneidade do Brasil com a própria formação da língua portuguesa. Me desculpe não revisar as datas com certeza, mas vejamos alguns fatos que podem ser erro de data, mas não de século. O primeiro texto escrito me português (quando efetivamente a língua se constitui em algo diferente do latim vulgar) se encontra aí por volta 1245. A primeira gramática, a de João de Barros, por volta de 1530, portanto quando o brasil já começava a ser colonizado pelos portugueses. Agora vejamos no dicionário do português falado no Brasil a leva criativa de palavras ameríndias, africanas, neologismos, algumas coisas inventadas pelo uso local e claro a enxurrada contemporânea da modernidade com os novos termos da tecnologia aplicada. O modo de desenvolver a argumentação no português do Brasil é próprio, o canto é próprio e regionalmente variado, toda a nossa fonética é muito própria. De qualquer modo seria muito interessante outros desdobramentos nesta visão que apresentastes.

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