11 fevereiro 2009

DESESPERO SOBRE AS ÁGUAS

Não é doce morrer no mar. Menos ainda sobre o imponderável das alturas de um jato cruzando o Atlântico. Acrescente-se que os passageiros seguem numa caixa hermeticamente fechada, com oxigenação artificial, pressão atmosférica idem, assim como é artificial voar-se em permanente confronto com a universal força da gravidade.

Uma casa na praia. Intervalar delícia nesta amarga luta da sobrevivência. Toda a família mobilizada. O filho mais velho mostrando vontade de luta e como presente uma viagem à Europa em companhia do pai. A mãe na labuta a dois de levantar os fundos para tais regalos, não foi. E assim a história teria sua conclusão. Mas não.
O telefone toca. No outro lado o fim dos tempos.

- Diana estou me despedindo desta vida. Chegou a minha hora. Sobre o mar. O avião vai cair. O comandante já avisou. Estamos tentando voltar. Mas não vai dar. Estes são os últimos momentos de minha comunicação. Não voltaremos mais.

A voz do lado de cá da casa de praia e era ebulição em panela de pressão. Queria mais explicações. O marido não respondia às perguntas. Afinal o que acontecia? O telefone desliga e começa uma busca desesperada por notícias. Imediatamente familiares são acionados. Para aumentar o clima, outro telefonema, vindo de Petrolina, agora a cunhada chorando em desespero. Ela também tinha sido alvo das despedidas transoceânicas.

A companhia responsável pelos aeroportos brasileiros desconhecia qualquer acidente aéreo. A polícia federal também. A companhia de aviação em que o marido viajava nem algo até mesmo que um simples atraso. A rede de solidariedade se organizou, foram tantas as trocas de informações e nada que desse conta de qualquer problema. Só não acionaram a CIA, pois pegaria mal com os EUA tendo um novo governo justamente naquele momento da desgraça final de Bush. O Papa, aí já era querer muito, além do mais o assunto dele é trânsito de almas e nenhuma informação havia em que almas se tenham desencarnado.

Por último a companhia aérea confirmou o pouso com uma hora de atraso. A conclusão é que se tratava de um exagero do sofrido marido, grande vítima do pânico aéreo. Nem com dormonid consegue desligar-se da tensa relação com o espaço além das nuvens. Finalmente o desembarque e lá vem o maridão feito uma brigada de carga ligeira.

- Diana nunca mais me mande viajar sozinho de avião.

Desfecho da história: lá vinha o avião saindo de Portugal sobrevoando o Atlântico. Afinal Lisboa é a própria beira mar. Depois dela só as águas históricas do mercantilismo. Então como se dizia: o comandante avisa que tinham um problema e que voltariam ao aeroporto para conserto.

Foi aí que em pleno vôo esta narrativa se motivou para a escrita. Já que era o fim mesmo, com as favas a segurança de uma ligação de celular. Mesmo quando se proibia a ligação os passageiros em pânico telefonaram para os parentes. O comandante deu um alerta geral nos incautos passageiros. E foi assim que se deu a mudez pós telefonema de juízo final.

Afinal que haveria de se arriscar? Logo com o condutor de seu vôo até o território que jurou jamais sair.

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