21 abril 2008

Interblogs

Por sugestão de Dihelson Mendonça, adicionei a este Interblogs a primeira parte da postagem Nordeste Revisitado, de Tiago Araripe, tirado do seu blog Cabelos de Sansão, e que narra as peripécias, encalços e percalços da turnê da banda Papa Poluição ao Nordeste, em meados da década de 1970.



Nordeste revisitado


Na foto, Paulo, Tiago e Beto: Papa Poluição no Teatro Municipal de São Paulo.

E o Papa Poluição pega a estrada, numa das raras incursões do grupo fora do estado de São Paulo. Seria final de 1978. Toda a nossa excursão pelo Nordeste foi organizada por carta. Isso mesmo: o velho e bom correio. Não tínhamos empresário – os dois únicos que se dispuseram a isso ao longo dos cinco anos de existência do Papa não eram exatamente dignos de confiança (um deles, procurado pela Polícia Federal, escafedeu-se; a outra nos deu um calote).
Penna e eu viajávamos a bordo de Sofia, nossa kombi recém-adquirida, juntamente com o equipamento do grupo (algo modesto, principalmente se relacionado aos sofisticados PAs de hoje). Paulinho levava Xico Carlos, Beto e Bill na sua Brasília que não era amarela.
E dá-lhe estrada.
De São Paulo a Salvador, onde faríamos nossa primeira apresentação da viagem, são 1.962 quilômetros. Não paramos para dormir: fazíamos isso nos próprios carros. Na kombi, havia um espaço mínimo entre as caixas de som e o teto – suficiente para que eu e Zé Luiz nos revezássemos para um cochilo no colchonete ali estrategicamente colocado.
Os postos rodoviários requeriam toda a nossa atenção: a bordo de Sofia, apenas eu era oficialmente habilitado a dirigir. Se Penna estava ao volante, era impressionante a rapidez com que alternávamos nossas posições ao avistar um posto ou barreira policial – mesmo com o veículo em movimento. No mais, evitamos maiores problemas simplesmente entregando exemplares dos nossos discos aos guardas. Não sei bem como, mas funcionava. (Na volta substituímos os presentes por mangas, que trazíamos do Cariri.)Chegamos à Bahia pela Ilha de Itaparica, onde ficamos um ou dois dias para nos restabelecer do estirão da estrada. Ao avistarmos o mar, depois de tanto tempo papando a poluição paulista, não tivemos dúvidas: paramos os carros e entramos na água com roupa e tudo. Depois nos instalamos em casa na ilha, da família do Paulinho, numa praia simples e acolhedora chamada Cacha-Prego.
Após o show que abriu a excursão, em um clube de Salvador, levantamos acampamento rumo a Fortaleza. Na capital cearense, hospedados na casa do jornalista, compositor e cineasta Francis Vale, fizemos temporada de quatro apresentações no Teatro da Emcetur. O show estava afiado, com o grupo entrosado e ótima iluminação produzida por Túlio Penna, irmão de Zé Luiz que se juntara a nós em Salvador. Graças à boa divulgação, obtida com auxílio de Francis, tínhamos o teatro cheio todas as noites.Como a proposta da excursão era funcionar também como férias patrocinadas, após o show íamos para a Beira-Mar - e as conversas se estendiam madrugada adentro. Pessoas como Petrúcio Maia e Rosemberg Cariri juntavam-se a nós em discussões às vezes acaloradas. Bebíamos muito. Promovíamos jantares para o pessoal da imprensa. E com a mesma facilidade que o dinheiro entrava, saía.
(Eu jamais imaginaria, àquela altura, que décadas depois voltaria a Fortaleza... para ficar.)

O destino seguinte foi o Cariri. No Crato, terra natal minha e do Xico Carlos, fomos recebidos como celebridades (doce ilusão). A nossa apresentação, no intervalo de um baile com o conjunto Ases do Ritmo, lotou o Crato Tênis Clube. Até minha avó e uma tia, velhinhas, estavam lá. As duas cabeças branquinhas no meio da multidão não destoavam do clima de festa em que estávamos mergulhados.
Nas cidades seguintes, Juazeiro do Norte e Barbalha, a lógica da programação seria a mesma: apresentação em clube, no intervalo do baile. Mas por alguma falha de comunicação, nossos bem intencionados interlocutores entenderam que o baile ficaria também por nossa conta. O que se sucedeu foi algo com que não contávamos. As pessoas estavam ali não apenas para nos ver. Queriam também dançar. Não atendê-los poderia comprometer a nossa integridade física. Ou seja: a barra poderia pesar...
Nossa estratégia de sobrevivência foi simples, mas exaustiva: disparamos nossas músicas mais dançantes. O público entrou no clima, tudo começava a funcionar às mil maravilhas. Mas o repertório era curto, e o baile não podia parar. Assim, ao concluir o último número da série, Penna fez um anúncio solene. Disse que, atendendo a pedidos, iríamos tocar tudo de novo. Foi o que fizemos uma, duas, três vezes. Lembro de Paulinho com os dedos sangrando, de ficar tanto tempo tocando guitarra. Valeu o sacrifício: conseguimos sair sãos e salvos.
Em Barbalha, o filme se repetiu na noite seguinte. Estávamos tão exaustos que, após cada rodada do repertório, dávamos um intervalo. À medida que a noite avançava, os intervalos iam ficando maiores. Certa ocasião, ouvi uma pessoa dizer, indignada, que o conjunto fazia mais intervalo que música. A atmosfera estava tensa, mas ao final também escapamos com vida.Ficamos uns dez dias no Cariri, aproveitando o convívio com familiares e amigos. À tarde costumávamos encher o carro de meninos do Lameiro, bairro rural do Crato, para jogar futebol num campinho no pé da serra. Era divertido até para um notório perna-de-pau como eu. Uma dessas partidas contou a participação de celebridades: o jogador Afonsinho e o cantor Fagner, tendo Amelinha como expectadora.
Do Cariri seguimos para João Pessoa, onde realizamos duas apresentações no belo Teatro Santa Roza. Na saída do hotel, um imprevisto. A pessoa que organizou o show sumiu, e só conseguimos convencer o gerente a nos deixar sair com muito custo: a conta não havia sido paga. O mesmo sujeito havia assegurado a continuidade de nossa tour em Aracaju. Mas ao chegarmos na capital sergipana, o teatro estava fechado. E o diretor, na Europa. O que nos coube fazer foi dormir um pouco na praia, e em seguida retornar a Salvador. Dali seguimos a longa viagem de volta a São Paulo.
Mas estávamos de alma lavada. Pelo mar do litoral nordestino e pelas nascentes da Serra do Araripe.

Tiago Araripe

cabelosdesansao.blogspot.com

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O GRITO DOS MUDOS - Por Luiz Cláudio Brito.



Outro dia conversava com um senhor em uma fila de banco, e após discutirmos vários assuntos, olhando-me nos olhos disse: “há se eu pudesse falar para todos ouvirem” . Confesso que sai daquela agência bancaria intrigado com aquela frase, passei o dia envolto de problemas corriqueiros, entretanto as palavras não saiam da mente. Pensei, pensei, pensei e de nada adiantava, pois não encontrava respostas.

Passados alguns meses, deparei-me no escritório com um problema sério, gravíssimo que como profissional teria que resolver (ou tentar), ouvi atentamente o que o meu cliente narrava, a cada fala daquele cidadão, revolta-me como se tivesse ocorrido comigo , senti o problema, passei a ser parte dele, não acreditava que o representante do poder público, aquele o qual depositamos toda nossa confiança pudesse agir daquela forma com uma pessoa que sempre se comportou de maneira exemplar na sociedade.

Nesse momento então comecei a compreender o significado da expressão “há se eu pudesse falar para todos ouvirem” , revelava o sentimento de todos nos diante da injustiça, da fome, da falta de compromisso dos nossos governantes, da falta de perspectiva de um futuro melhor, da desesperança de uma educação pública de qualidade, da apatia no controle de epidemias há muito descobertas, do dinheiro “na cueca” , dos cartões corporativos, etc.. , se fosse mencionar todas, ficaria meses.

O grito dos mudos assemelha-se ao de um náufrago, perdido em uma ilha imensa, sabedor que por mais que se esforce para ser ouvido, não será, pois a imensidão do mar funciona como um abafador – analogicamente o nosso mar seria os nossos representantes na política – quem não sabe que a saúde não atende a contento? quem não viu, e sentiu, as estradas esburacadas ceifando vidas? Quem não sabe que a nossa “carta magna” garante saúde, educação, moradia, salário digno, etc.,?Quem não viu a expansão das favelas nas grandes cidades (nas pequenas também)?Quem não viu um aposentado passar necessidade?Quem não sentiu mudanças no clima, alterando consideravelmente as estações?Quem não viu crianças que deveriam estar na escola, pedirem esmolas nos semáforos?Quem não viu o morto ser carregado pelas ruas da capital, haja vista a incompetência do poder público?Quem não viu em períodos chuvosos, pessoas perderem tudo (ou pouco que tinha), em virtude de uma falta de planejamento para enfrentar o problema? Quem não viu o desperdício do dinheiro público (nosso)?

O grito dos mudos rompe fronteiras, continentes, culturas, paises, povos, entretanto , o grito dos mudos repercute em sim mesmo, volta para o seu interior, faz eco no seu subconsciente, guarda desejos, explode emoções, acredita na vida, pensa no próximo, todavia morre no regresso.

Oxalá permitisse, não falar mais alto, mais em coro, pensar em conjunto, agir em equipe, organizar-se e buscar tudo aquilo que clamamos e não conseguimos nos fazer ouvir, talvez o grito dos mudos, de tão uníssono faça-se ouvir aos quatro cantos do mundo, e ai sim sairemos da caverna em que nos encontramos para o mundo. E quando o grito dos mudos tornar-se audível, não tenham dúvidas o mundo será melhor, a vida prazerosa, as crianças bem preparadas, os moços compreensíveis, os idosos saudáveis e felizes, esperando outros momentos para lançarem mais sementes do bem e construírem o mundo e uma vida melhor para todos. Não deixemos nunca de gritar, pois por mais inexorável que possa parecer, um dia seremos ouvidos. E viva o grito dos mudos.

Por: Luiz Claudio Brito.