28 março 2008

Heróis ?? Heróis ? Toma, Bial !!!!


UM PUXÃO DE ORELHAS NO BIAL DO BBB...


Ao Sr. Pedro Bial

Prezado Senhor
Pedro Bial

Digníssimo Jornalista, apresentador da Rede Globo
de Televisão.


Confesso Sr.Bial que não sou espectador do programa o qual o senhor apresenta. Talvez para felicidade da minha cultura e para infelicidade do índice de audiência, ao qual seu programa está atrelado. Mas, tive durante um dia desses, num dos raros casos fortuitos que o destino apresenta, a oportunidade de, por alguns minutos, apreciar o tão falado Big Brother Brasil, o BBB. Para minha surpresa, durante uma ou duas vezes o senhor, ao chamar os participantes para aparecerem no vídeo o fez da seguinte maneira:

- Vamos agora falar com nossos heróis!

De imediato tive uma surpresa
que me fez trepidar na cadeira.

Heróis????

O senhor chama aqueles que passam alguns dias aboletados numa confortável casa, participando de festas, alguns participando até de sessões de sexo sob os ededrons, falando palavras chulas e no fim podendo ganhar um milhão de reais, de heróis?

Pois bem Sr. Pedro Bial, eu trabalho numa Plataforma Marítima que se localiza, aproximadamente, há 180 km da costa brasileira e contribuimos, mesmo modestamente, para que o nosso País alcançasse auto-suficiência em Petróleo e continuamos lutando, todos nós, para superar esse patamar.

Neste último dia 26 de Fevereiro presenciamos um acidente com um dos Helicópteros que faz nosso transporte entre a cidade de Campos e a Plataforma. As imagens que ficaram em nossa mente Sr. Bial, irão nos marcar para o resto das nossas vidas. Os seus 'heróis' Sr Bial, são meros coadjuvantes de filmes de segunda categoria comparados com os atos de horoismos que presenciamos naquele momento.

Certamente o Senhor como Jornalista que é, deve estar a par de todo o acontecido. Mas sei que os detalhes o Sr. desconhece. Pois bem, perdemos alguns colegas. Colegas esses, Sr Bial, que estavam indo para casa após haver trabalhado 15 dias em regime de confinamento. Não o confinamento a que estão sujeitos os seus 'heróis', pois eles têm toda uma parafernália de conforto, segurança e bem estar, que difere um pouco da nossa realidade. Durante esse período de quinze dias esses colegas falaram com a família apenas por telefone. Não tiveram oportunidade de abraçar seus filhos, de beijar suas esposas, de rever seus amigos e parentes... Logo após decolar desta Plataforma com destino a suas casas o Helicóptero caiu no mar ceifando suas vidas de modo trágico e desesperador. E seus 'heróis' Sr Bial, a que tipo de risco eles estão expostos? Talvez aos paredões das terças-feiras, a rejeição do público, a não ganhar o premio milionário ou a não virar a celebridade da próxima novela das oito. Os heróis daqui Sr Bial foram aqueles que desceram num bote de resgate, mesmo com o mar apresentando um suel desafiador. Nossos heróis Sr. Bial desceram numa baleeira, nossos heróis foram os mergulhadores, que de pronto se colocaram à disposição para ajudar, mesmo que isso colocasse suas vidas em risco. Nossos heróis Sr. Bial, não concorrem ao Premio de um Milhão de reais, não aparecem na mídia, nem mesmo os nomes deles são divulgados. Mas são heróis na verdadeira acepção
da palavra. São de carne e osso e não meros personagens manipulados pelos índices de audiência. Nossos heróis convivem aqui no dia-a-dia, sem câmeras, sem aparecerem no Faustão ou no Jô Soares.

Heróis, Sr Bial são todos aqueles que diariamente, saem das suas casas, nas diversas cidades brasileiras, chegam à Macaé ou Campos e embarcam com destino as Plataformas Marítimas, sem saber se regressarão as suas casas, se ainda verão seus familiares, ou voltarão ilesos, pois tudo pode acontecer: numa curva da estrada, num acidente de Helicóptero, no vôo comercial de regresso a sua cidade de origem....



Não tenho autoridade suficiente para convidá-lo a conhecer nosso local de trabalho e conseqüentemente esses nossos heróis, mas posso lhe garantir Senhor Bial, que caso o Sr estivesse presente nesta plataforma durante aquele fatídico acidente seu conceito de herói certamente seria outro.

Carlos Augusto Lordelo Almeida.
Técnico de Segurança
Plataforma P-XVIII

Matéria publicada originalmente no Blog "O Democrato" de George Macário.
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Em memória dos colegas:
Durval Barros
Adinoelson Gomes
Guaraci Soares


A QUEM POSSA INTERESSAR: O blog do Partido Verde-Crato está no ar!

Veja o link abaixo:

http://www.emverdade43.blogspot.com/

Dia da àrvore é todo dia!

Na Quadra Bi-centenário fomos recepcionados pela Banda de Musica do Crato tocando magistralmente o hino da cidade. Depois, vieram as falas das autoridades civis e militares presentes, dentre elas o Dr. Herberte de Vasconcelos Rocha - Superintendente da SEMACE- e DR. André Barreto – Presidente do CONPAM.
Para encerrar a solenidade da quadra, o artista e intérprete performático João do Crato cantou canções que dizem respeito ao meio-ambiente acompanhado ao violão por seu irmão Franciné Ulisses.

Aproveitando a chance, Ed. Alencar, neto do “velho” Jefferson da Franca Alencar, nos acompanhou em visita ao sítio Fundão que se transformará brevemente no nosso Parque Estadual com área de proteção ambiental integralmente preservada. No passeio, reconhecendo o valor ecológico da área, o Dr. Herberte fez questão de cumprimentar o cratense Dr. André Barreto pela coragem e enfrentamento do projeto agora concretizado. (Clique nas fotos para melhor visualização).

Sitio Fundão será preservado!

(foto:Sr. Jefferson da Franca Alencar clicado por lcsalatiel)
Até que enfim, dia 11 de fevereiro se torna uma data marcante para aqueles que prezam a vida e o nosso meio ambiente. Pelos esforços e empenho do Comissão de Gestão do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, tendo a frente o seu presidente o cratense Dr. André Barreto, foi assinado o ato que decreta o Sítio Fundão área de interesse social. Este é o primeiro passo para a desapropriação daquele micro-bioma, em torno de 96 hectares, que deverá ser um parque estadual com fauna e flora preservadas. A propósito, Dr. André Barreto visitou a Urca para encomendar documentação junto a estudantes, pesquisadores e professores para a fundamentação (motivo) do processo que justifica o tombamento e preservação do Sítio Fundão como Parque Estadual de Preservação Ambiental Integral. A negociação de idenização do estado para com a família já está bem adiantada. Crato é verde por natureza!

Pelas lentes de Fellini: 1964

Eu tinha doze anos em 31 de março de 1964. As lembranças que tanto marcaram minha geração não possuem o romantismo de Casimiro de Abreu. Para mim, são imagens aleatórias como as do filme Amarcord, de Federico Fellini. Tanto na cidadezinha italiana de Rimini, como no Crato, dois meninos assistiram ao espetáculo do fascismo, sem compreender o que se passava. Em Rimini, os sinos da igreja tocavam pela chegada da primavera e pela visita de Mussolini. Na minha cidade, mandaram tocar os sinos em louvor ao golpe militar, que bania o perigo do comunismo ateu. E mais tarde, Igreja e Prefeitura ofereceram um banquete das arábias na visita de Castelo Branco, o cearense ditador.

No dia 13 de março, meu pai ouvira o comício da Central do Brasil, num velho rádio Philips que antes funcionava a bateria. Lembro os discursos de Arraes, Brizola e João Goulart, pois o rádio ficava junto de minha rede, e eu não conseguia dormir com o barulho. Achei a voz de Brizola parecida com a dos profetas de Juazeiro do Padrinho Cícero. Os personagens da cena política brasileira não significavam quase nada para mim, mais ocupado com os banhos nas nascentes do Cariri, o cinema e as revistas em quadrinho. Minha mãe sempre temerosa de tudo acendia velas para Nossa Senhora Aparecida, uma santa de porcelana que ganhei de uma tia, quando fiz a primeira comunhão.

Meu pai, um udenista fervoroso, votara em Jânio Quadros para presidente, e durante a campanha política usava uma vassourinha dourada, presa ao bolso da camisa. Tomou um porre no dia em que saiu o resultado da eleição. Foi a primeira vez que eu o vi embriagado. Minha mãe, como todas as esposas da época, votava com o marido e estava mais preocupada com a administração da casa, de sete filhos, um irmão solteiro, dois sobrinhos e três empregadas, todos sustentados por meu pai.

Prenderam nosso vizinho Dedé Alencar. Ele botou na vitrola um disco da campanha de Miguel Arraes e deixou que tocasse o dia inteiro. Falaram que era comunista, mas nunca foi. Vivia ocupado com o comércio de farinha de mandioca, num armazém perto da estação do trem. Foi solto no começo da noite. A mesma sorte não teve um bancário de nossa rua. Levaram o rapaz de manhãzinha, quando passávamos pro colégio. A esposa perguntava aos curiosos se nunca tinham visto um homem sendo preso.

Havia muito alvoroço em torno da casa de D. Benigna, mãe de Miguel Arraes, uma casa sertaneja de portas sempre abertas, onde todos eram bem recebidos, proseavam e enchiam a barriga. As irmãs do governador de Pernambuco cantavam no coro da igreja de São Vicente, onde eu assistia missa. Dona Anilda, a mais velha, foi minha professora de francês e um dia me passou uma reprimenda porque falei que o hino do Brasil era mais bonito que a Marselhesa.

Pairava sobre as pessoas mais interessantes do Crato a suspeita de serem comunistas. Ninguém falava com elas, pois era perigoso. Igualzinho ao tempo da epidemia de peste bubônica na cidade. Prendiam os suspeitos da doença, levavam para um hospital e de lá eles nunca retornavam. Nem sei que fim levou os jogadores de gamão e seus copos de conhaque. E o revendedor de cigarros, o dono da sapataria com um palito entre os dentes, duas professoras gaúchas e um padre que ensinava história?

Nós meninos, para quem as notícias tardavam nos jornais do cinema, compreendíamos vagamente a revolução. Havia as novelas de rádio, doutrinárias contra o comunismo; havia a "Aliança para o Progresso", que mandava alimentos e roupas usadas dos americanos para os pobres; e havia a sonhada visita ao Brasil de John Kennedy e sua esposa Jacqueline.

Só em 1968 pude enxergar de perto o lado truculento de 64. As lentes da câmera se modificaram e fotografei estudantes sendo trucidados e jogados dentro de camburões, em Fortaleza. Em 1970, quando estudava medicina no Recife, nosso professor de anatomia ameaçou-nos com o Quarto Exército. Tentava nos manter submissos com o terror. Mas essas já são outras lembranças, bem pouco fellinianas.


Ronaldo Correia de Brito é médico e escritor. Escreveu Faca e Livro dos Homens.

Fale com Ronaldo Correia de Brito: ronaldo_correia@terra.com.br

A Descendência de Caim



“ Que fizeste ! Eis que a voz do sangue
do teu irmão clama por mim desde a terra. De ora
em diante , serás maldito e expulso da terra, que abriu
sua boca para beber de tua mão o sangue do teu irmão.
..........................................................
Caim retirou-se da presença do Senhor , e foi habitar
na região de Nod, ao oriente do Éden”
Gênesis 4.10-4.16


A violência tem se tornado uma irmã siamesa da sociedade moderna. Mal se abrem as folhas do jornal ou comprime-se o botão do remoto, imediatamente salta à nossa frente a rubra tinta com que é escrita, hoje, -- mais que nunca-- a história da nossa humanidade. O leitor há de lembrar não ter sido nos últimos anos o desencadeamento da luta fratricida. Desde as cavernas , até o Shopping Center , o homem tem uma terrível trajetória. À medida que a Ciência avançava, avassaladoramente, em busca do conhecimento e das descobertas que poderiam curar moléstias , minorar o sofrimento, proporcionar o conforto ia, por outro lado, criando as guerras, alimentando as diferenças, acendendo as fogueiras, forjando os grilhões. Ao descer das árvores nosso irmão primata trouxe consigo a inteligência criadora numa mão, mas na outra teimou em carregar ainda os rapaces instintos da floresta que havia acabado de abandonar. O homem é esta mescla de lobo e cordeiro , de anjo e demônio.
O que mudou, enfim, nos últimos anos ? Por que a violência tem se tornado cada vez mais presente e insuportável para nós ? Claro que com o boom dos meios de comunicação, começamos a ter olhos espalhados por todo planeta. O massacre dos monges budistas do Tibet nos entra de porta adentro, como se estivesse acontecendo na nossa calçada. E aí salta, de repente, a pergunta na nossa frente : até que ponto presenciar tanta chacina , tanto sangue escorrendo rua abaixo, até que ponto isto termina por nos embotar a vista e fazer com que toda violência se banhe num enganador molho de normalidade ? E ainda, qual a influência destas notícias em despertar o demônio dormente nas cotidianas testemunhas oculares dos crimes da humanidade ? Estas questões são polêmicas e aqui ficam para reflexão. Alguma coisa, no entanto mudou nos tempos modernos: a crescente capacidade destruidora humana com a fabricação de armas de destruição em massa. Bons tempos aqueles em que o homem dizia-se lobo do homem, hoje o homem é a alcatéia do seu semelhante.
Esta semana , aqui em Crato, todos se espantaram com a notícia do assassinato de um jovem e promissor advogado, aparentemente contratado pela própria esposa e o amante dela. O pretenso motivo, o mais antigo da história deste mundo : dinheiro que deveria vir de um seguro de vida. O grosso da população comentou em todos os cantos e lugares, aparentando uma consternação distante e mal disfarçando aquele ar sádico que permeia a maior parte das nossas relações sociais. No fundo, todos estavam, de alguma maneira, felizes com a notícia que haveria de alimentar as línguas nos próximos quinze dias, até ser substituída por uma outra, de preferência, igualmente cabeluda. Pouco se ativeram à tragédia terrível que tinham pela frente: um jovem advogado que teve a vida ceifada impiedosamente; uma adolescente plena de conflitos da própria idade e que tem a vida definitivamente arruinada e seu filho órfão de pai e mãe e que terá que crescer carregando consigo o peso de muitos cadáveres às costas. Antes dos nossos juízes de plantão, nas praças, clubes, mesas de bar, declararem as suas sentenças , lembremos que ninguém tem consigo os autos do sentimento, das emoções, das fragilidades pessoais para ter condições de fazer juízo de valor sobre o caso. As famílias envolvidas já carregam consigo tanta dor, tanto sofrimento que ninguém tem o direito de torturá-las mais ainda. Deixemos que a justiça siga seus passos , investigue e julgue imparcialmente . A vida, por outro lado, haverá de sorrateiramente fazer a sua parte, ninguém mexe no equilíbrio do universo impunemente.
E não se engane não, caro leitor, qualquer homem nesta terra é capaz da mais inimaginável atrocidade. Os maiores crimes da humanidade foram cometidos por pessoas perfeitamente normais aos olhos do povo, meros burocratas, a maior parte das vezes cumprindo ordens. Todos nós, queiramos ou não, fazemos parte da descendência de Caim. Se puros, perfeitos e imaculados estaríamos no Éden. Imperfeitos como somos, um dia tivemos de arrumar os trapos e nos mudamos para as frias terras de Nod.


J. Flávio Vieira

A Bíblia de Gutemberg


Estranho paradoxo: enquanto a CNBB pressiona contra as pesquisas com células-tronco, a PUC-RS valoriza estudos que procuram verificar a existência de "cérebros criminosos". Se a vida é dom divino, a violência pode estar inscrita nos genes? Reflexões sobre o papel a que a igreja renuncia

No filme O Dia Depois de Amanhã, dirigido por Roland Emmerich, especula-se sobre os efeitos climáticos provocados pelo aquecimento global. Nele, o climatologista Jack Hall (Dennis Quaid) vê seu filho de 17 anos, Sam, (Jake Gyllenhaal) preso em Nova York, onde tem de enfrentar as fortes inundações e o declínio dramático das temperaturas. Refugiado em uma biblioteca pública, Sam tem a companhia de sua namorada e amigos, além dos bibliotecários. Para se manterem aquecidos e vivos, eles decidem queimar os livros na lareira, até então desativada.

Em dado momento do filme, um dos bibliotecários agarra decididamente uma das 180 versões impressas da Bíblia de Gutenberg. Não por fé em Deus: ele se declara ateu. Decide defender da fogueira um dos símbolos da era da razão: a invenção da imprensa, por Johann Gutenberg (em 1450), que ajudou a deixar para trás as sombras da Idade Média.

Foram necessários mais alguns séculos para que, em meados do século 18, a ciência moderna, saída da revolução científica do século 16 pelas mãos de Copérnico, Galileu e Newton, começasse a deixar os cálculos esotéricos dos seus cultores, para se transformar no fermento de uma transformação técnica e social sem precedentes na história da humanidade.

Fala-se da vida como algo subjetivo, intencional e natural de Deus, reduzindo a ciência a uma ameaça — quando, na realidade, é a vida que deveria justificar as pesquisas humanas
Essa foi uma fase de transição. Deixava perplexos os espíritos mais atentos e os fazia refletir sobre os fundamentos da sociedade em que viviam e os possíveis impactos positivos da ordem científica então emergente. Mais de 200 anos depois, somos todos protagonistas e produtos dessa nova ordem — testemunhos vivos das transformações que ela produziu.

Se Gutemberg precisou inventar uma prensa de tipos móveis e levou aproximadamente cinco anos para imprimir 1282 páginas da Bíblia, vivemos hoje em tempos “reais”, onde acontecimentos em qualquer parte do planeta invadem nosso presente do aqui e agora. Não falamos mais de tipos móveis, mas de nanotecnologia, que foi expressa em 1972 (ou seja, há 35 anos) como algo distante e ficcional. Hoje, está presente nas roupas que usamos diariamente, nas chuteiras das fabricantes milionárias de material esportivo e na produção de alimentos, para não nos estendermos a outros ramos da produção.

No Brasil, o dilema das pesquisas sobre as células-tronco coloca em xeque sentimentos e dogmas religiosos, relacionados à Igreja Católica. Fala-se da vida como algo subjetivo, intencional e natural de Deus, reduzindo a ciência e as pesquisas a uma ameaça — quando, na realidade, é a vida que deveria justificar as pesquisas humanas.

* * *
Em 1975, o diretor Milos Forman, baseado no livro de Ken Kesey, dirigiu o polêmico filme “Um estranho no ninho” (One Flew Over the Cuckoo’s Nest), uma crítica e denúncia do sistema dos manicômios. Nele, Randle Patrick McMurphy (Jack Nicholson), um prisioneiro, simula estar insano para não trabalhar, e vai parar numa instituição para doentes mentais. Lá, ele estimula os internos a se revoltarem contra as rígidas normas impostas pela enfermeira-chefe Ratched (Louise Fletcher). Mas não tem idéia do preço que irá pagar por desafiar uma clínica "especializada". Ao final, tem um lobo de seu cérebro extirpado por uma cirurgia, como solução e controle.

No mesmo momento em que a CNBB condena as pesquisas com células-tronco, a Pontifícia Universidade Católica (PUC) está iniciando, em Porto Alegre, estudos que parecem inspirados pelas mesmas teorias que recomendam a lobotomia. O Programa Fantástico de 27 de janeiro revelou seu sentido: “O que leva uma pessoa a cometer um assassinato?". Os pesquisadores explicaram que estudarão os cérebros de jovens envolvidos em crimes bárbaros, para buscar a resposta.

Cerca de 50 jovens, entre 15 e 21 anos, de um total de 680 internos da Febem gaúcha, serão “cobaias”. Eles terão o cérebro examinado em uma máquina de ressonância magnética funcional, que mostra o cérebro em funcionamento. "O cérebro do delinqüente, sofreu, mudou, é diferente? Vamos investigar", diz Mirna Portuguez, neuropsicóloga da PUC/RS.

Os neurocientistas esperam comprovar uma suspeita: a de que os homicidas têm partes do cérebro atrofiadas, reduzidas de tamanho. A mais importante delas é o lobo-frontal, que controla os impulsos dos seres humanos. Segundo as idéias que parecem orientar os pesquisadores, uma causa essencial da violência humana é atrofia do lobo frontal do cérebro. As pessoas com esta característica teriam mais dificuldade para conter seus instintos -– um traço que seria típico do comportamento assassino.

Pesquisas como as da PUC-RS suscitam dois tipos de protesto. O primeiro é ético. "Estamos tratando de adolescentes. Não são cães, nem macacos. São pessoas”, acusa Ana Luiza de Souza Castro, psicóloga do juizado de menores do Rio Grande do Sul. Nos últimos anos, parte das próprias pesquisas com animais tem sido contestada, por crueldade e futilidade.

Do ponto de vista científico, tais estudos ecoam a tentativa de naturalizar, ou biologizar distúrbios e conflitos sociais. Remetem, por exemplo, ao I Congresso de Antropologia Criminal, realizado em Roma, em 1885, no qual as teses e propostas de Cesare Lombroso [1] obtiveram grande sucesso e reconhecimento.

Entre muitas outras obras escritas deste então, o livro Crime e loucura, de Sérgio Luís Carrara oferece uma alternativa à idéia do crime-doença. Ao juntar as monomanias (delirantes, raciocinantes e instintivas), ele aponta a existência de uma "culpa sem razão" ou de uma "razão sem culpa". Somos culturalmente determinados por heranças sociais, que se manifestam em nosso corpo biológico — não o contrário, como insistem os sociobiologicistas de laboratório, acostumados a hamsters e cadáveres.

A igreja poderia jogar papel muito positivo. Para tanto, seria preciso superar uma velha disputa entre ciência e religião — e refletir sobre a propriedade do conhecimento
Não me recordo de polêmica proposta pelo Vaticano ou CNBB para se contrapor ao tipo de "estudo" pretendido pela PUC-RS e alardeado pelo Fantástico. Ao voltar-se, em vez disso, contra as pesquisas com células-tronco, a igreja católica desperdiça uma enorme possibilidade. Sua ação poderia ser de grande relevância para ajudar a fazer contraponto ao uso das descobertas científicas em favor de objetivos pouco éticos: a devastação da natureza, a ampliação das desigualdades, a emergência de grupos sociais ou nações capazes de exercer dominação sobre outros. É algo que tem ocorrido invariavelmente, nos últimos 200 anos.

Para tanto, seria preciso superar uma velha disputa entre ciência e religião — e refletir sobre a propriedade do conhecimento. Adorno, Benjamim e a chamada Escola de Frankfurt cunharam o conceito de indústria cultural, para criticar a transformação do lazer e entretenimento em objetos de consumo e de uso político e ideológico. Hoje, há uma indústria da vida sendo desenhada — desde as pesquisas realizadas pela Alemanha nazista e os EUA, durante a Segunda Guerra e Guerra Fria. No combate a esta tendência, todas as religiões seriam muito bem-vindas.

Mais de 500 anos depois de os povos da África serem escravizados pelos europeus, o Papa João Paulo II, talvez como um ato de grandiosidade humana à beira da extrema-unção, pediu perdão pelos crimes de omissão e participação da Igreja Católica. Não sem tempo, as contradições da Igreja continuam.


Alexandre Machado Rosa
"Le Monde Diplomatique"