11 dezembro 2008

O DECLÍNIO DO IMPÉRIO DANTAS


Por Anselmo Massad e Glauco Faria.

Atribuir a Daniel Dantas o papel de simples corruptor é ignorar o ambiente extremamente favorável em que ele adquiriu e consolidou seu poder. Mais que isso, ele é fruto e também agente das concepções financistas que dominaram os debates econômicos mundiais na década de 80, e que posteriormente fincariam suas raízes no Brasil.
Tido como “gênio” por Mário Henrique Simonsen, conselheiro mundial do Citigroup e responsável pela apresentação de Dantas ao mercado, o banqueiro baiano é um economista que se adaptou com maestria às engenharias criadas pelo capitalismo contemporâneo, além da necessária aproximação com o poder político. Em 1989, ele fez parte, junto com Eliana Cardoso, da delegação do país que participou do famoso seminário promovido pelo professor John Williamson, do Institute for International Economics (IIE) de Washington D.C., sendo um dos responsáveis pelo diagnóstico do caso brasileiro. Na ocasião, foi realizado um balanço das reformas econômicas promovidas na América Latina, chegando-se a uma agenda comum de medidas a serem implementadas pelos países da região. Assim surgia o famoso Consenso de Washington, que receitava, no geral, desregulamentação da economia, abertura de mercado, privatizações e controle da inflação. Na prática, as “recomendações” eram uma forma pouco sutil de organismos multilaterais como o Banco Mundial e o FMI dizerem aos latino-americanos o que fazer para renegociarem suas dívidas externas.
Àquela altura, Dantas já não era um novato no mundo das finanças. Doutor em economia pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), já havia participado de uma espécie de “privatização branca” do sistema Telebrás, promovida pelo governo Sarney. Como lembra o jornalista Luís Nassif, em seu livro Os Cabeças de Planilha, Dantas, junto com Citigroup, consegue comprar ações a US$ 1, valor 20 a 30 vezes inferior ao praticado no mercado. Com a operação, o grupo estadunidense obtém um lucro de centenas de milhões de dólares, o que solidifica a relação entre os dois parceiros, que seria vital no processo de privatização engendrado na era FHC.
A 15 de março de 1990, Fernando Collor tomou posse como presidente da República e, em seu primeiro discurso, revelou: “essa proposta de modernização econômica pela privatização e abertura é a esperança de completar a liberdade política, reconquistada com a transição democrática, com a mais ampla e efetiva liberdade econômica”. No governo anterior, José Sarney já havia instituído o Programa Federal de Desestatização, que tinha como objetivo “transferir para a iniciativa privada atividades econômicas exploradas pelo setor público”, visando a “concorrer para a diminuição do déficit público” e “propiciar a conversão de parte da dívida externa do setor público federal em investimentos de risco, resguardado o interesse nacional”. Collor aprimorou a receita com o Programa Nacional de Desestatização, cuja execução passa a ser responsabilidade do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
No segundo semestre de 1991, o governo federal tocou a privatização da Usiminas e entregou uma nova “carta de intenções” ao FMI, em uma clara aceitação aos ditames do Consenso de Washington. “Está lá bem claro na carta de intenções: em troca de um empréstimo stand by (crédito de curto prazo) no valor de US$ 2 bilhões, destinado à rolagem da dívida externa junto aos credores internacionais, o governo brasileiro está se comprometendo a manter firmemente a atual política recessiva, baseada na manutenção de altíssimas taxas de juros, arrocho salarial sem precedentes, contenção inédita dos gastos públicos e transferência do patrimônio público ao capital privado”, comentava à época o economista Luiz Carlos Gomes em artigo da Revista Princípios. E é dentro desse contexto que o Banco Icatu, do qual Dantas era presidente, começa a se destacar. Aqui aparece a figura do padrinho Simonsen, que havia indicado o jovem ao empresário Antônio Carlos Almeida Braga, dono da Seguradora Atlântica Boavista. Seus filhos Kati e Luis Antônio formaram com Dantas o Icatu, que, logo após a edição do Plano Collor, realizaria um dos seus negócios mais ruidosos. Pouco antes do confisco, investiu na compra de estoques de soja e café, exportando os estoques enquanto a maioria do mercado penava com a falta de liquidez. A jogada teria sido realizada em função de informações privilegiadas.
Ainda por meio do padrinho, aproximou-se do PFL e de Antônio Carlos Magalhães. O fato é que o trânsito de Dantas no Planalto era bom, tanto que Collor chegou a cogitar seu nome para ministro. O jornalista Cláudio Humberto, no seu livro Mil dias de Solidão, narra: “No dia seguinte à sua chegada [a Roma, Itália], em janeiro de 1990, Collor convidaria os economistas Zélia Cardoso de Mello e Daniel Dantas para a conversa sobre a economia brasileira. Impressionado com as propostas algo malucas, desconcertantes, de Dantas, enfant terrible do mercado financeiro e muito bem recomendado pelo ex-ministro Mário Henrique Simonsen, Collor aproveitou o ensejo para mostrar a Zélia que ela não tinha motivos para se considerar a titular do cargo de ministra da Fazenda ou da Economia do futuro governo”.
Se os anos Collor (e também os do governo Itamar que, apesar da aparente divergência em relação a seu antecessor, continuou com parte do ideário e com o programa de privatizações) foram árduos para o país, Dantas conseguiu se sobressair. O Equity, fundo de ações do banco Icatu, tornou-se o mais rentável do planeta em 1993, quando seus rendimentos ficaram 156% acima do dólar. A parceria com a família Braga no Icatu duraria até 1994, quando Dantas fundou o grupo Opportunity. Vôos mais altos estavam sendo preparados.
É companheiros do Blog diante de tantas informações aparecerão "Historiadores" ou biógrafos que escreverão em defesa desse crápula, cria do neoliberalismo, basta Ele colocar um Livro Santo de baixo do braço e fazer uma boa doação.
Saudações Geopolíticas!
João Ludgero

7 comentários:

  1. É de bom alvitre que não nos esqueçamos,jamais, que foi na era FHC que esse autêntico "gênio do mal" (Daniel Dantas), "decolou" de vez e consolidou sua atuação mafiosa, em razão das grandes, imensas e incomensuráveis facilidades que encontrou e do transito livre que lhe foi propiciado junto aos altos escalões da República tucana.
    Quem não lembra, por exemplo, que ele foi recebido em Palacio, na calada da noite, pelo "príncipe dos sociológos" e colaboradores e, no dia seguinte, toda a Diretoria da Previ (fundo de pensão do Banco do Brasil) que houvera se negado a participar de certas operações mafiosas estabuladas pelo dito-cujo, foi sumariamente "escanteada" (colocada prá fora), assumindo uma outra que pôs em prática exatamente o que lhe determinava o Daniel Dantas ???
    Por qual razão o Gilmar Mendes, também um produto de qualidade duvidosa, "made in FHC", o trata hoje com tamanha fidalguia e privilégios ???
    A propósito, na palestra do jornalista Luis Nassif, que assistimos aqui em Fortaleza, onde ele abordou o contido no seu livro "Os Cabeças de Planilha", o próprio fez uma breve comparação entre o político Rui Barbosa e Daniel Dantas, em termos de serem detentores de inteligências privilegiadíssimas...só que a serviço de causas não tão nobres.

    José Nilton Mariano Saraiva

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  2. Na realidade o Banqueiro faz parte de um esquema sedimentado ao longo de anos, cuja ramificação alcança vários setores da sociedade.
    Daí surge a proteção que ele recebe de políticos, judiciário, imprensa, etc...

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  3. Muito esclarecedora e sensata suas colocações José Nilton, esperemos que alguns "Historiadores" não transformem esses fatos em estórias de ateus.

    Saudações Geopolíticas!
    João Ludgero

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  4. Nelio,

    Peço que assine os seus comentários. Comentários anônimos não são permitidos. Deixei passar esse apenas. O único Nélio que conheço é Nélio Costa, um músico contrabaixista de Fortaleza. Como vai, Nélio, é você ?

    Não custa nada nem é perigoso assumir e se responsabilizar por aquilo que se escreve!

    Abraço,

    Dihelson Mendonça

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  5. Dihelson,

    Não assinei o comentário por achar que a identificação do email já bastaria - não foi por medo de assumir a responsabilidade - não sou disso.
    Também não sou o Nélio Costa, nem artista, apenas um Cratense.
    Mas tenho certeza de que se você tivesse nascido no crato na década de 50, e nela passado a juventude, hoje conheceria não apenas o Nélio Costa.

    Sou Nélio Clayton Falcão Júnior, nascido na cidade do Crato, aposentado do Banco do Brasil, filho de Nélio Clayton Barbosa Falcão(este sim, artista), falecido em 1973; e Maria Almira Brito Falcão(muito viva, graças a Deus).
    Moro em Fortaleza há 12 anos, mas não esqueço o Crato, motivo pelo qual sou aficcionado pelo seu Blog.
    Valeu?
    Grande abraço.

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  6. Meu caro Nélio Clayton,

    A Ironia é uma arma que deve ser usada no momento precioso, mas que às vezes funciona...

    Não és o Nélio Costa, mas através dessa ironia, o troxemos para a luz. Seja muito bem-vindo ao Blog do Crato, e que teus dias aqui sejam sempre abençoados.

    Abraços,

    Dihelson Mendonça

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  7. Leia-se Trouxemos ( erro de digitação )...

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