14 dezembro 2008

A MPB Faz a Nossa História !


Colegas ja me adianto pedindo desculpas pelo tamanho do texto, mas acho que vale a pena a leitura do mesmo. Um dos mais polêmicos temas que se travam geralmente entre pais e filhos é aquele que diz respeito ao chamado conflito de gerações, pois sempre há uma tendência dos primeiros em não aceitar os valores do segundo e este os do primeiro. Fato comum, em se tratando de relacionamentos familiares, mas também normal de ocorrer já que com a dinâmica dos movimentos sociais, e a renovação permanente de valores e maneira de ver e encarar a vida, essa “crise” acaba se tornando uma tendência natural, o importante é não se deixar envolver por atitudes preconceituosas e fossilizar comportamentos e idéias, mesmo que elas tenham um peso significativo na formação das pessoas, pois se assim atuarmos invariavelmente nos tornaremos pessoas chatas e insuportáveis de se conviver, sendo assim a atitude mais correta e mais saudável é estar em perfeita sintonia com as mudanças, aceitá-las e procurar com a experiência adquirida orientar os mais jovens, de modo sutil e eficiente evitando traumas e aborrecimentos, e dessa maneira então viveremos felizes.

Mas porque falar de comportamento quando o objetivo da matéria é tratar de música popular? Simplesmente porque é esta própria música que ao longo de muitos anos vem moldando normas de comportamento e atitudes sociais na vida brasileira, basta verificarmos os anos dourados da Bossa Nova, as atitudes rebeldes intelectualizadas de compositores e intérpretes da década de sessenta, e na mesma ocasião as camisas coloridas, cabelos longos e guitarras da turma da Jovem Guarda, sem falar nas metáforas modernistas/antropofágicas revividas e recontextualizadas pelo pessoal da Tropicália que mudaram sensivelmente o perfil dos jovens brasileiros da época, trazendo toda essa influência para seus filhos e muitos até para os netos. Ora essa é uma herança nada desprezível, merece estar sempre se atualizando e renovando-se, pois marcou sensivelmente a outra geração que estaria por vir.

Ao adentrarmos nos anos setenta o mundo vivia momentos de tensão, com a guerra do Vietnã, escândalos como o Watergate, e em nossa tribo tupiniquim um forte esquema de segurança permanente vigiando nossos passos, liderado pelo comando central do exército que se achava no direito de a tudo controlar, até os nossos pensamentos, sim e a música de novo, onde entra então neste cenário? É fácil recordar para quem viveu a época, mas para quem a conhece so por livros, filmes ou ouvir contar, fica as vezes um pouco difícil assimilar certos conceitos e encarar de frente uma realidade histórica que mesmo que não as tenha vivido, também mudou suas vidas.
Entre 1970 e 1979 muitas coisas acontecerem a começar com os “noventa milhões em ação, pra frente Brasil do meu coração”, a música que Miguel Gustavo compôs para a seleção brasileira de futebol, que ganhou o tri-campeonato no México. Se nossos jogadores fizeram brilhantes atuações que encantaram o mundo, aqui em nossa sede, os militares também atuaram de maneira brilhante, torturando e espancando estudantes ao som do hino da seleção num misto de alegria e masoquismo nacionalista, contudo de uma coisa ninguém duvida, que essa foi a trilha do governo Médici, aliada a “este é um pais que vai pra frente” musiquinha cujo refrão estava estampada em nossos carros, vidros das janelas de casas e apartamentos, nos sonhos loucos da Transamazônica e do milagre brasileiro, ironia, que seja, mas esse era o país que tínhamos e quem não estivesse satisfeito, a porta da rua é a serventia da casa.

"Este é um país que vai pra frente ô ô ô ô
De uma gente amiga e tão contente ô ô ô ô
Este é um país que vai pra frente
Um povo unido de grande valor
É o país que canta trabalha e se agiganta
É o Brasil do nosso amor."

Apesar do apelo ufanista e da proposta de vivermos num paraíso, a realidade nua e crua era outra, porém, ainda tínhamos fortes guerreiros lutando pela causa da música popular, e foi assim que saiu em 1972 um exemplo dessa resistência, o Disco de Bolso da Revista Pasquim, onde se podia tomar conhecimento das novas produções musicais e do que rolava na cabeça de nossos artistas, mas como tudo na vida tem um fim o projeto morreu em seu segundo número, porque não estava a serviço da quartelada imposta a nação, mas ficou registrado como o lançamento oficial de quatro artistas que iriam movimentar o cenário musical da época, João Bosco, Aldir Blanc, Fagner e Belchior. Tentar impedir o desenvolvimento da produção intelectual brasileira era uma tarefa que não seria possível realizar, mesmo com todas as tentativas impostas, pois hoje, um pouco já distante no tempo verificamos que os anos setenta foram os responsáveis por uma geração de músicos, compositores e intérpretes que fizeram as nossas cabeças e que continuam fazendo sutilmente e sem forçar a barra à dos garotos de hoje, neste caso as gerações se completam, uma adquire ou absorve os valores da outra e vivemos felizes, mesmo que para isso ainda tenhamos que sofrer outro tipo de resistência, agora não mais oficial e totalitaria, porém, democrática. Mas vamos caminhar um pouco mais, o Nordeste invade o Brasil com Elba Ramalho, Alceu Valença, Zé Ramalho, Amelinha e nessa mistura de ritmos, cores e sentimentos, ainda vamos ver e ouvir, Gonzaguinha, Ivan Lins, o samba moderno de Benito de Paula, Simone, Rita Lee, Raul Seixas, Novos Baianos, Tim Maia, Paulo Diniz, Antonio Carlos e Jocafi e muitos outros, pois a lista é enorme. A nossa música popular continuava fazendo a sua história e os governantes insistindo em realizar a sua trilha sonora, e não se pode dizer que eles não conseguiram, afinal de contas desde 1976, que todos cantam e fazem coro relembrando o general Ernesto Geisel que estava de plantão no palácio do Planalto desejando um feliz e venturoso ano novo a cada um de nós, como que querendo apagar as marcas brutais do regime que ajudara a implantar e o tinha conduzido ao poder.

"Este ano quero paz no meu coração
Quem quiser ter um amigo
Que me de a mão
O tempo passa
E com ele caminhamos todos juntos
Sem parar, nossos passos pelo chão vão ficar
Marcas do que se foi
Sonhos que vamos ter
Como todo dia nasce
Novo em cada amanhecer."

Parece que o tiro saiu pela culatra, pois a mensagem foi realmente absorvida pela população só que pedindo reformas e justiça com aqueles que estavam fora, e assim em 1979 com a lei de anistia, este “novo amanhecer” estava surgindo, só que agora não foi cantado nem composto por um anônimo escondido numa propaganda oficial, ele tinha cara, ou melhor três caras, João Bosco, Aldir Blanc e Elis Regina, surge o "Bêbado e o equilibrista", este sim o hino oficial do retorno daqueles que lutavam por um país melhor e mais justo.

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos
A lua, tal qual a dona de um bordel
Pedia a cada estrela guia
Um brilho de aluguel
E nuvens, lá no mata borrão do céu
Chupavam mangas torturadas
Que sufoco!
Louco, o bêbado com chapéu coco
Fazia irreverências mil
A noite do Brasil!
Meu Brasil!
Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora a nossa pátria mãe gentil
Choram Marias e Clarices no solo do Brasil
Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente!
Há esperança!
Dança na corda bamba de sombrinha
Que em cada passo dessa linha
Pode se machucar
Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar".

E o show continuou o país lentamente vai retomando sua história, conduzindo seus passos a fim de por abaixo os momentos difíceis que havia experimentado, é chegada a hora de cantarmos mais uma vez e em 1985 nos estertores da ditadura, quando a permanência dos militares estavam com seus dias contados, vem a emenda das diretas, o povo se une em um movimento cívico jamais visto, sucedem-se os comícios por todo o território, em vão, não foi dessa vez que elegemos o presidente, contudo, tiramos de cena os militares, o Congresso Nacional elege Tancredo Neves, e o Brasil que ainda estava em clima de Rock in Rio e com a pujança da renovação da música popular, agora denominada de música pop popular brasileira, assiste a morte do presidente e canta a um so coro o sentimento de todos nós e do "Coração de estudante".

"Quero falar de uma coisa
Advinha onde ela anda?
Deve estar dentro do peito
Ou caminha pelo ar
Pode estar aqui do lado
Bem mais perto que pensamos
A folha da juventude
É o nome certo desse amor
Já podaram seus momentos
Desviaram seu destino
Seu sorriso de menino
Quantas vezes se escondeu
Mas renova-se a esperança
Nova aurora a cada dia
E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos der fruto
Coração de estudante
Há que se cuidar da vida
Há que se cuidar do mundo
Tomar conta da amizade
Alegria e muito sonho
Espalhados no caminho
Verdes: planta e sentimento
Folhas, coração, juventude e fé."

Passados os momentos de mudança, agora é vivermos a realidade recheada de escombros e das sobras nefastas de um regime que em muitos círculos forjou um poder discricionário e legou práticas que ainda demorariam muito tempo para serem desfeitas, abre-se o véu surge a corrupção escondida e os vícios de um pais doente, mas que tem cura, porque seu povo é forte. Quem soube traduzir isso muito bem foi Cazuza, ao cantar a rebeldia de sua geração com "Brasil", feita com George Israel e Nilo Romero e lançada em 1989. A guitarra estava a serviço da reconstrução e da contestação, salve, salve, Titãs, Paralamas, Legião Urbana os porta-vozes de um novo sentimento que tinha o rosto marcado por uma busca, que ainda não tinham encontrado, mas sabiam como achá-la.

"Não me convidaram para esta festa pobre
Que os homens armaram pra me convencer
A pagar sem ver toda essa droga
Que já vem malhada antes de eu nascer
Não me ofereceram nem um cigarro
Fiquei na porta estacionando os carros
Não me elegeram chefe de nada
O meu cartão de crédito é uma navalha
Brasil mostra a tua cara quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil qual é o teu negócio
O nome do teu sócio, confia em mim
Não me sortearam a garota do Fantástico
Não me subornaram será que é meu fim
Ver TV a cores na taba de um índio
Programada só pra dizer sim
Grande pátria desimportante
Em nenhum instante eu vou trair."

Cazuza realmente não traiu sua pátria, manteve sua ideologia até o fim e morreu em 1990, sendo poupado de ver sua mensagem tornar-se realidade, pois finalmente iríamos eleger um presidente da republica, e sem o saber transferir a sede do poder para Maceió com gerência na Casa da Dinda em Brasília, dirigida por Fernando Collor, Paulo César Farias e seus asseclas, pagamos o preço de nossa ingenuidade acreditando no super homem que iria nos salvar, perdemos o jogo, mas não a dignidade, esta já estava conquistada, a democracia se estabelece e mandamos embora o tirano com as caras pintadas, finalmente, agora sim expurgamos os demônios do passado que ainda teimavam em nos infernizar.

Autor - Luiz Américo Lisboa Junior
Postado por João Ludgero

Nota: Ludgero, sua postagem é gigantesca, mas merece ser publicada e lida. Diagramei e inseri ilustrações. Espero que todos apreciem.

2 comentários:

  1. Valeu Dihelson e colegas do Blog pela compreensão, e tua diagramação ficou massa, tu ta fera nesse negócio! Foi Boa!

    Socorro obrigado pelo elogio vindo de você, é sinal que a postagem ta legal.

    Saudações Geográficas!
    Ludgero

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