05 dezembro 2008

A LUZ DO BAILE




Fico a imaginar o que escreveria Monteiro Lobato – caso vivesse nos dias atuais – sobre a série de denúncias de irregularidades administrativas que vêm grassando - através dos meios de comunicação - nos três poderes da república brasileira.
Para quem não sabe, Monteiro Lobato foi um dos bons intelectuais brasileiros do século passado. Ele abraçou idéias marxistas; escrevia muito bem e era conhecido pela coragem de dizer o que pensava, sem preocupação de desagradar. Foi também ardoroso defensor das idéias republicanas, antes, e nos primeiros dias do golpe militar de 15 de novembro de 1889. Mas quando viu os frutos advindos da Proclamação da República, escreveu, em 1918, um artigo com o título de Dom Pedro II era a luz do baile.
Permita-me compartilhar com o caro leitor apenas dois trechos do artigo citado:

O fato de existir na cúspide da sociedade um símbolo vivo e ativo da Honestidade, do Equilíbrio, da Moderação, da Honra e do Dever, bastava para inocular no país em formação o vírus das melhores virtudes cívicas. O juiz era honesto, se não por injunções da própria consciência, pela presença da Honestidade no trono. O político visava o bem público, se não por determinismo de virtudes pessoais, pela influência catalítica da virtude imperial. As minorias respiravam, a oposição possibilizava-se: o chefe permanente das oposições estava no trono. A justiça era um fato: havia no trono um juiz supremo e incorruptível. O peculatário, o defraudador, o político negocista, o juiz venal, o soldado covarde, o funcionário relapso, o mau cidadão enfim, e mau por força dos pendores congeniais, passava, muitas vezes, a vida inteira sem incidir num só deslize. A natureza o propelia ao crime, ao abuso, à extorsão, à violência, à iniqüidade – mas sofreava as rédeas dos maus instintos a simples presença da Eqüidade e da Justiça no trono”.

“Ignorávamos isso na monarquia. Foi preciso que viesse a república, e que alijasse do trono a Força Catalítica para patentear-se bem claro o curioso fenômeno. A mesma gente, o mesmo juiz, o mesmo político, o mesmo soldado, o mesmo funcionário até 15 de novembro (de 1889), bem intencionado, bravo e cumpridor dos deveres, percebendo, na ausência do imperial freio, a ordem de soltura, desaçamaram a alcatéia dos maus instintos mantidos em quarentena. Daí o contraste dia a dia mais frisante entre a vida nacional sob Pedro II e a vida nacional sob qualquer das boas intenções quadrienais que se revezem na curul republicana”.
Armando Lopes Rafael

4 comentários:

  1. Então Monteiro Lobato era uma mistura dos seus personagens : Emília , Visconde , Rabico, Saci ,Conselheiro , Tio Barnabé ...

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  2. Amigo Armando.

    Entendo que o povo brasileiro escolheu o Lula por conta dos desmandos dos governantes anteriores, especialmente do FHC. Lula tornou-se a unica esperança viva para por um fim aquele estado de coisas. Eu fui um deles. Quando chegou lá permitiu que o seu governo promovesse uma desordem nunca vista. Lamenta-se que a esta altura esteja justificando os erros do seu governo com erros anteriores. Os petista estão indo fundo, até o Rui está sendo invocado. O que tem a ver uma coisa com outra. Olhe amigo Armando o antagonismo historico explica: No dia que Um Setubal, um Ermirio, Um Moreira Sales, Um Safra aparecer com dinheiro, é normal, herdaram da familia, agora Jose Guimarães, Jose Genoino, Jose Dirceu,Lula Filho e esse pessoal do mensalão herdou de quem, qual a origem?

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  3. Amigo Morais

    Não podemos condenar como culpado um réu que ainda não foi julgado. É isso que vem ocorrendo no Brasil ultimamente. Você deve lembrar-se de um deputado gaúcho, Ibsen Pinheiro que foi fundamental no processo de cassação de Color de Melo. Pois bem, dois anos depois, não se sabe a que troco, a Revista de chantagem e extorsão que é a Veja multiplicou por um milhão um empréstimo que ele contraíra. O erro foi dectado pelo revisor da revista, mas mesmo assim foi a público e o grande e honesto deputado foi cassado. Hoje, após mais de dez anos de sua cassção, mora num modesto apartamento em Porto Alegre, sem nenhum sinal de enrequecimento. Além do mais, se você leu o livro "O Chefão" de Mario Puzzo,cuja história foi trasportada para o cinema (O Poderoso Chefão), na contra-capa está escrito: "por trás de uma grande riqueza está um crime." Quem sabe, os ricões citados ficaram ricos a custa de muito trabalho honesto, como nós, meros assalariados? Veja os grandes comerciantes honestos da nossa terra. Nenhum subiu ao pódio dos milhonários.

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  4. Carlos.

    O Ibsen Pinheiro era presidente da Camara Federal na epoca do Collor. Quando recebeu o pedido de impedimento da ABI disse: O povo esta querendo e quando o povo quer esta casa termina tambem querendo. E o embasamento legal? Pouco tempo depois foi vitima do querer do povo. É a ausencia da lei. Decisão afobada e emocional.

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