31 dezembro 2008

Banco Central - Por Joaquim Pinheiro Bezerra de Menezes


Estou há 34 anos no Banco Central do Brasil. Ingressei em Brasília, onde morei 4 anos, vindo posteriormente para o Recife. Trabalhei inicialmente no Departamento de Crédito Industrial e Programas Especiais, encarregado pelas liberações e posterior fiscalização de recursos para a implantação do Proálcool, visando a substituição de parte da gasolina importada. Também responsável pelo programa Corredores de Exportações de Produtos Agropecuários (Corex/Pagri), cujos frutos o Brasil colhe até hoje. Cerca de 30% das exportações brasileiras, algo como US$ 47 bilhões apenas no período de janeiro a outubro de 2008, são possíveis graças aos investimentos coordenados pelo Banco Central. Aqui abro um parêntese para registrar que o meu chefe na época era o cearense de Acopiara mas cratense de coração, José Valder Nogueira. Técnico brilhante, trabalhou na agência do Banco do Brasil do Crato entre 1962/65, casou-se com Marli Saraiva, filha da D. Mundinha Saraiva. Zé Valder faleceu em acidente de carro, quando viajava para rever seus amigos no Crato, terra que ele adorava. Aprovado em concurso interno, fui remanejado para Departamento Econômico, ocupando o cargo de economista, no qual permaneci 13 anos. Outra seleção interna me transferiu para o Departamento de Fiscalização na função de Inspetor, exercido durante 10 anos. O Banco Central tem quadro de pessoal estável, com uma única forma de ingresso: concurso público. A cultura interna é de aperfeiçoamento permanente, seriedade acima de tudo, rigor absoluto no cumprimento de normas mas discrição quanto aos resultados dos trabalhos, talvez conseqüência do sigilo bancário, estabelecido em Lei. Somente o Presidente ou alguém expressamente autorizado por ele pode falar em nome do Banco.

Esta discrição faz com que a maioria dos brasileiros não tome conhecimento dos bons serviços que o órgão presta à sociedade, o que afinal é a sua obrigação. Darei um exemplo, ressaltando que o assunto jamais poderia ser divulgado pelo BC uma vez que a legislação que o criou proíbe terminantemente. Mas, como constou de inquérito judicial, com publicação no Diário Oficial, deixou de ser objeto de sigilo. Me refiro aos resultados da Operação Satiagraha (Banco Oppportunity). Em 2003 o BC levantou indícios das irregularidades, concluindo relatório em meados de 2005, tomando as medidas cabíveis, inclusive abrindo processo administrativo que terminou anexado ao inquérito da operação da Polícia Federal. A inspeção listou uma série de clientes com movimentação financeira anormal, como um aposentado com renda de R$ 9 mil mensais, patrimônio de R$ 335 mil, mas aplicações de R$ 9 milhões. Outro cliente, salário de R$ 10 mil, patrimônio de R$ 642 mil, era dono de R$ 17 milhões nos fundos administrados pelo Opportunity. Consta também o fato de um único CPF movimentar 28 contas de elevados saldos na Instituição. O próprio Daniel Dantas e familiares movimentavam valores muito acima do que suas fichas cadastrais e declarações de bens permitiam.

Por: joaquim Pinheiro Bezerra de Menezes
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2 comentários:

  1. Prezado Joaquim
    Que prazer ler os seus textos, sempre bem elaborados. Essa embrulhada que você tão bem nos deu a conhecer deverá ser levada às últimas consequênciae para que os culpados sejam exemplarmente punidos. Se apurarem direitinho vai ter muita gente graúda envolvida com esse bandido Daniel Dantas.

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  2. Joaquim.

    Bom dia.

    Todos sabemos que esta situação de privilegio da economia que o Brasil apresenta hoje é unicamente a resultante do trabalho serio do Banco Central. Pessoas honestas e de conduta ilibada se decicam com a alma para que o Brasil apresente estes numeros positivos. O Banco Central está fazendo a sua parte e não pode ser responsabilizado pela contaminação que atinge outros setores do executivo, legislativo e judiciario. Parabens pelo texto e por fazer parte desta honrada instituição.

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