14 novembro 2008

A SINCERIDADE DO NOSSO SERTANEJO - Carlos Eduardo Esmeraldo

Vinte anos atrás, nosso caboclo sertanejo era possuidor de valores culturais e educacionais que aos poucos vão sendo destruídos. Depois que todos os recantos foram eletrificados, a antena parabólica roubou a espontaneidade do nosso sertanejo e principalmente a sua sinceridade. Esta era uma virtude que infelizmente vai se perdendo com os costumes cariocas propagados pelas novelas. A sinceridade espontânea, que para nós, crentes de sermos educados, seria indelicadeza, no rude sertanejo vai cedendo lugar às mentiras de conveniência. Certa vez, acredito que em 1965, estávamos reunidos na fazendo de um tio, no vizinho estado do Pernambuco. O meu tio, a pedido dos moradores da terra dele e de seus vizinhos, levou até aquelas brenhas, Monsenhor Rocha e o Padre Arnaldo, para celebrarem confissões e missas. Para os moradores daquele lugar esquecido foi um grande evento. Superou todas as expectativas, pois veio gente que morava a mais cinco léguas. Uma verdadeira multidão se espremia no vasto terreiro da casa grande para ouvir os sermões daqueles dois sacerdotes. Havia centenas de homens e mulheres que não confessavam seus pecados há mais de trinta anos, se é que na vida sofrida daquela pobre gente poderia existir pecado. Na manhã do domingo, logo após a missa, Maria Rita, uma velhinha sertaneja bem disposta e falante, veio cumprimentar as minhas tias. Falou com todas, menos com uma delas, que morava no Rio de Janeiro e estava de férias em nosso meio. Essa tia, com seus quarenta e tantos anos, solteira, sonhava ainda com um bom casamento. Ela não se encontrava com Maria Rita, há mais de vinte anos. Então perguntou à velinha: “Por que é que você não fala com os pobres Maria Rita?” “Quem é essa comadre?” Perguntou Maria Rita à dona da casa. E quando recebeu a reposta de que se tratava da tia Naninha, a sinceridade da Maria Rita aflorou de imediato: “Também pudera, como eu haveria de conhecer: você tá “veia”, feia, acabada, minha fia!” Tamanha virtude, que para nós urbanos não ousamos praticar, não mais é vista nas pessoas simples do sertão. Tenho um sobrinho que, quando criança, sonhava ser aviador e não podia ver um avião pelos ares. Quando de férias no São José, ele prometeu a Adília, a lavadeira de suas roupas, que quando fosse piloto iria lhe proporcionar uma viagem de avião. Passou o tempo, o sonho desse sobrinho se tornou realidade, e ele tratou de cumprir a promessa. No dia marcado, eu fui esperar Adília no aeroporto. Ela que não conhecia Fortaleza, aproveitou bem a estadia em nossa capital: tomou banho de mar, foi ao cinema do Iguatemi, passeou por toda a parte. Depois, insistiu em visitar uma amiga lá do Crato, que há mais de trinta anos morava aqui. Essa sua amiga havia visto Adília ainda no Crato. Naquela época, Adília era bem magrinha e agora, graças a uma diabetes adquirida, se apresentava com acentuada obesidade. Acompanhamos Adília em sua visita a tal amiga. Ao batermos à sua porta, ela não reconheceu Adília. Quando dissemos quem era, imediatamente ela afirmou que não reconheceu Adília, pois ela estava bem mais forte. Depois de colocarem a conversa em dia, a amiga de Adília, que já beirava os oitenta anos, perguntou: “você me achou muito diferente?” “Não, está do mesmo jeito.” Respondeu Adília, com dissimulação. Ao nos despedirmos e entrar no carro, Adília disse para minha mulher: “Dona Magali, aquela “veia” ali já tá é “mooorta” e ainda não sabe!” Realmente a espontânea sinceridade do nosso sertanejo já não é a mesma.

Um comentário:

  1. Carlos Eduardo Esmeraldo.

    Nasci e fui criado num sitio entre essa gente sincera, destemida e predominantemente leal. Nunca me desliguei do campo. Quando juntei algumas economias comprei uma fazenda e apesar dos parcos resultados nunca me vi arrependido por assim ter decidido. Cheguei a ter doze famílias vivendo na fazenda e vi progresso em algumas delas. Graças as facilidades de transportes oferecidos pelo poder publico e a presença de faculdades na região já existem alguns doutores nascidos na fazenda Cacimbinha. Mas eu vou contar uma historinha do velho Luis, o encarregado da fazenda. Estávamos numa manha de domingo conversando e a Nair sentou próximo e começou a falar sobre casamento. Disse: O homem quando fica velho fica sem vergonha se dana a procurar coisas para mostrar que é danado. Seu Luis falou: Dona Nair, quando o homem fica velho a mulher já estar velha também, e quando a mulher fica velha fica SUVINA. Falou seu Luis entre um sorriso e outro.

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