17 novembro 2008

O Vendedor de Sonhos - Por Denísia S. de Oliveira

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Ele passava o ano inteiro esperando apenas uma data chegar. Não se importava com outras comemorações ou com o que, a maioria das pessoas, chamava de festejos tradicionais. Para ele não havia muita diferença entre os dois, pois acreditava que, apenas durante uma noite do ano, tudo poderia ser realmente diferente.
Um momento onde as pessoas tinham a oportunidade de se aproximar umas das outras, podendo se tornar melhores ou agir de uma maneira diferente do habitual. E quando esse dia chegava, parecia que a vida ganhava outros tons, outros sabores. Aquele era o seu mundo. Ele podia, finalmente, reinar. Era um vendedor de sonhos.
Seu Amaro dos Santos era morador antigo da cidade do Crato. Um homem de estatura mediana, de pele clara, cabelos brancos, olhar bondoso e fala mansa. Destacava-se pela disposição que tinha, apesar da idade que carregava consigo. Eram 78 anos de histórias que ele sabia, como diz um bom cratense, de cor e salteado.
Já fazia 30 anos que durante o natal, seu Amaro marcava presença pelas ruas da cidade. Parecia estar em todos os lugares, em cada rua, beco ou esquina. Com seu jeitão vagaroso de andar, espalhava sorrisos, palavras de afeto enquanto fazia o que mais gostava: vender sonhos. E ai daquele que não o encontrasse nessa data, poderia estar certo que o ano novo não seria lá essas coisas.
Era uma tradição, transformou-se em um verdadeiro mito.
O segredo do sucesso de seu Amaro era os bolinhos, que ele chamava, carinhosamente, de sonho. Era uma iguaria fina e delicada, preparada por mãos experientes e desejos antigos, de ver o mundo melhor e as pessoas mais humanas. Durante a noite de natal,ele saía às ruas cantarolando:
“Eu vendo sonhos, grandes e pequenos, fortes e frágeis, puros e serenos. Eu vendo sonhos, frios e quentes, breves e longos, doces e ardentes. Compre um sonho pra você ou dê um sonho de presente. Sonho não tem restrição, não engorda, não tem contra-indicação. Tem pra todas as idades e faz bem ao coração Compre um sonho, que esta noite é especial Qual será seu sonho nesta noite de Natal?
Minha avó suspirava cheia de saudade, porque aquela história lhe remetia à sua infância. E , percebendo que estávamos igualmente emocionados, como se tivéssemos de fato conhecido o vendedor de sonhos, ela apaga a chama da vela que ficara acesa para comemorar o natal naquele ano.


Por Denísia S. de Oliveira

Um comentário:

  1. Prezada Denísia

    Parabéns pela bela história e pelo vigor de sua narrativa. Ficamos divididos. Como não conheci o personagem do seu conto, fico num divisor de águas. Se for real tem a natureza de um sonho. Se for ficção tem a cor da realidade. Gostaria também de vender meus sonhos, como o "Seu Amaro". Mas eles ficam estocados nas cavernas mais subterrâneas do meu "eu". Confesso que gostei muito.

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