28 novembro 2008

NO TÁXI COM UM MÚSICO


Avenida Rio Branco, nesta sexta feira, às 21h30min. O povo não vai para casa, fica bebericando, conversando, paquerando, esperando, comendo churrasquinho nas calçadas. Saio apressado de uma reunião política e pego um táxi. Jardim Botânico, passando pelo agito da Lapa, Largo do Machado, Laranjeiras, Cosme Velho, Túnel Rebouças e estou em casa.

O táxi veio rápido. O trânsito ainda pesado, mas fluindo bem. O taxista. Um homem magro, cabelos rastafári, negro, um jeito agradável de conversar e ouvir. E aí começo uma entrevista.

Você gosta de música? Eu sou músico. Adivinhei, de cara senti a persona do músico, o quê tocas? Sou baixista. Gosta de rock, blues, reggae, mas curte samba, forró, do tipo pé de serra, não do eletrônico. Por que não o eletrônico? Não dizem nada, é mera repetição. Escuta um disco recém lançado e se imagina que é uma música do ano passado. Gosto do Seu Luiz Gonzaga, do Seu Dominguinhos. Mas este pagode? É a mesma coisa. Só que tem uma, foi este pagode ruim, sem boa letra e nem novidade musical que fez a moçada voltar a gostar do samba. Hoje muito jovem gosta de Almir Guineto, Zeca Pagodinho e veio por este pagode ruim. Igual a música baiana, não tem quem agüente mais. Aquela conquista do frevo de guitarra com as letras do Moraes Moreira era muita doideira. Depois passou da conta. E Funk? Não tenho nada contra, mas não ouço. Mas tem um bocado de coisa aí que é Funk, muita gente não sabe e é coisa boa.

Comecei na música com 20 anos. Foi um caminho estranho. Tava numa dureza total. Sem grana alguma. Um amigo tinha uma banda e me convidou para assistir ao ensaio. Eu conhecia quase todas as músicas, muito mais que o vocalista da banda. Aí quase cantei a noite toda, o vocalista até foi embora. Então ganhei duzentos paus pela noite, aquilo caiu do céu. Fiquei tocando em Madureira uma vez por semana. Depois saiu o baixista e trouxemos uma mulher. Ela transou com todo mundo, mas não tocou nenhuma noite. Então eu fui nesta. Com a cara e a coragem. Depois a banda acabou e outro grupo me chamou. Cheguei lá e o vocalista, toca um lá menor aí. E aí o que faço? Arrastei os dedos junto com o guitarrista, segui as posições e aprendi. Nunca estudei e nunca tive alguém para me dar lições.

Um tempo depois uma banda de Jacarepaguá Sigma 3 me chamou. Vivi como músico mesmo. Toda a noite tocava quatro horas numa casa noturna. Depois tocava duas horas numa e mais duas noutra. Sempre em Jacarepaguá? Não. Em lugares distantes, na Barra, no Recreio, Campo Grande, Bangu. Às vezes levava muito tempo entre um lugar e outro. Começava num restaurante, passava para uma boate e terminava numa festa na casa de alguém. Fui para o Espírito Santo e toquei com uma banda de lá. Hoje toco na Lapa com a Sandra Grego e os Troianos. Gravou? Gravei em banda. Mas ainda tenho um projeto de gravar um CD só meu. Instrumental? Não. Voz.

E o sucesso, como é que você resolve isso? Ih! Eu sou músico, sou artista, não é disso que estou necessitando. Eu faço o que gosto, por isso mesmo é que tenho o táxi para o meu sustento. Para ter independência. E esta questão de crítica, de ser medíocre? Não é por aí, isso não muda nada, nem ser chamado de gênio muda nada. Até atrapalha, um pessoal lá no Espírito Santo me elogiava, fiquei sem iniciativa. Mas e se aparece um caro bom, arrasando, você não fica com inveja, com ciúmes de artista? Não, aí é que fico com vontade de fazer o que ele faz. Aquilo faz é me estimular.

Recebo o troco e explico a entrevista. Vou postar num blog da minha terra. Ele pega um papel: olha aqui em cima, entre na Internet e tem um e-mail, manda isso para mim. Pego e entro num site e o nome Cyro Elias. Demais o papo.

Por: José do Vale Feitosa


2 comentários:

  1. É muita sensibilidade do meu caro amigo José do Vale em transformar o que seria uma mera corrida de taxi em um belo artigo, poético, inclusive, e sem falar ainda na divulgação que ele acabou fazendo do meu colega músico Cyro Elias, contrabaixista, a quem eu também cumprimento. Na verdade, é como eu falo sempre: Música no Brasil, principalmente as de qualidade só será exercida por aqueles que a tiverem no coração. Quero dizer que o sustento deles virá de outras coisas.

    A vida do músico é extremamente penosa quando ele parte para fazer coisas de qualidade, pois não arruma trabalho, ou é humilhado por donos de casas de shows, empresários, e até por garçons.

    Quando o músico se prostitui, tocando qualquer porcaria pelo simples dinheiro, vira uma pessoa mais frustrada ainda, e a maioria se entrega à bebida ou às drogas, pois quer "esquecer" o próprio talento. Essa é a dura realidade de inúmeros colegas meus. Eu tive o privilégio de desde cedo em música, ter outras opções de ganhar dinheiro e de sustento.

    No início, toquei 5 anos em bares, toquei uns 15 em casas noturnas e recepções, até ser humilhado o suficiente para notar que isso não me trazia dinheiro nem felicidade. E me fez também um excelente aprendizado musical de repertório, tocando de Glenn Miller a Roberto Carlos, de Tom Jobim a Ednardo, bossanova, Mpb e o que se possa imaginar. Paralelo a isso, fui ouvindo e estudando outras coisas, de modo que eu posso até tocar "Moonlight Serenade", ou "Dindi", mas depois de "Clair de Lune" de Debussy ou alguma música do Bill Evans, o mundo não é mais o mesmo...

    Agora, só toco em Concertos, Teatros, e para os que eu resolvo atender, quando quero. A vida pode trazer mais dinheiro através de outras fontes, como investimentos, aluguéis, etc... na verdade, eu trabalharia até como balconista de farmácia, mas jamais me renderia a ter de tocar porcaria por aí.

    Saúdo o meu colega Cyro Elias, que dirige seu táxi e faz também a música que ele tem na cabeça, fazendo a música que gosta, pois a vida é apenas uma única vez...

    Abraços,

    Dihelson Mendonça

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  2. Tocante !
    A vida nos toca. Os músicos nos acompanham.
    Tenho respeito absoluto pela classe dos músicos. Expressam nossas emoções , nos acalantam , nos fazem dançar e cantar, nos fazem sonhar e recordar...
    Abençoados , sejam !

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