17 novembro 2008

A formiguinha e o arroz


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No sobrado do seu Raimundo, moravam duas famílias. Na parte de baixo, viviam: o patriarca da família – o próprio Raimundo – que odiava que o chamassem assim. Achava esse nome horrível e preferia ser chamado de Pinto, seu último nome. Morava também a Dona Maísa que adorava dar cascudos nos filhos quando estes ainda eram crianças – depois de vovó, esse hobby foi deixado de lado, graças a Deus. E, completando o terceto inferior dos moradores do sobrado, o jovem Araújo, o filho mais novo de um total de quatro filhos homens do casal. Na parte de cima do sobrado, recém construída, moravam também, três pessoas: um dos filhos do casal com a esposa e a pequena Loah. O sobrado, erguido aos poucos e com muito sacrifício, situava-se entre a rua Beta e a rua Pi. Era um dos mais antigos do bairro e fora construído na década de setenta por um dos tios da pequena Loah. Não era nenhum palacete, mas abrigava duas famílias que viviam felizes e adoravam sorrir com as travessuras da rebenta que era uma verdadeira levada da breca. A cada dia uma novidade. A todo instante, a pequena Loah surpreendia os familiares com seus questionamentos esquisitos, mas perfeitamente compatíveis com sua idade de quatro anos. A mãe já não mais suportava os afazeres de casa uma vez que a maior parte do tempo era destinada aos cuidados com a filha. Pra tudo a menina dava trabalho além do normal: pra tomar banho, pra dormir, pra acordar... Mas a pior de todas as horas era quando se falava em comer. Se quisesse ter dor de cabeça bastava dizer as palavras mágicas: ‘Loah, está na hora de comer!’. A menina se transformava: resmungava, inventava brincadeiras, ia pegar papel, caneta, corria pra buscar a boneca... E ao fim de tudo voltava com aquela cara de quem não está com fome que toda boa mãe conhece! Pronto. Estava armado o barraco. Agora era só esperar para ver mais uma das doces e louváveis missões de mãe: a de alimentar o filho que nunca tem vontade de comer! O pai da Loah, que raramente estava em casa nas horas das refeições, teve um dia a idéia de assumir essa tarefa diária. Pegou a garota. Colocou-a sentada junto ao colo e começou. A garota, feliz com a novidade, aceitou as primeiras colheradas sem muita rejeição. Passado, porém, o encanto começou a peleja. A mãe da rebenta assistia a tudo sorrindo – sentia-se aliviada e interiormente pensava: ‘agora ele sabe o que eu passo!’... E sorria silenciosamente.

Num dos últimos recursos, o pai da pequena Loah tem uma idéia. Contará para a filha uma historinha para desviar a atenção da filha e conseguir concluir a tarefa. Faz a sugestão:

– Você quer que o papai conte uma historinha? A resposta não poderia ser mais animadora! A menina dá um grito de alegria e diz:
– Eu quero! Conta papai!
E segue-se um silêncio...
– Conta papai! Você não vai contar, não!? Esperneia a garota enquanto rejeita mais uma colherada.

Aflito, o pai tenta ganhar tempo. O problema é que pensou na idéia de uma historinha, mas não tem nenhuma pra contar. Não se recorda das historinhas infantis que ouvira quando era criança. Suspira fundo e tenta inventar uma historinha para a felicidade da filha:
– Era uma vez uma menina que morava numa casa muito linda.
– Continua, papai!
– Calma!
E continua – agora mais aliviado por acreditar que o velho recurso do famoso e sugestivo ‘era uma vez...’ estava produzindo o efeito esperado.
– Essa menina era muito danada e não gostava de comer.
Nesse momento, as feições da Loah mostram a identificação com o tema do enredo. Ela arregala os olhos e, após engolir em seco uma colherada cheia de arroz, apresenta mais uma de suas ponderações:
– Viu, mamãe! Ela também não gosta de comer, viu! E faz uma carinha de triunfo.
A mãe que apenas observava à distância tenta intervir, mas é interrompida com a continuação da historinha:
– Essa menina, toda vez que vai comer, deixa cair muito arroz e a mãe fica muito triste com isso porque tem muita gente passando fome e a filha dela destrói o alimento que é feito com tanto carinho.
– Mas por que é que ela derrama, hein papai!?
– Ela derrama porque não abre o bocão bem grande para comer.
– Mas eu abro, não é papai!? Quer ver...
E abre o bocão para mais uma colherada cheia. E a história prossegue.
– Na casa da menina existe uma formiguinha que tem várias formiguinhas bem pequenininhas. Todas moram nos buracos das paredes da casa em caverninhas bem feitas que elas fazem com muito trabalho e dedicação porque as formiguinhas são muito organizadas. A mãe das formiguinhas sai todos os dias procurando alimento para as filhinhas dela.
– Elas têm muita fome, papai!? As filhinhas dela gostam de comer!?
– Sim. Porque elas saíram das casinhas delas na floresta e vieram morar na cidade e aqui falta comida pra muita gente... aqui não tem comida pra todas as pessoas. E falta alimento para os bichinhas também. Por isso ela vai procurar comida na hora do almoço na casa da menina que não gosta de comer e quando ela volta as filhinhas dela ficam muito felizes.
– Mas elas apanham pra comer!?
– Não. Elas comem tudo que a mãe dar pra elas.
– E por que elas vêm aqui na minha casinha, papai!? Por quê!?
A essa altura, a sapeca da menina já se havia apoderado da história e já se sentia a própria criança que derramava o arroz...
– Porque a mãe das formiguinhas descobriu que todos os dias a menininha derrama arroz no chão quando vai comer. Ela aproveita e leva o arroz pras filhinhas dela!
– E como ela leva se o arroz é bem grandão assim, oh!? – e abre os braços como que a mostrar o tamanho de um arroz em relação ao tamanho da formiguinha.
O pai continua – a essa hora, a refeição já estava acabando. Mais umas duas colheradas e pronto, missão cumprida!
– A primeira vez que a formiga viu a menina derramando a comida ela estava sozinha. Tentou levar a comidinha pras filhinhas dela, mas não conseguiu. Então, ela voltou para a casa dela e pediu ajuda de outras formigas que voltaram para buscar o arroz. Ela levou tudo que a menina tinha derramado no chão e as filhinhas dela comeram tanto e ficaram tão felizes, sabia!?... E você sabia também que as formigas conseguem carregar coisas muito maiores e mais pesadas do que elas!?
– Que legal, papai! Então eu posso derramar arroz todos os dias, não é!? Porque as formiguinhas gostam! Viu, mamãe!? E por que a formiguinha não está aqui agora!? Eu posso esperar até ela vir pegar o arroz, papai!?
– Se você derramar arroz, Loah, a mamãe fica triste. Interveio a mão mais uma vez.
– Mas a formiguinha não fica feliz!?... Eu derramo só um pouquinho, tá mamãe!
E hoje, as refeições são de dois tipos: as que são feitas com a historinha da formiguinha e do arroz e as sem esse tempero. A e mãe da pequena Loah foi obrigada a aprender a historinha e sempre que foge a algum detalhe da história original é repreendida pela garota:
– Não é assim não, mamãe! Ela chamou os amiguinhos e... A senhora nem sabe contar a historinha!... Vou dizer pro meu pai, viu!
– Vem comer, Loah!
– Oba! Conta a historinha da formiga, mamãe!... Você conta?
– Sim, filha. Era uma vez...

Nijair Araújo Pinto
Do meu livro 'Crônicas e mais um conto'.
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