29 outubro 2008

O Retrato da Saudade - Mary Schultze

O Retrato da Saudade

Eu me lembro, com saudade, de minha vida, no Crato,
e da infância e mocidade quero fazer um retrato.
Papai era um homem fino, de mui negra cabeleira,
com olhar esmeraldino, lembrando a nossa bandeira.
Ele era alto, elegante, vestia terno e gravata;
da poesia era amante, usando a rima em cascata.
Mamãe era muito clara e tinha o rosto rosado,
de uma beleza tão rara como um dia ensolarado.
Ela falava sorrindo, com sotaque nordestino;
o seu sorriso era lindo; seu amor quase divino!
Ela costurava bem, fazendo nossos vestidos
e um bom perfume, também, com limões que eram colhidos
em nosso belo jardim, onde havia lindas flores,
manjericão e alecrim - um jardim de muitas cores.
Meus irmãos, que eram oito, lhe tinham muito respeito
e só Chico, o mais afoito, foi quem nunca tomou jeito.
É pena que ele morreu, tão cedo, coisa medonha,
quando com o carro bateu, numa estrada da Amazônia.
Odete, a mais conservada, já ultrapassou os setenta
e tem sido tão poupada que vai chegar aos noventa.
Rosa e Dária, tão amadas, a morte cedo encontraram;
dela não foram poupadas e para o céu se mudaram.
José, o melhor irmão que alguém poderia ter,
já está noutra dimensão, muita poesia a escrever.
Meu outro irmão que é o Gil, sempre me deixa tristonha;
nunca me escreveu um til, desde que foi pra Amazônia.
Sava e Berna, ainda vivas, moram lá em Fortaleza
e levam vidas ativas, nessa terra de beleza.
Estou vivendo em Terê, perto dos amigos meus,
a cidade onde se vê o belo Dedo de Deus!
Em meu velho coração, guardo saudades, de fato,
da nossa doce união, naquele tempo, no Crato!

Mary Schultze, 29/10/2008
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