29 outubro 2008

O outono das cidades

Emerson Monteiro

De observar as ruas da cidade, notamos forte tendência nos seus atuais moradores para se transferirem ao campo, escapar do barulho e respirar mais libertos da fumaça. Nos fins-de-semana, então, a coisa ocorre sem deixar qualquer dúvida. Os grandes centros, esses viraram só compromisso de segunda a sexta. Depois, fuja quem puder.
Tal avaliação sugere a falência de um sonho que nos alimentou durante muitos séculos. O instinto de procurar vilas e repartir preocupações lotou o espaço das cabeças todo tempo, que povos não pensaram em mais nada como outro modo de racionalizar o povoamento do Globo.
A proposta inicial seria somar forças. Entretanto a sofisticação da vida em grupo gerou dificuldades, no princípio superáveis pelo trabalho partilhado, depois intransponíveis, face ao crescimento exagerado, rompendo previsões de gastos e limitando alternativas para ocupação de toda a mão-de-obra concentrada.
Os núcleos de prosperidade em que se haviam modificado as povoações resultaram nas baías interiores, com classes sociais dilatando sempre o fosso divisório do abismo entre si, desvirtuando o impulso gregário dos indivíduos, subtraídos da ordem natural que ficara no campo. A tendência afluente reverteu-se num isolamento grupal, hoje bebido com náusea nos passeios neuróticos das violentas madrugadas urbanas.
De tal maneira as chagas têm sangrado, que maioria incalculável de cidadãos passou a descrer das soluções comuns, adotando iniciativas fechadas, mesmo em detrimento dos que nada podem.Seriedade não falta para o estudo de tais sintomas. Congressos, mesas redondas, longas, quadradas, sutis discursos, prepotência, pirotecnia. Interesses próprios mascarados de usurpação de atribuições. Fórmulas mágicas preenchem todas as prateleiras - critérios exclusivos nos programas de governo.
Em compensação, risco ocorre no achatamento dessas intenções, vez ficar difícil dizer quem pode ou quem quer só o poder; saborear o mel e descartar o fel. Do pecado na escolha ruim fica um preço a ser pago, tamanho o tempo perdido, multiplicado pelas vidas em jogo, milhares que habitam os guetos das cidades; seria, talvez, a democratização da miséria, invasora dos lares e destruidora da vida social, espécie de submissão aos valores piores, quando se descartou a chance de melhor escolher, vezes perdidas para sempre.
O relógio bem simboliza essa corrida às aversas. Muitos ainda acreditam que possam viver fora do problema, trabalhando nos mesmos escritórios, mesmas lojas, na prática de esconder a cabeça, deixando de fora o corpanzil, exposto ao adversário.
Vem dessas decisões o abandono que se verifica da zona urbana. Quer-se usar e não cuidar. Abandonam as cidades e deixam ao léu da sorte os que mais delas dependem. Participar, sim, mas no interesse dos trechos que ocupem nos cinturões verdes, para onde possam sumir aliviados, graças ao carro, eficaz reunidor de superfícies.
No passado, as guerras reviravam ordens estabelecidas e desfaziam os mais críticos problemas. Depois, técnicas potencializaram a riqueza, comprimindo exércitos no atributo de forçar direitos. Resultado: pólos urbanos transformados em campos de concentração e desavença. Os instrumentos de lazer eletrônico restaram desmantelados, nos cubículos escuros sem ar, nem paz, quais sucatas de luxo.
O retorno ao seio da floresta mais do que nunca antes parece surgir como lenitivo provável; estudiosos da alma humana acreditam mesmo que trazemos dentro de nós o mapa desse percurso, algo semelhante ao que perfizeram os hebreus, na saída do Egito empós da Terra Prometida.

Um comentário:

  1. Meu caro Emerson
    Primeiro o meu abraço por esse brilhante comentário. Realmente, a cidade como está torna a nossa vida impossível. Nem mesmo o Crato de nossa adolescência é mais o mesmo. Ao ler suas palavras lembrei-me daquele trecho bíblico das oferendas a Deus realizadas por Caim e Abel. Caim ofereceu frutos do seu trabalho na terra e Abel o melhor dos novilhos de seu rebanho. As ofertas de Abel agradaram a Deus e, por isso Caim, com ciúmes, matou Abel. Os estudiosos da Bíblia interpretam essa passagem da seguinte maneira: As ofertas de Abel agradaram a Deus porque este representava o campo, enquanto Caim, apesar de ofertar produtos da terra, representava a cidade. Pois como sabemos, a agricultura foi o grande salto na evolução social e econômica do homem. Com ela surgiram os armazéns para guardar o excesso da produção, e em torno deles, as cidades com seus reis absolutos, se considerando deuses. Ou seja, Deus não gostou das ofertas de Caim, pois condena toda espécie de a exploração do homem que a cidade trouxe consigo.

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