31 outubro 2008

O CRATO ANTIGO - José Helder França



Quando falamos em cidade, falamos em casas, pessoas, ruas, praças e avenidas. E não há nesse contexto a ausência das lembranças e das saudades. Como bem descreve o poeta Dedé França:

O CRATO ANTIGO

"Eu hoje senti saudade
da minha terra querida
lá onde fiz amizade
onde vivi minha vida
saudade da sua lua
saudade de tudo enfim.
Saudade daquela gente
que faz parte de mim.

Senti saudade do Crato
da cidade onde nasci
lugar feliz e pacato
coração do cariri

Senti saudade das feiras
da rua das laranjeiras
de sua água gostosa
que minha sede não mata
da rua rabo da gata
também da rua Formosa

Eu recordo calmamente
enquanto o verso rabisco
da caplinha da gente
do meu santo São francisco
onde aos domingos eu ia
com muita fé e alegria
onde com gosto rezava
pedindo felicidade
eu até sinto saudade
daquela esmola que dava

Esta saudade não cala
conversa com minha dor
recordo a rua da vala
ladeira do matador
e no tempo de menino
o açude de seu Lino
onde ia a meninada
Saudade deste tamanho
saudade também do banho
lá no pescoço da escada

Que tempo bom do passado
daquele Crato risonho
do meu Crato sem pecado
tudo era amor, era sonho!
Daquele Crato feliz
que do Quadro da Matriz
a gente ouvia sermão
Ai, como eu sinto saudade
daquele tempo em que frade ganhava mais atenção

Saudade da luz escura
do poste feito de trilho
da feira da rapadura
das velhas vendendo milho
do papagaio, da raia
do carro de Pedro Maia
das moedas de dez réis
dos dramas lá no cassino
quando eu era menino
e xingava Seu Moisés

O brilho dos pirilampos
sentido na noite escura
na praça Siqueira Campos
fazia luz com ternura
Que prazer a gente tinha
nas voltas lá na pracinha
todo o passado restauro
da mijada escondida
quando vinha da avenida
no beco do Padre Lauro.

E tudo me vem à mente
me provocando um sorriso
fortificando o repente
dando brilho ao improviso.
São boas recordações
momentos de emoções
do meu viver bem vivido.
Dentro de mim guardo o retrato
de tudo que vivi no Crato
este meu Crato querido

De tanta coisa me lembro
e a tudo dou importância
e com saudade relembro
tudo que vivi na infância
Essa beleza do Crato
que com saudade retrato
não me saem da memória
E esse peito bem meu,
é um verdadeiro Museu


José Helder França

Fonte: texto publicado no Jornal Gazeta de Notícias - Edição do dia 17 de outubro, próximo passado.

2 comentários:

  1. Esse poema que se completa com o poema de Socorro Moreira sobre a Rua da Vala, postado poucas linhas abaixo. É de um saudosismo impressionante, que me faz até ter saudades do que não vi nem vivi.

    Acho que seja de uma geração ainda anterior ao do A. Morais, Carlos Esmeraldo e Armando Rafael...

    Abraços,

    Dihelson Mendonça

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