10 outubro 2008

A GENEALOGIA E OS FILÓSOFOS DA BATATEIRA

Os olhares de interrogação entre os filósofos da Batateira denotavam a falta de justificativa para aquela reunião. Embaixo de um pé de mangueira, o chão de areia lavada do rio e toda redondeza plantada de cana. Havia um estranho de quem logo souberam pela voz de Chico Preto: Armadiel. Qual o oficio do convidado? Relator de genealogias.

Chico explicou que o convidado iria traçar todo o caminho da genealogia do próprio Chico e de Mitonho. Um pelo reino africano e o outro pela diversificação dos povos ameríndios. Foi Chico oferecer a palavra ao sábio e Bunga, como são os filósofos, querer aprofundar mais:
- Mas homi, me digam uma coisa: negro e índio têm genealogia? Isso não é coisa só de branco originário da Europa? A gente só ouve falar em genealogia deste povo. Os nomes de famílias dos pobres pelo que sei são tudo emprestado do branco europeu. Se for pelo nome não chega na África e nem na América. Se for pela pessoa, pode esquecer que o sobrenome não vai encontrar ancestral nenhum. E se for por nossa raça de mestiço, só um taquinho de nada da pessoa é que veio dos nomes destas famílias. E como é que vou explicar uma colcha de retalhos apenas com um dos retalhos?

Chico tinha pressa. O sábio Armadiel viera do Morro Dourado, uma localidade que fica muito além do Latão, que já por si é depois de Nova Olinda. O melhor mesmo era iniciar a explanação. E assim aconteceu.

- Você Chico é filho de Dona Maria e seu Antonio. Ela tem por mãe Benedita do Espírito Santo que nasceu e se criou na Fazenda Riacho do Meio no Barro e por pai, Mário Bento que foi encontrado andando de trem entre Fortaleza e o Crato. Dona Benedita por si era filha de uma africana muito linda, desejada pelas tribos do Beni como uma verdadeira Iemanjá. Mas ela não veio das águas, viera das terras do Alto Congo, onde as fontes jorram leite como Canaã. A avó de Dona Benedita era descendente direta de uma entidade da floresta que tinha por missão o nascimento das floradas anuais. A bisavó descendia de antigas deusas que haviam sintetizado as sementes que geram as plantas e ao se espalharem invadem toda terra. Já a sua quinta avó viera de um tempo mais velho ainda quando a terra ainda era mole e as estrelas juntavam a luz com a matéria escura. A décima avó de dona Benedita era descendente das partículas que ao se juntarem mataram as excedentes, só restando a matéria escura. A vigésima avó descendia do átimo que ao se juntar se torna a matéria luminosa. E assim Chico é descendente direto da origem de todas as coisas da África.

O especialista era ágil na narrativa e logo passou para a genealogia de Mitonho.:
- Mitonho é filho de um pagé que nasceu nas Alagoas e viera para esta região em busca das terras frescas do Araripe. A sua mãe, Ana Sitonha, descendia de Serafina Caratiús que era dos povos da redondeza. A avó de Serafina era uma índia dos povos dos cocais do Maranhão, busca na palma a sombra para morar e no coco babaçu o leite e o óleo para viver. Já a sua tetra avó foi das primeiras mulheres que chegaram do Amazonas quando ainda se intentava a seleção de plantas que deram na mandioca. A décima avó era de um povo que pela primeira vez tomara o fogo de céu e com ele cozinharam a argila em cerâmica. Já a vigésima avó de Dona Serafina vivera nos primórdios quando laçaram dos céus os raios, esconderam o trovão dentro dos vulcões e assim criaram a fonte permanente do fogo. Os raios do céu foram formados por deusas ancestrais de todas as coisas que juntaram as partículas em matéria escura por um lado e pelo outro lado.....

O sábio já ia concluir a originalidade de Mitonho quando este se levanta indignado e de supetão sai da reunião. Nisso Chico Breca pergunta alto que bicho tinha mordido Mitonho e este já no meio do canavial:

- Isso lá tem futuro? Eu achei que era algo muito especial e pelo que este besta tá dizendo todo mundo tem o mesmo começo. É tudo filho do Big Bang. Se tudo for só um eu já perdi o interesse, pois meu interesse é na multiplicidade. Por hoje chega.

Terminou a frase com a voz sumindo pelo afastamento cada vez maior do ambiente da reunião. Foi um constrangimento geral. Nunca uma reunião dos Filósofos da Batateira terminara deste modo.

Um comentário:

  1. Dr. Jose do Vale.

    Abraços.

    Tempos passados, havia uma grande ligação entre os municipios de Araripina e Crato. Ainda menino Jose Ramos ex-governador de Pernambuco acompanhava o pai com um comboio carregado de goma e farinha para vender na feira do Crato. Já como prefeito de Araripina, Jose Ramos procurou um serviço de som para fazer a cobertura de umas festividades alusivas ao aniversario do municipio. Coube a contratação ao nobre e competente jornalista Osvaldo Alves de Souza que levou junto o seu amigo Gerçon Moreira. Quando se acomodaram no Hotel a proprietaria que já conhecia Osvaldo perguntou: Quem é este outro cidadão? Osvaldo respondeu: É o Vigario da Batateira. Pronto daí por diante passaram a ser tratados a pão de ló. Era padre pra cá, padre pra lá e Gerçon todo fofo.

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