30 outubro 2008

AS IDÉIAS DE ARQUIPÉLAGO E CONTINENTE EM DEBATE DOS FILÓSOFOS DA BATATEIRA

Debates acalorados em grupos filosóficos não são incomuns. E foi. Nesta semana entre os filósofos da Batateira. Mas não foi a respeito de um tema específico. Como estamos nestes tempos de crise o conteúdo da peroração termina sendo mesmo estas ilhas separadas. A crise é o período em que tudo se fragmenta, se torna um arquipélago de idéias e só depois se confluirá em um continente.

Mitonho logo esticou seu corpo magro em direção ao céu, enquanto as veias do pescoço estufavam pelo esforço do discurso:
- A maior corrupção é de quem a pratica quando antes se dizia limpo. Quem levantou a bandeira da ética, da correção, da coisa pública, da democracia, da limpeza e depois se macula com o vil metal. É preciso rebentar estes traidores, eles são piores que os antigos ladrões, pois enganam para disfarçar os próprios atos.......

Chico Breca levanta-se na altura em que Mitonho se encontrava o combate:
- Você perdeu o rumo. Você combate pessoas. Não combate o instituto da corrupção. Não adiante prender um ladrão ou outro. É preciso além de expor e execrar o praticante da corrupção, também acentuar os motivos pelos quais a corrupção é ruim para todas as pessoas, é ruim para a sociedade e principalmente para a política. Que partido político no exercício do poder não praticou atos que lesam a sociedade. Fazem corrupção tanto nas contas do dinheiro quanto nas promessas impraticáveis. Ao invés de denunciarem as falsas promessas, se tornam cúmplice de uma ilusão que promete e apenas cumpre, de fato, a frustração da sociedade.

Zé de Dona Maria, como membro ativo do debate, toma a palavra:
- O problema é desta república ilegítima e corrupta. É desta ganância individualista. Desta falta de Deus no coração. Desta falta de uma autoridade mediadora, que sirva como um pai para a nação. Esta república só funciona na base da corrupção é nela que se encontra a raiz da corrupção.

Chambaril, por sua vez vem como um trator:
- Nem pessoa, nem instituto e nem rei. A corrupção se encontra na raiz do próprio sistema capitalista. Ou o comércio não corrompe o preço para ganhar mais? Ou um padre não deixa de batizar ou fazer a oração aos mortos se ele não tiver dinheiro? Ou um banqueiro não aplica juros para ganhar dinheiro sem fazer nada? Ora é do jogo do capitalismo explorar o outro. Mas os defensores deste regime vivem apregoando que a democracia só é possível com ele, que a liberdade só existe nele, que o progresso da pessoa só ocorre nele. Então dizem que tudo depende da capacidade de cada um, ninguém pode se achar lesado se a conquista do outro é fruto da sua maior capacidade. Mas aí a capacidade do trabalhador é o trabalho e pai se matou dia, noite, domingo e feriado de tanto trabalhar e hoje além de não ter quase nada ainda vê que todo mundo na vizinhança é a mesma coisa. Então pai sabe que a capacidade que diziam ser de cada um, é de muita gente ao mesmo tempo e quando muita gente é assim ao mesmo tempo, é que o modo é corrupto na sua própria natureza.

Fan levanta como se fosse entrar no tema e aborda uma coisa que ninguém, em princípio, entendeu:
- Catástrofe é o nome do presente. É este machismo que transformou as leis da convivência humana em relação de poder, de dominador e dominado. Veja aquele grande imbecil lá de São Paulo. O macho forte, dono da mulher, sem qualquer estrutura para agüentar uma rejeição. Mata a moça pois se julga o dono da alma e do corpo dela. E faz isto para deleite de todos os machões do Brasil, a cores e com som pela televisão. E isso se torna uma propaganda do poder, inclusive pela voz, a soldo dos donos de televisão, de inúmeras mulheres.

Um silêncio de arquipélago em que ilha alguma escuta a outra. Ou um balbucio infernal de maracanãs na areia. Nenhuma fala se funde. Ninguém se entende. Então Chico Preto, o maior filósofo que a Batateira já teve e talvez nunca terá igual, afina o término da reunião:
- Toda pessoa diz o que tem dentro de si. Mesmo que dentro dela tenha uma voz que não se originou nela mesmo. Seja a voz de uma revista ou da televisão, ou voz de uma doutrina, ou a voz de uma paixão. Então não é possível qualquer conversa em que não se considere isso. Mas é possível que todo conversador já saiba de cara que após a conversa ele não sairá com a mesma matéria com a qual havia chegado.Então só é possível irmos para uma sabedoria comum a todos, quando todas as vozes forem modificadas pelo confronto de tantas vozes. Como dizia um amigo meu: neste mundo até as pedras se encontram.

Um comentário:

  1. Os da Batateira são uns danados mesmos. Quem já se viu dizer uma coisa e fazer outra? O Mitonho está coberto de razão. Parece que assistiu o Eduardo da CPI e a Paz do prefeito eleito do Rio. Que mudança. Nem o padre pode mais dizer: faz o que digo e não o que faço. Precisa mudar o conceito e dar o exemplo.
    Por falar em padre o Chambaril deve ter conhecido Lauro, um que gostava de emprestar dinheiro a juro. Quando a historia se espalhou e as reclamações chegaram a Diocese o Bispo o chamou e advertiu que 9% era uma taxa muito alta, Deus não via com bons olhos. O Lauro respondeu: Senhor Bispo olhando lá de cima no lugar do 9 agente vê um 6.
    Todos estão com a razão falta até o temor de Deus.
    Salve os filósofos da Batateira.

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