30 setembro 2008

PEQUENO GRANDE HOMEM

Carlos Eduardo Esmeraldo

Acho que não havia ainda completado seis anos de idade quando o conheci. Nessa época, eu vivia livre nos matos do Sítio São José, ouvindo o canto dos pássaros, o mugir das vacas, o apito do engenho, a passagem dos trens a pouco mais de cem metros da nossa casa. Mel, alfenins, rapadura e garapa morna da cana recém-moída eram os meus quitutes prediletos. Tamanha carga de açúcar adicionada à minha alimentação, associada à minha rebeldia contra o uso da escova de dentes, levou-me a uma noite mal dormida, que eu jamais esquecerei. Um dentinho de leite estragado foi a causa daquela minha primeira noite de insônia. Ainda hoje, quase sessenta anos depois, escuto a voz doce e suave da minha mãe, tentando acalmar o meu choro: “Amanhã vou lhe levar ao doutor Aníbal para ele obturar esse seu dente.”
No dia seguinte, levantamos da cama cedo e fomos rumo ao Crato numa das “Sopas do Anselmo”, como chamávamos os velhos ônibus, cujas carrocerias eram adaptadas de velhos caminhões, e que transportavam pela poeirenta estrada velha os moradores do Crato para o Juazeiro, e vice-versa. Da praça onde os ônibus estacionavam para o consultório do doutor Aníbal era um pulinho só. Após algum tempo de espera, que para mim pareceu não ter fim, eu e mamãe fomos introduzidos no consultório do doutor Aníbal. Aos meus olhos de criança estava diante de um homem muito grande. Segurou-me fortemente e, num piscar de olhos me sentou numa cadeira esquisita. Em seguida, ele mandou que eu abrisse a boca e se dirigiu a um canto da sala para pegar um instrumento que me pareceu ser um alicate. Os humildes moradores do São José que tinham seus dentes extraídos, ou melhor: “arrancados”, como diziam eles, contavam horrores das extrações de dente. Então segurei firme com as duas mãozinhas o seu braço e disse: “O senhor não vai arrancar não!” E ele, com voz calma e tranqüilizadora, respondeu: “Calma rapaz, eu vou só extrair.” Na minha doce inocência pensei que ele desejava dizer, com outra palavra que eu não conhecia, que ia apenas obturar o meu dente. Foi uma operação indolor e logo fomos dispensados. Na saída para a rua, depois de cuspir na raiz de um enorme pé de fícus que existia defronte ao consultório e ver a prostrada de sangue, exclamei para mamãe: “Que doutor enrolão! Ele disse que ia extrair e fez foi arrancar!” Desnecessário dizer que fiquei mal-acostumado. Desse dia em diante, quando um dentinho de leite amolecia, insistia que ele fosse extraído pelo doutor Aníbal. Ele foi meu dentista por quase meio século. Não somente meu, mas de todos da minha família.
O tempo passava e anualmente tinha de ir ao dentista. Não sei se existe alguém que goste de ir ao dentista. Eu pelo menos não gostava e continuo assim nos dias atuais. Horas de espera no consultório lotado de clientes. Naquela época, não havia esse requinte de marcar horário. O atendimento no consultório do doutor Aníbal era por ordem de chegada. E até seus filhos entravam na fila. Por isso, eu mal chegava do colégio, almoçava às pressas para ser o primeiro da fila. Na fila de espera, eu olhava curiosamente o movimento da casa, que tinha as duas salas da frente reservadas para o consultório e o restante como residência da família. A cada ano nascia uma criança na casa do doutor Aníbal. Ao todo: oito filhos geneticamente distribuídos: quatro homens, quatro mulheres, dois homens morenos e dois louros, duas morenas e duas louras. Quando eu já tinha mais ou menos uns doze anos de idade, comecei a notar que uma das filhas do meu dentista tinha uma beleza que me chamava à atenção, além de uma acentuada meiguice, destacada pela bela e entoada voz quando cantava: “hei você aí, me dá um dinheiro aí...!” Observava, sem jamais ser notado, quando ela saia para a escola com sua fardinha branca sobreposta por um pequeno avental de quadradinhos azuis. Jamais poderia imaginar naquela época, que aquela filha do meu dentista seria minha mulher e doce companheira por essas estradas da vida. Mas o meu futuro sogro, além de filho de um velho amigo do meu pai, era também um de seus melhores amigos. Nos feriados do carnaval e da semana santa, uma caravana de amigos de papai ia para nossa fazenda “Mão Esquerda”, no Pernambuco. Entre esses amigos estavam o prefeito Ossian Araripe, Jósio Araripe, Antonio Luis, Chico Piancó, doutor Aníbal e dona Maria Eneida. Ficava chateado porque eles não levavam os filhos.
Todos os dias de minha vida eu agradeço a Deus por ter proporcionado a graça de casar com Magali, uma das filhas do doutor Aníbal. Ela é tudo aquilo que os olhinhos do meu coração de criança enxergavam e muito mais. Juntamente com seus irmãos, todos eles são herdeiros da simpatia, do caráter, do senso de justiça e respeito ao ser humano, principalmente aos mais pobres, aliado à fidalguia, atributos adquiridos do doutor Aníbal e dona Maria Eneida.
Além dessas qualidades que aqui relacionei, o meu sogro, quando na juventude, era um desportista aplicado. Certa vez, o diretor da Coelce, Espedito Cornélio me disse que nos anos quarenta o doutor Aníbal era o melhor jogador de basquete da seleção cratense. Na hora achei que ele estava falando de outra pessoa. Esta minha dúvida somente foi dissipada no dia em que estávamos no Aeroporto do Juazeiro, para embarcar alguém da família, e lá nos encontramos com o coronel Adauto Bezerra. Ele nos cumprimentou e perguntou: “Aníbal, você ainda joga basquete?” Confirmada mais essa qualidade do meu sogro, depressa descobri outras tantas com muita facilidade: sua inteligência privilegiada era uma delas. No dia em que completou cinqüenta anos de sua formatura no CPOR, fui com ele até a sede da 10a Região Militar para as comemorações. O general comandante lhe entregou uma condecoração e disse para todos os presentes que, até aquela data nenhum aluno do CPOR havia superado as notas do aluno Aníbal Viana de Figueiredo. Ele havia sido aprovado com a nota igual a dez em todas as provas. Nesse instante, olhei para ele e me ocorreu que ele ficou achando que aquele elogio não era com ele, tão simples e desprovido de vaidade ele era. Se alguém lhe dirigisse um gracejo, ele respondia com outro maior ainda. Certa vez estava em sua casa e ele só me chamava de Eduardo. Como ele estava com mais de oitenta anos e num processo de esclerose, pensei que ele me confundia com seu outro genro Eduardo Siebra. E então brinquei com ele: “Isto é que é gostar do seu genro Eduardo Siebra. Só me chama pelo nome dele.” E ele retrucou imediatamente: “Seu nome não é Carlos Eduardo?” Numa prova de que a inteligência não envelhece e nem desaparece com o passar do tempo.
Apesar de ter o seu consultório sempre lotado de clientes, o doutor Aníbal nunca fez fortuna com a profissão. Tratava com a mesma distinção ricos e pobres, mesmo quando estes não podiam lhe pagar. Um depoimento que mais me impressionou, foi dado por um homem simples, que veio cumprimentá-lo, certo dia na Praça da Sé, ao lado da Igreja. Depois este homem me segredou: “Nunca esqueço um grande favor que ele me fez. Bati na porta dele às duas horas da madrugada, com uma chuva forte. Eu estava morrendo com uma dor de dente. Ele levantou-se e foi ao consultório me atender. Perguntei quanto lhe devia e ele me disse que não precisava pagar nada. Então quando eu ia saindo para casa, ele me perguntou: Onde você mora? Na Batateira, respondi. E o doutor me disse: Espere aí que eu vou lhe deixar em casa. E foi tirar o carro da garagem.”
Era assim o meu sogro. Pequeno no tamanho, mas grande nas atitudes. Um dos melhores dentistas do Crato de seu tempo, um exemplo de profissional, extraordinária pessoa humana, modelo de verdadeiro cristão e referência para a odontologia cearense.

8 comentários:

  1. Dr. Carlos Eduardo.
    Duas ocorrências me colocaram frente a frente com o extraordinário Dr. Aníbal Viana. Tinha lá os meus ll anos, residia em um sitio distante 05 KM de Várzea-Alegre, um danado de um dente tratou de judiar comigo. Em Várzea-Alegre não tinha dentista, a solução encontrada era colocar meisinha: entre casca de juá, jurema e tome dor. Dormi durante a noite nem pensar. A coisa chegou ao ponto que parecia está com duas, não uma macaúba na boca. Meu pai não suportando mais o sofrimento meu e de minha mãe resolver me levar ao Crato. Saímos por volta das 04 da manha num misto que fazia linha aos domingos e chegamos às 05 da tarde. Nos hospedamos na casa do Senhor Zuza Bizerra de quem meu pai era sobrinho. Antes mesmo de tomar a benção o meu pai já procurou saber onde poderia encontrar um dentista. Seu Zuza respondeu: amanha eu mandarei a Estelita ir com você no consultório do Dr. Aníbal. A dor do dente e a ausência de minha mãe fizeram daquela uma noite interminável. Quando entramos no consultório o meu pai recebeu uma reprimenda do Dr. Aníbal: como o Senhor deixou chegar a esta situação sem levar este garoto a um dentista? Meu pai respondeu: Doutor estou vindo de Várzea-Alegre, distante 98 km e lá não tem dentistas! Entendi, respondeu Dr. Aníbal. Vou passar umas injeções o Senhor vai mandar aplicar e nos próximos três dias o senhor retorna. Lembro ainda hoje o nome da injeção: poli-pio, bem pequena e não doía nada, depois da primeira aplicação a dor acabou. Em três dias a macaúba tinha desaparecido retornamos e foi resolvido o problema do dente.
    Vinte anos ou mais depois, cheguei por volta de 07 horas da manha no Banco onde era gerente, e vi aquela figura simples, calma, humilde, pura e bonita se aproximar da porta e tentar visualizar a parte interna. Fui ate a porta, abri e o convidei para entrar. Sentadinho na minha frente deixava a entender que algo lhe perturbava. Não demorou ele me revelou o motivo da visita e de sua preocupação. Uns colegas meus de banco estavam em determinado lugar onde também se encontrava um seu filho o Carlinhos. Houve um desentendimento uma troca de tapas e ele me pedia providencias no sentido de evitar um outro revide, coisa de pai. Eu lhe disse: Dr. Aníbal, eu lamento profundamente e gostaria que o Senhor fosse em minha residência junto com o seu filho para ele me contar esta historia direito. Eu moro um pouco adiante da casa do seu genro Carlos Esmeraldo, parede e meia com o Dr. Heladio. Fiquei feliz porque notei que ele saiu satisfeito com a nossa conversa. Chamei um colega, o que mais confiava, e procurei me informar e identificar os brigões. Convidei-os para irem a noite em minha casa tomar uma cerveja comigo. Muito bem, conseguimos juntá-los, e com esse jeitão de tonto fui logo dizendo: Olhem meus amigos, essa historia de briga não tem futuro. Eu e o Dr. Aníbal que temos mais juízo, trouxemos vocês aqui para dizer para o Carlinhos que esse hematoma besta no rosto, daqui a cinco dias desaparece e a você Elisaldo que essa mordida aí na sua orelha, também vai desaparecer, da mesma forma que tem que desaparecer qualquer raiva ou desejo de revide em vocês. Nós vamos tomar uma cerveja juntos e vamos acabar com essa encrenca. Resultado, no final Dr. Aníbal levou no seu carro Carlinhos e o outro brigão Elisaldo que era genro de Jose Raimundo de Brito do sitio quebra. Tenho uma certeza, contribuir para acabar com a preocupação dEle em um momento, porem fui um eterno devedor pelo alivio que Ele me proporcionou ao cuidar do meu dente.
    Abraços.

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  2. Uma grande figura o Dr. Aníbal. Uma vida todinha dedicada à cidade de Frei Carlos. Chegou ao ponto de família reclamar pois trabalhar de graça até era permitido, mas pagar para trabalhar ? Atendia a todos indistintamente e como o Dr. Zé Nilo não cobrava nada de gente viva. Nem o material odontológico que geralmente é muito caro. Com tuda esta vida sacerdotal teve sempre uma condição digna, formou os filhos com um cuidado todo especial e todos eles são cidadãos de bem e profissionais do mais alto conceito. Esta herança sobrepassa qualquer outra meramente material, até Bill Gates corre o risco de não conseguir legar aos filhos um patrimônio vultoso como o sábio
    Dr. Anibal legou. Houve uma época em que o prefeito da cidade era Pedro Felício e Dr. Anibal, seu vice. As contas eram postas às claras diarimaente. Bons tempos aqueles ! Tudo isto provando que ética, dignidade e desprendimento são os caminhos menos espinhosos para a felicidade.

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  3. Carlos Eduardo descreve com precisão a imensa figura humana de Dr. Aníbal.Também fui seu cliente naquele misto de residência e consultório. Ele fez comigo um tratamento inédito na época: após levar um chute de "Turu" na Praça da Sé, tive as pontas dos meus dentes centrais inferiores quebradas. Dr. Aníbal fez dois pinos e colocou 2 coroas de ouro. Isso era o que de mais moderno existia na odontologia da época. Durante muito tempo, charlei bastante com a moçada, porque tinha dois dentes de ouro.
    Mas de ouro era o coração a a mente de Dr. Aníbal, que naquele seu pedal, sem energia elétrica, conseguia fazer um trabalho odontológico de qualidade. Carlos Eduardo é um sortudo de ter tido como sogro um homem do quilate de Dr. Aníbal. Associo-me prazeirosamente a esta singela homenagem. jose hamilton de lima barros

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  4. Quero agradecer as palavras de Antonio Morais, Jose Flavio e Jose
    Haminton de Limas Barros, meu pai sempre foi um exemplo para mim e meus irmãos.
    Luiz Alberto de Figueiredo

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  5. Prezado amigos: Morais, José Flavio e Hamilton

    Magali está agradecendo a vocês e reforça as palavras do seu irmão Luis Alberto.
    Como tive a felicidade de ter um sogro como o Dr. Anibal, (no dizer de Hamilton) foi possível conhecê-lo bem. O texto que havia preparado foi reduzido à metade por questões de espaço. Ele teria muito mais coisas para serem contadas. Um abraço a todos.

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  6. Meu filho nasceu no mesmo ano que vovô faleceu.

    Foi através desse sentimento de tristeza de uma perda seguido pela alegria do nascimento do primeiro filho que finalmente a vida deixou claro para mim que as gerações se renovam e nem todas as pessoas que marcam a nossa história convivem no mesmo período de tempo.

    Se meu filho tiver metade das qualidades de vovô Aníbal, já estarei mais do que satisfeito

    Alexandre Siebra

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  7. Meu filho nasceu no mesmo ano que vovô faleceu.

    Foi através desse sentimento de tristeza de uma perda seguido pela alegria do nascimento do primeiro filho que finalmente a vida deixou claro para mim que as gerações se renovam e nem todas as pessoas que marcam a nossa história convivem no mesmo período de tempo.

    Se meu filho tiver metade das qualidades de vovô Aníbal, já estarei mais do que satisfeito

    Alexandre Siebra

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  8. Dr. Aníbal Viana de Figueirêdo, cirurgião dentista, rua Bárbara de Alencar, altos. Era assim que saia na Rádio Educadora. Foi sem dúvida o dentista de todos os cratenses. Era compadre de meus pais, para orgulho destes. Sempre educado, riso fácil e de uma lhanheza qual um fino cavalheiro. Lembro-me, como muitos, de como era leve sua mãos ao extrair "dentes podres" dos meninos pobres. Sofri muito nas suas mãos, mas sempre lhe devotava profunda confiança, ao ser recebido como uma pessoa, como gente, apesar de menino. Dr. Aníbal está sentado no panteão dos ilustres conterrâneos, e sua evocação neste momento torna-se imprescindível pelos exmplos que deixou de um homem social e politicamente correto.

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