16 setembro 2008

O QUÊ É IMPORTANTE PARA NÓS AQUI NA REGIÃO?

O que foi e é importante não depende apenas do indivíduo. Mas ouvimos discussão em que alguém argumenta que isso pode não ser importante para o outro, mas para ela o é. Tal argumentação nos leva à convicção que as coisas importantes são decisões individuais. Acontece que a importância das coisas já é, em si, um valor coletivo. Por mais que uma mãe ame seu filho, ele é uma linhagem da humanidade inteira. Assim parte da importância de uma notícia depende da fonte a que se recorre, da credibilidade relativa de quem a espalhou. Ou seja, a importância que parecia uma decisão nossa, na verdade expressa o nosso próprio eco de quem e onde foi firmada a importância. Sem dúvida que ao confirmá-las também construímos a importância, reforçando a verdade que as coisas importantes não são individuais, mas, ao contrário, coletivas.

Longa introdução, não? Mas não menos importante. Pois hoje ao se ouvir a Rádio Chapada do Araripe estamos vivenciando uma troca na geração da importância. Quando a divulgação da música era feita por discos, a fonte da importância se encontrava nas capitais. No nordeste, especialmente em Recife e depois em Fortaleza também. Claro que havia um buraco negro maior, com forte atração que era o Rio de Janeiro. Lá estavam os palcos das redes de televisão e a sede da indústria fonográfica.Mas voltando ao Recife e Fortaleza.

Como Recife soube valorizar o sertanejo mais relevante e Fortaleza criou uma música de classe média com letras e música mais diferenciada. Enquanto a geração de Alceu Valença e Zé Ramalho que se inicia em Recife vai fundo no aboio do vaqueiro, nas cordas da viola sertaneja, na aridez da vida e na rudeza mística dos desvalidos, em Fortaleza o Povo do Ceará com Belchior, Fagner e até mesmo o Ednardo (das Ingazeiras) vão ao romantismo das velas do mucuripe, na poesia sofisticada e nos apelo popular. Ambas formações de importância não deixam de ter raízes nos estados de origem, mas guardam ritmos, poesia e musicalidade bastante distinta.

Enquanto na rota de Recife poder-se-ia encontrar até mesmo o psicodélico progressivo num Paebiru de Lula Côrtes e Zé Ramalho, isso no Ceará não ocorreu. Não ocorreu até certo ponto na rota de Fortaleza. Depois que a gravação se descentralizou e as mídias ficaram universais, as médias cidades passaram a ser fonte da própria importância. Ainda com enorme massa gravitacional das importâncias capitais, mas agora com possibilidade de realmente se evocar alternativas. Por isso ficamos perplexos, todos nós, sem exceção e pelo que já li neste mais de ano em que leio tudo que se escreve em quatro blogs do Cariri, o quanto o Cariri não "acontece". Sabemos da necessidade da arrancada da cultura deste umbigo do nordeste e sua importância primeira para dentro de si mesma e daí completar o papel histórico no litoral.

Vi muitos talentos se manifestando. Vários líderes e produtores. Jovens e não tanto assim. Mas existe uma massa de gente que pode muito mais do que efetivamente ocorre. Não acredito num individualismo exacerbado, isso não se sustenta, pois a natureza gregária da região é imensa. Acredito, isso sim, na possibilidade da própria região ser uma fonte geradora de importância. A própria Rádio Chapada do Araripe com seus horários dedicados ao talento regional é uma prova disso. Agora se fosse possível convencer as fontes de financiamento a manter um programa de algo em torno de 50 semanas ininterruptas de audiências mesmo que seja principalmente de músicos e poetas/letristas, trazendo tudo da região, desde antropofagia ao folclorismo em matéria bruta, trazendo profissionais e amadores, registrando e deixando os artistas livres para ouvirem, mascarem e cuspirem o sumo rico da cultura regional ao invés da gastura estéril de suas vaidades.

3 comentários:

  1. Pois é, amigo José do vale...

    Estou querendo e precisando formar uma equipe que vai diferenciar os horários de programação da Rádio Chapada do Araripe. Algumas pessoas já se pronunciaram que desejam fazer programas, pelo menos semanais. Até locutores de Rádios convencionais irão embarcar.

    Estive meio sem tempo para grandes atualizações, mas creio que isso melhorará ao longo dessa semana.

    Precisamos terceirizar programas, entregar a pessoas específicas que tratarão de seus respectivos horários, assim, conseguiremos preencher o espaço da rádio com uma coisa muito importante que falta: A INFORMAÇÃO. A parte musical, é isso mesmo. Temos MPB de Noel Rosa aos dias de hoje, temos Música Clássica, temos Jazz, temos Blues, passando por todos os ritmos nordestinos e espaços aos artistas regionais. Mas falta organizar isso melhor. Espero até receber sugestões de como isso poderia melhorar.

    Um grande abraço,

    DM

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  2. Dr. Jose do Vale.

    Quando vier ao Crato eu tenho um presente para voce. Um DVD do CLÃ BRASIL. Trata-se de uma familia: Um pai, uma mãe, e cinco filhos, um menino e quatro meninas. ´Voce precisa ver o que eles fazem. Cada um toca pra mais de 10 instrumentos. São bisnetos de Dedé do Cantinho um tocador de Pe de Bode de Itaporanga na Paraiba. Posso remeter para seu endereço no Rio. Basta que o tenha. Meu E-mail moraisenair@hotmail.com.
    Abraços.

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  3. Meu Caro Dr. Jose do Vale.

    Estou de volta, desta feita, para contar uma historinha que me mata de saudades sempre que a lembro. Leonilia de Souza Rego, convidou os parentes de Taua para um passeio em Crato. Os danados alugaram dois onibus e vieram todos, não ficou nenhum Rego por lá. Passaram sexta, sabado e retornaram no domingo a tardinha. Conheceram a região toda sob a orientação da guia turistica Leonilia. O ponto de apoio foi na chacara que o seu pai tinha nas proximidades do Romualdo. Eu que era querido do dono da chacara e da dona da festa fui um convidado de honra. No domingo ninguem arredou o pé de casa. Eu pra agradar levei comigo o sanfoneiro afamado de Varzea-Alegre Pedro de Sousa Rego, parente da turma do Taua. Deixa que a Leonilia levou Jose de Chicão um sanfoneirinho enjoado da Batateira e o Velho e Querido "ZÈ de Comadre Leonarda" levou outro sanfoneiro. Eram tres tocando ao mesmo tempo. Quando eu dançava com a Leonilia fui logo advertindo: minha amiga se eu errar é porque eles estão tocando em tres tons diferentes. Foi um dia de muitas felicidades com aqueles familiares juntos.
    Abraços.
    A. Morais.

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