14 setembro 2008

Conto: Asdrúbal - Por: Luiz Cláudio Brito de Lima

"O homem, quando perfeito, é o melhor dos animais, mas é também o pior de todos quando afastado da lei e da justiça, pois a injustiça é mais perniciosa quando armada, e o homem nasce dotado de armas para serem bem usadas pela inteligência e pelo talento, mas podem sê-lo em sentido inteiramente oposto. Logo, quando destituído de qualidades morais, o homem é o mais impiedoso e selvagem dos animais, e o pior em relação ao sexo e à gula". Aristóteles - "Política", 1252 b.

Menino ainda, porém atento e observador, Asdrúbal acompanhava tudo que acontecia na cidade, participava ativamente de todos os eventos na escola, pedia, implorava para fazer parte, quer seja em peças teatrais, quer seja, em apresentação de trabalhos, adorava falar, conduzir todo o processo.

Aos doze anos foi eleito representante de sala, sempre presente apresentando propostas e levando os anseios dos colegas ao corpo diretivo da escola, era um verdadeiro defensor da sua sala. Mais tarde, já na fase adolescente, foi eleito o representante da escola, detinha todo o “poder”, sabia de tudo, conhecia quase toda a escola, quando passava diziam: “...esse é o futuro prefeito...”, aquilo o enchia de vaidade, de vontade, de querer, porém, era só vontade.

Em um determinado dia foi convidado por um colega que o assessorava no comando do centro acadêmico a saírem da escola, tomar um refrigerante e conversar um pouco sobre seu trabalho. Após lancharem, o amigo lhe apresentou uma proposta de administrar melhor a sua função, disse-lhe que como era sabido, as dificuldades financeiras eram imensas, a escola só lhe fornecia o espaço físico, o resto, era de responsabilidade deles. Sendo assim propôs um “taxa acadêmica” para cobrir as despesas, esse valor seria depositado em uma conta a disposição do centro acadêmico. Asdrúbal ficou indignado, não imaginava que o seu trabalho voluntário, gracioso, transformasse em uma fonte de lucro, discutiu como assessor despediu-se e foi embora.

Em casa pensou na proposta, relutava em não aceitá-la, entretanto, lembrando-se da situação do centro acadêmico, resolveu tentar. No dia seguinte, após conversar melhor com o seu “assessor”, marcou uma reunião e expôs a idéia na escola, em um primeiro momento seus colegas reclamaram, blasfemaram, mais, haja vista seu poder de persuasão conseguiu convencê-los. No mês subseqüente estavam todos colaborando com uma “pequena” taxa para ajudar o centro acadêmico. Logo nos primeiros dias Asdrúbal percebeu que aquela decisão fora a mais acertada em sua vida, pois conseguiu comprar algumas cadeiras, mesas, até o computador – certo que usado – foi possível adquirir.

Com o passar do tempo, a situação financeira pessoal de Asdrúbal complicou-se, precisava de dinheiro, entretanto não disponha, pensou em pedir emprestado, não tinha ninguém que fizesse tal gentileza. Pensou, pensou, e chegou à conclusão que não tinha problema retirar do caixa do centro acadêmico, e assim o fez. Durante muito tempo agiu dessa forma, até que um dia, um aluno pediu que fosse feita uma auditoria nas contas do centro, Asdrúbal relutou, discutiu, afirmou que estavam colocando em duvida sua integridade, sua honra, seus vários anos dedicados a aquela escola, que não era justo..... Porém, após aprovação, bem como a elaboração do laudo da auditoria, descobriu-se um desfalque considerável, muito dinheiro havia sido desviado, utilizado em outros fins que não o do interesse do centro acadêmico. Asdrúbal foi destituído do cargo, instaurou-se uma “cpi” na escola para investigar os delitos cometidos pelo ex-presidente do centro.

Passados meses de investigação a comissão apuradora do suposto delito, entendeu que não restara comprovado a participação do acusado, que tudo não passara de um grande “mal entendido” e que Asdrúbal realmente era um excelente administrador, inclusive lhe foi pedido desculpas formal. Asdrúbal não só as aceitou, como se candidatou novamente ao cargo de presidente do centro acadêmico, inclusive nomeando vários componentes da antiga “cpi escolar” a fazer parte de sua nova gestão.

A narrativa acima, o que, diga-se de passagem, é uma mera ficção desse subscritor, não guardando nenhuma realidade com absolutamente nada nem ninguém, tem sim o escopo de nos fazer refletir acerca desse momento tão importante que se aproxima, qual seja, eleições. A Constituição Federal, nossa lei maior, de forma clara e inequívoca nos garante o direito de votar e ser votado, direito esse conseguido após muitos anos de lutas, sofrimentos e abnegações. O voto, instrumento popular mais poderoso que existe, nos permite eleger pessoas capazes de melhorar a vida de toda uma comunidade, de toda uma nação, são essas pessoas que ditarão as regras durante os próximos anos, são essas pessoas que com discernimento, inteligência e perspicácia formarão uma geração que, se bem instruídos, prosseguirão com a política humana, voltada para o crescimento, ética, e acima de tudo respeito à coisa pública e os irmãos.

Ainda Segundo o filósofo Aristóteles : "Vemos que toda cidade é uma espécie de comunidade, e toda comunidade se forma com vistas a algum bem, pois todas as ações de todos os homens são praticadas com vistas ao que lhes parece um bem; se todas as comunidades visam a algum bem, é evidente que a mais importante de todas elas e que inclui todas as outras tem mais que todas este objetivo e visa ao mais importante de todos os bens; ela se chama cidade e é a comunidade política" (Pol., 1252a).

Por fim, desejo a todos os irmãos brasileiros que antes de exercerem o seu direito sagrado do voto, lembrem-se das palavras do grande filosofo, pois o objetivo é o bem de todos, sendo assim, pesquisem, busquem informações acerca de seu candidato, observem o seu comportamento, a sua postura, o seu compromisso com a coletividade, pois depois de eleito, verificando-se ser um medíocre administrador, teremos que “aturá-lo” quatro anos, e esse período é muito longo, imaginem viajar por quatro anos ao lado de uma pessoa indesejável! Boa sorte a todos.

Luiz Cláudio Brito de Lima

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