21 agosto 2008

Rio São Francisco - Transposição ainda gera polêmicas

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Rio São Francisco banha a cidade de Piranhas (AL), onde segmentos sociais questionam o projeto (Foto: Antônio Vicelmo)

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José Vieira já foi indenizado com R$ 51 mil pelo Governo Federal, mas diz que ficou sem dinheiro e sem terra

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Pequeno produtor, José Manoel da Silva, deverá ser indenizado, pois terá sua casa atingida pelas águas

A transposição do São Francisco ainda não obteve um consenso popular. Em piranhas (AL), o tema é polêmico

Piranhas. A força-tarefa, que envolve homens e máquinas, caminha em direção ao Ceará, por dentro da caatinga, rasgando o coração do Nordeste seco, passando por cima de preconceitos e enterrando os últimos focos de resistência. O trabalho ainda causa polêmica, principalmente entre setores da Igreja Católica. A greve de fome feita pelo bispo diocesano de Barra (BA), dom frei Luiz Flávio Cappio, no dia 26 de setembro, contra a transposição, deixou alguns discípulos.

Um deles é o prefeito de Piranhas (AL), Inácio Loiola Damasceno, eleito presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco. Loiola adverte que o governo está cometendo um erro grave. A diminuição da vazão do São Francisco, segundo o prefeito de Piranhas, está empurrando o mar para dentro do rio e, consequentemente, assoreando o seu leito.

Devoto do Padre Cícero, daqueles que vai, mais de uma vez por ano, a Juazeiro para pagar promessas, o prefeito alagoano garante que conhece bem o Ceará. “O Estado não precisa de água, já tem água sobrando”, afirma ele, citando os açudes Castanhão e Orós.

Sem transparência

A maior oposição ao projeto vem de setores da Igreja Católica. Nas pegadas de dom Flávio Cappio, o bispo que fez greve de fome contra a transposição, o vigário de Cabrobó, Evandro Bezerra dos Santos, adverte que o “benefício” não está sendo pleno. “O projeto não é transparente. Foi empurrado de goela abaixo pelo governo”. Ao fazer esta crítica, o padre chama a atenção para a retirada do povo de suas terras, sem uma indenização compensatória.

O sacerdote critica também o desrespeito aos usos e costumes do povo. Os pequenos proprietários, que foram indenizados, segundo o vigário, já estão sofrendo as conseqüências da falta dos recursos necessários para o sustento da família. Na avaliação do padre, “somente os grandes, os poderosos, irão se beneficiar desse projeto com a construção de balneários”.

Na cozinha da casa paroquial a conversa é outra. A doméstica Maria Aparecida Barros, que trabalha com o vigário há 11 anos, diz que “só quem sabe o que é falta d’água é quem vive no sertão brabo, passando sede e fome e transportando lata d’água na cabeça, caminhando mais de uma légua, como eu fazia”.

Água salgada

Aparecida lembra que, quando vem a Juazeiro, nas romarias do Padre Cícero, leva água do Rio São Francisco em depósitos de plástico. “A água de Juazeiro não presta, é salgada, as crianças adoecem”, afirma. A doméstica acrescenta que um dos seus filhos e o seu marido adoecerem em Juazeiro depois de tomarem um copo d’água na subida do Horto. Ao fazer estes comentários, Aparecida reafirma que o povo do Cariri tem razão de querer a água do São Francisco.

O Projeto de Integração do Rio São Francisco com as Bacias Hidrográficas do Nordeste Setentrional é um empreendimento do Governo Federal, sob a responsabilidade do Ministério da Integração Nacional. Destina-se a assegurar a oferta de água, no ano de 2025, a cerca de 12 milhões de habitantes de pequenas, médias e grandes cidades localizadas na região semi-árida dos Estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte.

A integração do Rio São Francisco às bacias dos rios temporários do semi-árido será possível com a retirada contínua de 26,4 m³/s de água, o equivalente a 1,4% da vazão garantida pela barragem de Sobradinho (1.850 m³/s) no trecho do rio onde se dará a captação. Este montante hídrico será destinado ao consumo da população urbana de 390 municípios do agreste e do sertão dos quatro Estados do Nordeste Setentrional. Nos anos em que o reservatório de Sobradinho estiver vertendo, o volume captado poderá ser ampliado para até 127 m³/s, contribuindo para o aumento da garantia da oferta de água para múltiplos usos das regiões.

Os eixos de integração das bacias foram concebidos na forma de canais de terra, revestidos internamente por membrana plástica impermeável, com recobrimento de concreto. Nos trechos de travessia de rios e riachos serão construídos também aquedutos, sendo previstos túneis para que seja feita a ultrapassagem de áreas com altitude mais elevada.

Para vencer o desnível do terreno entre os pontos mais altos do relevo, e os locais de captação no rio, serão implantadas 9 estações de bombeamento: 3 no Eixo Norte, com elevação total de 180m, e 6 no Eixo Leste, elevando a uma altura total de 300m. Ao longo dos eixos serão construídas 30 barragens, que cumprirão a função de reservatórios de compensação.

SAIBA MAIS

Norte

O Projeto de Integração do Rio São Francisco com as Bacias Hidrográficas do Nordeste Setentrional prevê a construção de dois canais: o Eixo Norte que levará água para os sertões de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte e o Eixo Leste que beneficiará parte do sertão e as regiões agreste de Pernambuco e da Paraíba.

Percurso

O Eixo Norte, a partir da captação no Rio São Francisco próximo à cidade de Cabrobó (PE), percorrerá cerca de 400km, conduzindo água aos rios Salgado e Jaguaribe, no Ceará; Apodi, no Rio Grande do Norte; e Piranhas-Açu, na Paraíba e Rio Grande do Norte.

Ramal

Ao cruzar o Estado de Pernambuco, este eixo disponibilizará água para atender às demandas de municípios inseridos em três sub-bacias do Rio São Francisco: Brígida, Terra Nova e Pajeú. Para atender a região do Brígida, no oeste de Pernambuco, foi concebido um ramal de 110km de comprimento que derivará parte da vazão do Eixo Norte para os açudes Entre Montes e Chapéu.

Leste

O Eixo Leste que terá sua captação no lago da barragem de Itaparica, no município de Floresta (PE), se desenvolverá por um caminhamento de 220km até o Rio Paraíba (PB), após deixar parte da vazão transferida nas bacias do Pajeú, do Moxotó, e da região agreste de Pernambuco. Para o atendimento das demandas da região agreste de Pernambuco, o projeto prevê a construção de um ramal de 70km que interligará o Eixo Leste à bacia do Rio Ipojuca.

INDENIZAÇÕES

Moradores esperam melhorias públicas

Jati/ Cabrobó. Água é fonte da vida. Não importa quem somos, o que fazemos, onde vivemos, nós dependemos dela para viver. A água é, provavelmente, o único recurso natural que tem a ver com todos os aspectos da civilização humana, desde o desenvolvimento agrícola e industrial aos valores culturais e religiosos arraigados na sociedade. No Nordeste, especificamente, a água se tornou objeto de demagogia política ao longo dos anos e moeda para compra de votos.

O pequeno produtor José Manoel da Silva, conhecido por “Zé Mãozinha”, em virtude de ter parte da mão cortada num acidente de trabalho, é o retrato fiel do nordestino que não se cansa de esperar por políticas públicas que melhorem as condições de vida do pobre.

Casado, pai de 11 filhos, Silva é proprietário de uma pequena casa, no Sítio Balança, município de Jati, porta de entrada das águas do São Francisco no Ceará.

O canal vai passar exatamente por cima da sua casa. Mesmo assim, o velho agricultor de 71 anos está otimista. Ele diz que os representantes do governo prometeram indenizar a casa, seu único patrimônio, e vão lhe dar pedaço de terra para trabalhar. “Quando a água chegar, será uma riqueza para todos nós da região”, acredita o pequeno produtor.

Sem dinheiro

No Sítio Retiro, entre Jati e Penaforte, uma casa cor de rosa, alpendrada, chama a atenção de quem passa na BR-116. A nova residência foi construída pelo agricultor José Vieira dos Santos, que recebeu de indenização R$ 51 mil por 12 hectares de terras que serão cobertos pelas águas do São Francisco. Ficou com apenas 9 hectares para trabalhar. Com o dinheiro da indenização construiu uma casa e agora, segundo afirma, está sem dinheiro e sem terra para trabalhar.

A mulher dele, Maria Donizete de Souza, lança mais lenha na fogueira. “Essa tal de transposição não vai chegar nunca. É tudo conversa fiada e, se vier, é só para os ricos”, desabafa ela. Donizete cita, como exemplo, a energia elétrica. “Está muito cara”, afirma ela, apontando para o poço desativado, no terreno vizinho, porque o proprietário não tem condições de pagar a energia. “Desse mesmo jeito vai ser com a água”, compara a moradora.

Apaixonado pelo sertão

Em meio a dúvidas, críticas e elogios, um depoimento emocionante. O capitão Andreos de Souza, comandante do 2º Batalhão de Engenharia do Exército, é um gaúcho apaixonado pelo sertão nordestino e, particularmente, pelo Ceará, onde ele passou a sua infância, em companhia do pai, que foi comandante dos Tiros de Guerra de Sobral e Crateús. Transferido para Fortaleza, estudou com sacrifício na juventude, ajudando a mãe a vender rendas no Mercado Central.

O menino Andreos cresceu acompanhando o sofrimento dos cearenses, carregando água na cabeça, ou em jumentos, para casa. Viu o fantasma da seca rondando os lares pobres, matando crianças desnutridas. Hoje, capitão do Exército, formado em Engenharia de Construção pela Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), Andreos diz que, à noite, quando bota a cabeça no travesseiro para dormir, tem consciência de que, no comando desta primeira etapa do projeto de transposição das águas do Velho Chico, está prestando um grande serviço à região Nordeste e seu povo.

O militar afirma ainda que esta convivência com o povo nordestino está sendo uma lição de vida. “Estou aprendendo muitas coisas com este povo acolhedor”, diz o comandante , acrescentando que uma de suas preocupações, quando é convidado para pronunciar palestras sobre a transposição, é explicar que o Rio São Francisco não está sendo desviado. Está sendo ligado as bacias existentes, tendo a meta de assegurar mais águas para os necessitados.

ANTÔNIO VICELMO
Repórter

Fonte: Jornal Diário do Nordeste
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