03 julho 2008

Da Árvore Para o Bem e para o Mal



“Acreditaste, porque me viste?

Bem-aventurados os que creram sem terem visto!”

João 20, 24-29

Era um gélido dia em Londres, naquele 01 de Julho de 1858, há exatos cento e cinqüenta anos. Na Piccadilly Circus , uma famosa praça de Londres, existe um palácio conhecido desde o Século XVII, por Burlington House. Desde 1788 , ele sediava a famosa Sociedade Linneana de Londres, nome dado em homenagem ao grande botânico Carl von Linné (1707-1778). A Sociedade tradicionalmente se dedica à taxonomia e publica relevantes estudos dedicados à botânica, zoologia e biologia. Nenhum dos encartolados e sisudos senhores presentes à reunião percebeu a importância daquele momento histórico para a humanidade. Pois ali , pela primeira vez, foi apresentada a Teoria da Evolução assinada por Charles Darwin e Alfred Russell Wallace. A apresentação de uma das mais importantes teorias de toda a história passou perfeitamente desapercebida. Talvez porque nenhum dos dois biólogos pode comparecer ao conclave: Darwin (1809-1882) havia perdido o filho caçula, morto de escarlatina, dois dias antes e Wallace escontrava-se na Nova Guiné, continuando suas pesquisas. Ele nem sabia dos rumos tomados por seu estudo, enviado em fevereiro do mesmo ano para Darwin. Só um ano depois, com a publicação por Darwin do livro “A Origem das Espécies” é que o mundo começou a se dar conta do cataclismo científico desencadeado pelos dois pesquisadores.



Há inúmeros pontos nesta história sesquicentenária que merecem ser lembrados. Darwin chegara à Teoria Evolucionista há mais de 20 anos e a mantivera sob sigilo certamente percebendo o potencial polêmico e bombástico que tinha nas suas mãos. Só quando em fevereiro de 1858 chegou às suas mãos um trabalho enviado por Wallace da Indonésia que contemplava as mesma conclusões é que resolveu publicá-la , temendo perder a procedência do seu descobrimento. Eticamente a apresentou, naquele primeiro de julho, na Sociedade Linneana, em nome seu e no de Wallace. A história, injustamente, terminou por esquecer o nome do grande biólogo Alfred Wallace, nascido no País de Gales em 1823 e que desapareceria deste mundo conturbado em 1913, hoje considerado o pai da Biogeografia.
Darwin percebeu com clareza o tsunami que acabava de desencadear. Certamente se pôs na pele de Galileu, Copérnico , Giordano Bruno que entre os Séculos XV e XVI descobriram que havia explicações mais plausíveis para os segredos do mundo do que aqueles arrancados dos livros ditos sagrados. Darwin e Wallace acabavam de jogar por terra , com a sua Seleção Natural, todo o Gênesis bíblico. Os seres vivos simplesmente não foram criados de uma só vez , em apenas sete dias, conforme o texto sagrado do Cristianismo. A história científica da humanidade é bem mais profana. O mecanismo da Seleção Natural trazia uma enorme cobertura de sofrimento para muitas espécies e o aniquilamento contínuo de outras tantas menos capazes de se adaptar às modificações contínuas do meio ambiente. Os seres vivos atuais não foram criados como tais, mas são o somatório de uma infinidade de transformações que terminaram por ajudar suas características a sobreviverem, em detrimento de outros seres menos capazes. Adão e Eva – por mais absurdo que possa parecer – eram símios que desceram das árvores para o Bem e para o Mal. Os estudos arqueológicos que se seguiram apenas passaram a confirmar o evolucionismo descoberto por Darwin e Wallace.

Estabeleceu-se, com eles, a dicotomia definitiva entre Ciência e Religião. A concepção de mundo nunca mais foi a mesma. Os homens passaram a investigar a natureza por meios próprios, já não temendo a fogueira e a excomunhão. Os religiosos continuam estrebuchando , não se conformam em admitir que os livros sagrados podem cuidar com esmero do espírito, mas que em termo de explicação científica do mundo se comparam a um gibi. Bem- Aventurados os que deram sua vida para provar que para crer é necessário ver e provar cientificamente a veracidade da sua visão.



Por: J. Flávio Vieira


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