12 julho 2008

As Mulheres Bonequeiras do Crato - Por Antonio Vicelmo

Estímulo para sociabilização

Bonecas de pano são terapia

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As mulheres bonequeiras do Crato, como são conhecidas, fabricam bonecas de pano embaixo de uma árvore. As peças são levadas para São Paulo. Lá, funcionam como instrumentos lúdicos de educação (Foto: Antônio Vicelmo)

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Milena Priscila da Silva, de 10 anos, já aprendeu a fazer bonecas com sua tia, Gertrudes Leite

A brincadeira de criança ganha novo sentido em trabalho de sociabilização no Crato, São Paulo e Equador

Crato. As bonecas de pano que alimentaram os sonhos e fantasias das crianças do passado estão de volta como instrumento lúdico de educação. Reunidas debaixo de um pé de manga, as chamadas “mulheres bonequeiras do Crato” tecem, com agulha e linha, emoções, sentimentos, saudosismo. No reencontro com o passado, estas mulheres descobrem o futuro e preenchem o vazio do cotidiano da vida.

As bonecas, fabricadas no Crato e levadas para São Paulo, abrem caminhos para que cada um descubra ou redescubra quais são seus reais valores, desvinculados de modismos ou padrões estéticos e sociais atuais. As bonecas são utilizadas como equipamento didático de uma geração dominada pelos brinquedos eletrônicos.

Já está havendo até intercâmbio entre as bonecas do Crato e as fabricadas em Quito, capital do Equador. A arte e a brincadeira são universais, mas as características são próprias. As bonecas equatorianas, por exemplo, vestem-se diferentes e mantêm os braços presos.

“Você pode descobrir mais sobre uma pessoa em uma hora de brincadeira do que em um ano de conversa”. Inspirada neste pensamento de Platão, a psicodramatista Elisete Leite Garcia, natural do Crato, desenvolve um conjunto de dinâmicas sensoriais e corporais, com fundamentação na espontaneidade do ato de brincar, associada às técnicas do Psicodrama e Sociodrama para vivenciar e redimensionar a temática do universo do indivíduo em suas inquietações sob os aspectos pessoais, sociais, educacionais, culturais e de saúde.

O trabalho tem como principal recurso da dinâmica um conjunto de bonecas artesanais feitas no Crato que são utilizadas como “objeto intermediário”, um material lúdico que, segundo Elisete, facilita a relação interpessoal ou do indivíduo consigo mesmo, para favorecer a comunicação com seu mundo externo e interno estimulado por meio dos sentidos e da imaginação.

Esta estratégia é aplicada em São Paulo desde 2002 com a participação de mais de 1.600 pessoas em grupos e comunidades culturais diversas, grupos de mulheres, secretárias, idosos, gestantes, pessoas com necessidades especiais, universitários, enfermeiros, psicólogos, atendentes e adolescentes, instituições educacionais e empresariais e hospitais.

Recentemente, as bonecas do Crato foram levadas para a cadeia pública, a fim de realizar um trabalho junto às mulheres presidiárias.

Elisete, que se encontra no Crato fazendo novos pedidos de bonecas para uma apresentação em Quito, diz que “as bonecas trazem a simplicidade da estética popular e simbolizam uma imagem e identidade relacionada à vivência de cada participante”. As bonecas, segundo Elisete, podem ser modificadas em todos os sentidos – desde a estrutura dos membros, das vestimentas e dos cabelos.

Transformação

Por meio dos exercícios propostos no grupo, as brincadeiras com as bonecas representam movimentos, emoções e relações inter-pessoais, tornando-se um instrumento de recodificação de pensamentos e recordações, completando assim um jogo de transformação, contextualização e de perspectivas.

Dentro dessa concepção, o “Tatadrama”, protagonizado pelas bonecas, foi levado para alguns atletas da corrida de São Silvestre. “Estes atletas foram preparados fisicamente para a competição, mas precisam de uma preparação psicológica”, contou ela. O “tatadrama”, segundo Elisete, destina-se a quem está procurando desenvolvimento pessoal e auto-conhecimento e que se dispõe a trabalhar aspectos da personalidade. De acordo com as propostas a quem se destina, sua estrutura e duração foram dimensionadas de 3 a 40 horas. Inclusive podendo abranger profissionais da área terapêutica da saúde, social, educacional e comportamental, utilizando-o como instrumento estratégico para a área de Recursos Humanos.

Idéia

A idéia nasceu há seis anos quando a psicodramatista Elisete Leite Garcia, residente em São Paulo, recordou os seus brinquedos de criança no Crato, sua terra natal. Lembrou que as bonecas fizeram parte do seu mundo infantil e descobriu que, por meio delas, poderia reconstruir o mundo adulto da auto-estima, valorização da sexualidade, papéis sociais, sonhos, conflitos, bloqueios e saúde, entre outros.

Comunicou-se com uma amiga de infância a procura de alguma artesã que fabricasse as bonecas. Com o tempo, foi criado um grupo de mulheres bonequeiras que se reuniam debaixo de uma mangueira, na Avenida Perimetral. A princípio, a mangueira servia da sede porque não tinha outra opção. Hoje, é uma necessidade social. “A mangueira é mais solidária, romântica e inspira a criatividade”, diz uma das artesãs, Gertrudes Leite.

Enquete
O que o trabalho de bonequeira representa?

Maeli de Souza Feitosa
Artesã
'Depois que eu comecei a fazer bonecas de pano, até a dor de cabeça passou. Foi muito bom começar este trabalho'.

Maria do Socorro Silva
Artesã
'Estou realizando um sonho de criança. Quando eu era pequena, meu pai não deixava eu brincar de boneca'.

Marilac Oliveira
Artesã
'Fabricar bonecas é voltar aos tempos de criança e resgatar um brinquedo que foi substituído pelos eletrônicos.'

Gertrudes Leite
Artesã
'A mangueira é mais solidária e romântica. Além disso, trabalhar embaixo desta árvore inspira a criatividade.'

CONVIVÊNCIA SOLIDÁRIA

Mulheres se descobrem como artesãs

Crato. A terapia começa debaixo da mangueira, no terreiro da casa de uma das bonequeiras, na Avenida Perimetral, neste município do Cariri. Ali, todos os dias, as artesãs se reúnem. O primeiro valor social despertado pelo projeto é o senso de participação desenvolvido nestas artesãs nordestinas, que aprendem a importância, o significado e o objetivo de seu trabalho numa convivência solidária. Quando o trabalho foi iniciado, no ano de 2002, havia apenas uma bonequeira. Hoje, há mais de 40 mulheres que resgataram sua potencialidade inata de artesãs.

Abraçada com a mangueira, que fez parte de sua infância, Elisete garante que está colhendo os primeiros frutos do seu trabalho. De acordo com ela, “um deles é a união dessas mulheres sertanejas que se transformaram em artesãs”, diz.

Hipertensa, com freqüentes dores de cabeça, a artesã, Maeli de Souza Feitosa, garante que, quando se junta às outras companheiras de trabalho, esquece-se da doença. “Até a dor de cabeça passa”, afirma.

Maria do Socorro Silva diz que está realizando um sonho de criança. Seu pai não a deixava brincar de boneca. Agora, ela está fazendo as bonecas que ela nunca teve. “Para mim, isso é uma brincadeira de criança”, conta ela.

Para outra artesã, Marilac Oliveira Fidelis, confeccionar bonecas é voltar à infância e resgatar um brinquedo que foi substituído pelos equipamentos eletrônicos.

As artesãs passaram a produzir novamente as bonecas de pano que foram passadas de mães para filhas. É o caso de Milena Priscila da Silva que, com apenas 10 anos, aprendeu com a tia, Gertrudes Leite, a confeccionar bonecas de pano.

Cidadania

As bonecas de pano do município do Crato tornam-se, assim, parte integrante da construção de um processo de conscientização para a cidadania, para uma economia solidária, além de representarem uma “cultura viva”, capaz de mobilizar forças e articular movimentos iniciais de um processo de inclusão social.

Além do aspecto socioemocional, o trabalho complementa a renda familiar dessas mulheres. Cada uma das bonecas custa em torno de R$ 2.

Antônio Vicelmo
Repórter


A Opinião do especialista

“Dupla Esperança”

A utilização dessas bonecas do Crato, confeccionadas pelas singelas mãos dessas mulheres, transformou-se em objeto intermediário de uma pesquisa científica de Psicodrama e Sociodrama originando o “Tatadrama”, proporcionando a possibilidade do nascimento da identidade “Bonequeiras no Pé de Manga”, bem como, a própria identidade da boneca de pano que passou a se chamar “Dupla Esperança”, denominada pelas bonequeiras a partir dos fenômenos que ocorreram dentro deste grupo de mulheres, conforme recebiam informações da utilização dessas bonecas nas aplicabilidades do “Tatadrama” realizados em São Paulo, Brasil e no exterior.

A continuidade do projeto representa ampliar horizontes para essas comunidades, cujo conjunto de atividades envolve conceitos de educação, sociabilização e aproximação com o grupo, criando assim, condições de desenvolvimento e difusão sociocultural, que hoje se encontra diariamente todas as tardes a sombra do frondoso pé de manga produzindo com criatividade e imaginação muitos personagens, às vezes, até estereotipados de seus sonhos, desejos e projeções.

ELISETE LEITE GARCIA *
*Psicodramatista didata, supervisora socioeducacional da Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama (ABPS) - Febrap/São Paulo/SP/Brasil

regional@diariodonordeste.com.br

Mais informações:
Bonequeiras do Crato
Av. Perimetral, 235c, bairro São Miguel
(88) 9911.6617
(88) 8809.6838

Reportagem: Antonio Vicelmo.
Fonte: Jornal Diário do Nordeste
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