30 maio 2008


O IMPOSTOR


O Impostômetro é um instrumento criado pela Associação Comercial de São Paulo para registrar a arrecadação de impostos em tempo real. Através desse registro dá para se ter uma idéia do absurdo da carga tributária que recai sobre o brasileiro. A previsão para o final do ano é de R$ 1 trilhão de reais. No último dia do ano passado o registro marcou a quantia de R$ 921 bilhões.
Isso é relevante em vários sentidos.


Não quero aqui abordar as questões teóricas que envolvem a criação de impostos, a destinação do arrecadado e os custos da administração pública. Muito menos os mecanismos tecnocráticos que envolvem a tributação. Nem tão pouco teorizar sobre as funções políticas em uma sociedade. Quero aqui apenas admirar a singularidade desse tesouro.


Muitos buscam a pedra filosofal. Outros buscam a fonte da juventude. Alguns mais alucinados buscam os jardins de Alá, após detonarem quilos de explosivos e levarem consigo dezenas de pessoas. Conheço muitos que buscam um golpe do baú. Existem outros que desejam o eldorado. E muitos se perdem em desejos ínfimos e despovoados de quaisquer vestígios de moral, quando apenas sonham com um festival de forró cheio de putas baratas. Os desejos são realmente insondáveis, mas não de todo incompreensíveis.


O caminho sagrado dos desejos publicáveis e impublicáveis da maioria dos chamados políticos de carreira passa inevitavelmente pelo viés da arrecadação. Essa é a grande fonte. É a vaca profana da conduta pública. É através dela que fortunas são erguidas em um piscar de olhos.Um trilhão de reais, secamente, é muita coisa para ser roubada. Claro que não vale a pena chegar e passar a mão grande. De acordo com a história da política brasileira é necessário um ritual todo especial. É preciso planejamento. São anos de convencimento coletivo. É pura arte. Além de qualquer estratégia é necessário gastar para poder roubar. Parece ridículo, mas é assim que funciona.


É fundamental que apareçam propósitos de investimentos; de custos administrativos; de juros de dívidas anteriores; emendas orçamentárias; votações emocionantes; intrigas épicas; traições infames; amantes canalhas; assessores cretinos; gentalha para ser assistida; é necessário que sejam sacrificados diariamente os heróis molambentos, para que a causa da abnegação pública apareça. É daí que surge o político profissional, derivado em poder e oposição. É dessa necessidade de legitimar o ilegítimo que nasce o imposto e o impostor das causas públicas.

Atrás de um imposto sempre tem um impostor maioral. É ele que assiste na televisão de trezentas polegadas, com o plasma feito pela secreção vaginal de trezentas virgens, a notícia de mais uma tragédia na fila de um hospital público, arrotando e peidando em sua poltrona de pele de nordestino, olhando de lado, confirmando a sua tese de que a saúde precisa de investimentos. Renasce então a CPMF e os ladrões sorriem satisfeitos por mais um dever cumprido. Dívidas e dividendos.


Marcos Leonel

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