18 maio 2008

A MULTIPLICAÇÃO DO VERBO


Imagine as horas como segundos, a matéria como partículas, o amor como detalhes do tempo que se lança na eternidade. Ao imaginares teu discurso como fonemas, teus sonhos como cenas ou os desejos igual a expressão de cada um dos sentidos, começamos a nos entender.

É que não se sabia que das coisas que pareciam expressar toda a realidade, muito mais havia. Como além da ponte havia uma estrada e a cidade. E na cidade uma livraria. Nela uma sucessão de compartimentos com tanta diferenciação como são as divisões religiosas de céu, inferno e purgatório. Mas as partes da livraria não eram deste tipo de divisão eram apenas tão marcantes quanto para que nos entendamos. Entre passagens existiam na livraria três compartimentos, mas falarei do último. O mais distante da porta de entrada.

Era um compartimento de máquinas mágicas. Máquinas que punham letras no papel. Rolos de papéis descomunais para o tamanho daquela criança. Prensas que abrem a boca como uma baleia, fecham e quando novamente volta a abrir, páginas de jornal ou livro saem rápidas pela mão treinada do tipógrafo. Estávamos na imprensa. A verdadeira imprensa. Ali onde o sentido do texto se fez por tipos.

Os tipos móveis. A mais fantástica paciência humana. Em pequenos quadrados (caixotim) sobre uma bancada quadriculada (caixa tipográfica), os tipos iguais em vogais e consoantes. Mais vogais que consoantes. Tipos de tamanhos diferentes e de famílias tipográficas variadas com e sem serifa. Pequenos dentes enegrecidos, um tanto retangular e na ponta uma letra esculpida em alto relevo. E tinham a própria anatomia: as letras esculpidas eram o olho, o plano abaixo era a rebarda ou talude; o corpo que era a face mais larga tinha um canal ou goteira e os pés e a face anterior ou barriga com uma ranhura no terço final.

Nenhum teólogo prático poderia ajustar a teoria do big bang melhor do que aqueles homens. Naquele terceiro compartimento, na parte mais distante da porta que se abre para a rua. Ali, entre vozes e o barulho da prensa, juntando partículas para formar corpos de significados, constelações teóricas, fugas poéticas, orações em nebulosas, cânticos como um pulsar.

A velocidade tal qual digito este texto, e olhem que é bastante rápido, como diziam os baianos, o Crato me deu régua e compasso e Dona Soledade Pedrosa para que digite sem olhar para o teclado. O papel daqueles trabalhadores entre a bancada, um olhar na cópia do texto e a mão rápida compondo as linhas do texto no componedor segurada pela outra mão. Em seguida as linhas, alvores das manhãs literárias, eram colocadas nas formas que agora representam o ser humano inteiro.

Algum tempo depois, uma máquina de linotipo. Uma máquina clássica, mas esdrúxula para um escritório. As máquinas de escritório não fervem (a não ser a de fazer café), mas o linotipo tinha chumbo derretido. Era uma verdadeira engrenagem do filme mítico da sociedade industrial, o Metrópolis de Fritz Lang. Nenhuma máquina poderia expressar tão bem aquelas garras que buscam quando o linotipista digita o teclado, os moldes que descem, se compõem e aos pedaços vão imergindo no chumbo fundido e saindo uma ou mais frases inteiras. Depois entram na forma de composição.

Uma página em construção. Com as letras invertidas, correção percebida e o verbo circulando.

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