27 maio 2008

A Farra do Pau da Bandeira => Farra do Boi no reino Vegetal...

Foto: Corte do Pau da bandaeira em Barbalha - Autor: Pachelly Jamacaru

O que tem diferenciado os seres vivos do homem é a incongruência deste último. Enquanto o animal irracional mata, na quantidade certa, outras espécies apenas pra sobreviver, o bicho homem vai além disto. Ele dizima as espécies animais e vegetais por instinto de crueldade, dinheiro, bel-prazer e bizarrismo.
Exemplos dessa prática covarde podem ser vistos no Brasil, em particular no estado de Santa Catarina, onde existe a famigerada “Farra do boi.”. Nesse caso o animal sofre diversos tipos de agressões como: espetamento, amputação da cauda, quebra dos chifres, esfaqueamento, pedradas, pimenta nos olhos, vasamento e arracamento dos olhos; banhos de gasolina, ateamento de fogo, afogamento, fratura dos membros inferiores tendo como culminância a morte sonorizada pelos risos mórbidos da população.
Mais exemplos dessas barbáries, praticadas inclusive por autoridades e pessoas de alto nível cultural, são vistas no Brasil através das brigas de galo, canários e cachorros. Em outra versão surgem as vaquejadas, corridas de jumentos, exploração de burros nos transportes de cargas. Tem mais: uso e abuso de animais em números de mágicas, espetáculos circenses; cobaias em nome da ciência, confinamentos em zoológicos, pesca e caças predatórias, e, por fim, o tráfico na troca por dinheiro.
No reino vegetal não existe diferença. O desmatamento e as queimadas, em todas suas formas, são exemplos claros desta afirmação.
Citando o caso dos “Paus da Bandeira”, elo do sagrado e profano das nossas festas regionais, o crime ambiental tem uma conotação pior. Ele é permito e mantido sob as “vistas grossas” das autoridades religiosas, policiais, governamentais, intelectuais inclusive das ONGs e entidades defensoras do meio-ambiente. Aquelas árvores que Deus e a natureza levaram séculos para soerguê-las, soberanas em seus ecos-sistemas, os falsos ecologistas as derrubam, em segundos, para alimentarem seus sádicos egos.
Argumenta-se muito que a madeira cortada para a festa não é a de “Lei!”. Lei???
Pelo que entendemos para Deus e para a natureza essa invenção mercantilista não existe!
Outra alegativa tendenciosa que tenta mascarar esse crime ambiental é aquela de que está sendo praticado o replantio. Esclarecemos que mesmo praticando esse ato, minuto a minuto, por séculos a fio, o corte de uma árvore qualquer continua sendo crime com características hediondas o que não cobre nosso débito para com a natureza.
Rebatem também que, nesse caso, a “Tradição” não pode ser quebrada. No nosso direito de resposta enfatizamos que tradição sem ética é anticultura perversa. Até porque existem formas alternativas de se alegorizar, manter e vislumbrar nossos costumes e memórias com bons exemplos para as futuras gerações.
Não obstante nossas festas populares sejam motivos de reencontros, disseminação da nossa crendice, cultura e a arte, o que se observa, em grande parte delas, é a prática indiscriminada da orgia através da bebedeira, do consumo de drogas, da devassidão, prostituição, libertinagem com um saldo elevado no item violência.
Para esses mentores (monstros) que só visam ganhar dinheiro fácil à custa dos Santos, animais e vegetais, vale lembrar-lhes que a página do tempo virou. Estamos em outra dimensão sócio-econômica. Vivemos uma outra realidade sócio-cultural. A lei sinaliza: para que não sejamos enquadrados nela, devemos praticar outra filosofia ambiental, pois, estamos além, muito além dos tempos e costumes imperiais.
Existem várias maneiras de louvarmos a vida através dos nossos eventos populares. Uma delas é a de sermos seres éticos e ecologicamente corretos.
Reciclemos, pois, nossos costumes e idéias!

Roberto Jamacaru de Aquino – Escritor.
Envado por: Mario Correia de Oliveira Junior – Advogado.

5 comentários:

  1. Roberto: acho que sua indignação com o corte das grandes árvores na Chapada esta bem colocada e muito clara. Do mesmo modo deve se olhar para o consumo de madeira pelas usinas calcinadoras do gesso em Araripina e para não ser injusto coloco em condicional se também não pela fábrica de cimento. Assim também se coloca a questão do fabrico de carvão no cerrado da chapada e a madeira que se vende em diversos consumos, inclusive doméstico. Acho que foi aí que sua clareza deve ter querido atingir. Agora vou para alguns pontos que chamaria para uma reflexão entre nós.

    a) meio ambiente é uma questão estrutural da vida, mas bebedeira, prostituição são práticas humanas, antigas e não guarda relação com a defesa ambiental. Por exemplo todos os homens guardam as doces lembranças dos cabarets e o mais grave, por exemplo, a indústria do gesso produz uma tremenda prostituição de crianças, dada a grande invasão de camioneiros nas pequenas cidades onde se explora esta pedra. A verdade é que entendo que você se refere á festa profana que acompanha particularmente a corta e o transporte do pau, com bebida abundante e todas as práticas deste tipo de festa. Mas, repito, isso tem um reparo moral, mas não na estrutura geral da vida e do meio ambiente.

    b) muito cuidado com o uso da palavra reciclagem. Isso pode vir a ser um vício de linguagem pois a origem mais evidente da palavra é reciclagem do lixo. E cultura não se recicla, pois cultura não é lixo, mesmo quando não gostemos dela.

    c) volto ao um texto que fiz não para justificar a manutenção indiscriminada do corte de madeira, mas para juntar a consciência generosa dos nossos hábitos à necessária preservação ambiental. Portanto, dificilmente se irá acumular força para políticas ambientais justas, sem o diálogo com as pessoas que só são pessoas por que têm tradição e anos de vida objetiva. E a tradição religiosa do pau da bandeira é antiga, tem repercussão fora da região e o Instituto Chico Mendes deve fazer, como aliás viu-se que fez, um diálogo com esta realidade. Realidade cultural não se desmonta como se faz no talude de uma encosta. Sei que você não disse isso, apenas completo o conceito para que sirva às nossas reflexões.

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  2. Pachelly transmita pro Roberto que concordo com ele em gênero, grau, número e protesto.
    E como ele citou que dois dos elementos pertencentes aos reinos da natureza sofrem com a violência, quero lembrar da "farra do cidadão", perpetrada pela desumana carga tributária existente hoje no país (e que o governo que aumentar mais ainda, recriando a famigerada CPMF, agora com outro nome, mas com a violência sanguinária de sempre).

    Salve o boi, a árvore que querem virar pau e o cidadão brasileiro!

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  3. Sei perfeitamente que a Festa do Pau é muito mais profana que religiosa, aliás não muito diferente da maior parte dos nossos rituais ditos sagrados. No Brasil até velório vira festa. Proponho , sem muitas delongas, que se utilize o mesmo pau todos os anos, assim teríamos a Festa desde a entrada do Pau no início da Festa ao recolhimento do Pau no final do evento. E tome cachaça, mel, namoro , escandelos e música ruim em nome do nosso sagrado santo casamenteiro.

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  4. Transmitirei sim Rafa! Uma obs: A foto que ilustra a matéria, é de uma outra festa, a de: JAMACARU, Distrito de Missão velha. Mas é igualmente representativa do que Roberto em sua lúcida e cirurgica abordagem, fez entender o que seja todo este processo depredatório e inconsequente, transfiguarda de tradições festivas/religiosas. Em comentários oportunos sobre artigo semelhante, fiz uma analogia do que seria se ainda hoje, se mantivesse à(sub)cultura em nome de tradições, como as dos Gladiadores no Coliseu de Roma!!!
    O imperador assegurava o seu prestígio perante uma platéia alheia aos infortúnios humanos, dos subjugados na arena!
    Daí porque digo, é preciso repensar certas tradições.

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  5. Correto, agora vamos falar também, das árvores sacrificadas, para dar lugar as grandes mansões construídas nos arredores da chapada, como diz o poeta Geraldo Urano, em seu primoroso livro o Belo e a Fera, "os empresários da fera subiram a serra, construíram hotéis e apartamentos..." trecho este, musicado e registrado no disco Na Lata - NACACUNDA. Vamos refletir.

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