20 maio 2008

Ainda o Corte do Pau da Bandeira...


O texto abaixo foi publicado no Jornal do Cariri, na edição publicada hoje, 20/05/2008, pag. 7. Com o desenrolar dos acontecimentos nestes últimos dois dias, a informação referente ao dia do corte do pau já está defasada, visto que o corte será realizado amanha, conforme determinação do dirigente do Instituto Chico Mendes. Infelizmente, faltou ao digno dirigente sensibilidade, apesar dos esforços da comunidade de Barbalha, da Quarta Superintendência do IPHAN e de outras instituições públicas e não governamentais. Quebra-se uma tradição, um costume, uma criação tipicamente popular.

Nos últimos anos, o corte da árvore que serve de mastro à bandeira de Santo Antônio em Barbalha tem se transformado numa verdadeira batalha entre a comunidade daquele município, representada pelos carregadores do pau da bandeira, e os órgãos federais de proteção ao meio ambiente: IBAMA e (neste 2008) o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.

A polêmica, como tem sido denominada essa disputa, envolve, de um lado, o Instituto Chico Mendes – representado pelo seu dirigente local, o senhor Jackson Antero – sob o argumento de que o corte da árvore causa danos ao meio ambiente, mais especificamente à Área de Proteção Ambiental do Araripe, onde está situado o Sítio São Joaquim, local de onde o pau será retirado neste ano. Do outro lado, alegam os carregadores do pau – liderados pelo Capitão do Pau, o senhor Rildo Teles – que o cortejo do pau da bandeira ocorre há pelo menos oitenta anos e, portanto, a tradição deve ser preservada.

Diante dessa polêmica faz-se necessário uma reflexão a partir da seguinte questão: como conciliar a preservação das manifestações populares com a preservação da natureza? Primeiro, é importante destacar que a Festa do Pau da Bandeira, momento de abertura da Festa de Santo Antônio, padroeiro de Barbalha, é uma das mais ricas expressões da cultura e religiosidade populares do Cariri. Ela tem sido, inclusive, objeto de várias pesquisas acadêmicas: monografias, dissertações de mestrado e mesmo teses de doutoramento.

Segundo: os rituais, símbolos, artefatos e ofícios presentes na Festa são tão significativos que a mesma vem sendo estudada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, através da sua 4ª. Superintendência, sediada em Fortaleza, em parceria, inicialmente com a URCA e, atualmente, com a Fundação Padre Ibiapina, vinculada à Diocese de Crato. O objetivo desse estudo é possibilitar o registro da Festa no Livro de Registro das Celebrações, conforme estabelece o decreto presidencial 3.551, de 4 de agosto de 2000. O processo está em sua fase final e, após sua conclusão, a Festa do Pau da Bandeira será reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do povo brasileiro.

Um terceiro e último ponto a ser destacado refere-se à necessidade de preservação da rica biodiversidade presente na Chapada do Araripe. Não resta dúvida de que a consciência ecológica é uma conquista importante do tempo presente. Nesse sentido, está correta a preocupação do digno representante do Instituto Chico Mendes o qual, cumprindo com suas obrigações, tem procurado tomar medidas que minimizem possíveis danos à natureza.

Agora, algumas questões precisam ser esclarecidas. Uma vez que a Festa ocorre anualmente com data previamente estabelecida, porque essa polêmica ainda não foi solucionada? Vale lembrar que, no ano passado, o pau chegou a ser aprendido pelo IBAMA. Um ano não foi tempo suficiente para que o diálogo fosse estabelecido e uma solução fosse encontrada? Sabe-se, ainda, que o Capitão do Pau da Bandeira tem encaminhado, sempre com antecedência, aos órgãos competentes oficio solicitando acompanhamento e mudas de plantas. Porque, então, somente à véspera do dia do corte as autoridades se pronunciam?

Parece que o objetivo é confundir a sociedade e não propriamente contribuir para a preservação da cultura popular e da natureza, pois se o pau pode ser cortado numa segunda-feira, por que não pode, então, ser cortado no domingo, como reza a tradição? Assim, diante do impasse gerado novamente este ano, a solução encontrada foi a mudança do dia do corte de 18 para 25 de maio, quebrando, portanto, o antigo costume de cortar o pau da bandeira quinze dias antes do inicio da Festa de Santo Antônio.

Por: Océlio Teixeira de Souza

2 comentários:

  1. Realmente essa é uma polêmica que parece tão fácil de resolvida e ao mesmo tempo parece que não. Essa polêmica não deixa de ser importante. Mas, em se tratando das agressões à Flona, outras questões são muito mais imperiosas do que essa. É preciso que a sociedade tenha a respostas dos órgãos competentes de algumas perguntas: quais os motivos da continuidade do abastecimento de lenha, retirada da floresta, para todas as padarias da região? Quais os motivos que justificam o não controle das queimadas constantes que acontecem na reserva? E as carvoarias ? O desmatamento? O uso indevido da água das fontes da reserva? E a ocupação imobiliária? Acho que restringir essa discussão a apenas um pau anual, está mais para carnaval do que para debate sério.

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  2. E por falar em IPHAN. Seria oportuno questionar ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN/ Ceará a não parceria com a URCA. É a Olga Paiva??Estranho!!!

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