17 abril 2008

Ramiro Maia - Por Emerson Monteiro

Emerson Monteiro

Uma vez, quando visitava a Livraria Ramiro, um destacado intelectual cearense indicou os livros nas estantes e, cheio de empáfia, disse:

- Conheço todos eles, por dentro e por fora.

“Seu” Ramiro, há mais de 50 anos à frente do empreendimento, de sorriso nos lábios, espirituoso acrescentou:

- Conheço todos eles, só por fora.

Eis o jeito humorado desse homem, Ramiro de Carvalho Maia, uma vida entregue ao comércio da melhor literatura, na cidade de Crato. Filho de Lino Deodato de Carvalho Maia e Maria Gonçalves Maia, nascido no ano de 1906, em Russas CE, veio residir no Cariri a 05 de junho de 1923, trazido pelo irmão Pergentino Maia, com quem trabalhou no comércio de gêneros de exportação (cereais), tecidos e, depois, livros.

Em 1925, assistiu a inauguração do Seminário São José e, em 1926, viu chegar o primeiro trem ao Crato. Em 1928, estabeleceu a Livraria Ramiro, loja que por muito tempo funcionou na Rua Grande (rua Dr. João Pessoa) e, ao final, numa parte da casa em que residiu com a família, na rua Senador Pompeu, quase defronte à Câmara Municipal do Crato.

Estudou na Associação dos Empregados do Comércio, da qual veio a ser diretor. Participou das mais diversas instituições cratenses, dentre elas: Crato Tênis Clube, Tiro de Guerra, União Artística Beneficente, um dos seus fundadores, e Lions Club. Ainda como diretor, da Conferência de São Francisco de Assis e da Irmandade do Santíssimo Sacramento.

Esportista e líder comunitário, pertenceu à diretoria de alguns clubes de futebol, compondo inclusive a diretoria da Federação Esportiva Cratense.

No decorrer de uma vida toda plena de trabalho e fiéis amizades, Ramiro Maia conheceu pessoas quais Pedro Felício Cavalcanti, Alberto Gonçalves, Plínio Norões, João Gonçalves, João Correia Vilar, Pedro Teixeira de Alcântara, Expedito Machado, Horácio Temóteo, Laurênio Milfont, Tomé Cabral, Pedro e Unias Gonçalves Norões, José Teixeira, Ernani Brígido da Silva, Thomaz Osterne de Alencar, José Gomes da Cunha, Vicente Alencar, Celso Saraiva, Florival Matos e Expedito Dantas, dentre tantos outros cidadãos de relevância e primeira linha da comunidade interiorana.

Exemplo de esposo e pai de família, “seu” Ramiro preservou com carinho a heróica resistência a querida livraria, auxiliado pelos filhos e netos, a vendet obras valiosas da literatura geral aos quantos lhe visitavam.

Lembro bem dos bons livros adquiridos na Livraria Ramiro, desde sua localização da João Pessoa até a Senador Pompeu. Através das mãos do afável livreiro de olhos azuis límpidos via a conhecer obras de Érico Veríssimo, por quem tinha especial predileção, a outras de Jorge Amado, Graciliano Ramos, Jiddu Krishnamurti, James Michener, de autores cearenses, caririenses. Ainda adolescente, quando buscava adquirir os livros que mais pareciam destinados a adultos, o livreiro puxava conversa, no sentido de conhecer melhor a quem vendia seus produtos, com isso demonstrando responsabilidade e preocupação com a formação dos jovens.

Recordo de lhe haver adquirido, dentre vários outros livros, “Os engenhos de rapadura do Cariri” e “O folclore no Cariri”, de J. de Figueiredo Filho; “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos; “Sayonara”, de James Michener; “Música ao longe”, “A vida de Joana Darc”, “México”, “Saga”, “Clarissa” e “O senhor embaixador”, de Érico Veríssimo; todos esses os quais considero exemplares inesquecíveis e marcantes em minha jornada pessoal.

Nestas poucas palavras, aqui reconheço o valor inestimável dessa personalidade, de cujas mãos, na década de 60, também muitos caririenses receberam a semente do saber por intermédio dos livros que Ramiro Maia, com esmerado zelo, distribuiu nesta Região.

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