18 março 2008

Nosso irmão o jumento

Emerson Monteiro

Por causa de uma matéria publicada no Diário do Nordeste em dias do mês de fevereiro, voltou à tona assunto que se repete de tempos em tempos: o jumento e seu abandono nos círculos ambientais desta época automobilista. É que Departamento Estadual de Rodagens estaria recolhendo, em campos de concentração no município de Santa Quitéria, os animais vadios e não ofereceria o alimento necessário à sua sobrevivência, razão pela qual, registrava a reportagem, crise fatal os submetia a sofrimentos e desesperança.

Logo veio ao pensamento a imagem do Padre Antônio Vieira, o escritor cearense que se elegeu advogado dessa espécie de alimária que auxiliara sobremaneira o desenvolvimento do sertão, carregando barro, tijolos, telhas, na construção de açudes, barreiros, estradas, residências, indiferentes ao açoite e aos achincalhes a que se viam submetidos, retribuição da grosseria característica dos rudes e selvagens.

A justificativa infeliz argumenta que ele, o jegue manso dos pecados ocidentais, nada possui no sangue que o engrandeça e credencie como filhote da biologia latino-americana, porquanto veio nas caravelas dos colonizadores para exploração territorial, caminhadas de conquista, extermínio de índios e extração das riquezas originais.

Veio correndo o progresso do petróleo. As velhas e poeirentas sopas das rodovias do passado cederam lugar aos reluzentes automóveis e forçudos caminhões. Nisso, o lombo dos jumentos caiu no desuso. O próprio matuto esqueceu as dificuldades iniciais e cresceu pernas em cima das camionetes de linha.

Tudo indicava que chegaria o sonhado aposento dos muares, que saiam vagando pelas mangas e estradas, jogados ao léu da sorte, desocupados, comendo o que achassem e alheios aos vôos da tecnologia dos asfaltos.

Quem alimentou os avanços dos outros virou só entulho. E de quebra pôs em risco a segurança dos usuários de transportes, em razão da velocidade das máquinas e do abandono a que foi relegado após o ostracismo em que caiu...

De história modesta e sem graça, ainda que detidos para averiguações, os jegues terminam sua longa jornada, que começou no Oriente suntuoso, de jeito melancólico.
De certeza, dos campos em que passeia na eternidade, o Padre Vieira se indigna outra vez perante mais este crime contra o jumento, o qual incluiu na família dos humanos. Antes, se levantou com tamanho furor na sua defesa que conseguiu suspender o morticínio da sanha perversa dos matadouros. Agora, há pouca chance de outros defensores tão dedicados produzirem resultados equivalentes.

Essa espécie dócil, servidora, inofensiva, torna-se, desse modo, símbolo da mesma ingratidão que sofreu o operário fiel da gleba, pau para toda obra e pretexto das soluções apetitosas na boca feudal dos fartos coronéis de barriga cheia.

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