02 março 2008

Hoje no DN - Trabalho de carpir resiste no Cariri

RITUAL DE DESPEDIDA

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Na última quarta-feira, dona Rosinha encomendou a alma da amiga Maria de Pedro Contente (Foto: Elizângela Santos)

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Dona Rosinha com as amigas de reza, Josefa de Sousa Marinho e Maria Aparecida da Silva

Juazeiro do Norte. “Adeus meus filhos que eu já vou embora, me encomende a Deus e a Nossa Senhora...”. O canto de despedida tem o nome de cada integrante da família. Faz parte do repertório esquecido das mulheres que choravam e faziam chorar o defunto alheio. Um sentimento de solidariedade das carpideiras, que não eram pagas para derramar lágrimas em velório, já que essa prática se deu apenas na Europa. No Brasil, passou a ser encarada como uma missão.

Rosalva da Conceição Lima, dona Rosinha, de 87 anos, desde os 12 acompanha velórios. O aviso da encomenda de alma vem por uma voz misteriosa. À noite, quando vai dormir, se for mulher, vem avisar. Da mesma forma, uma voz masculina, se for homem. O portador na porta pela manhã ou à tarde confirma. São anos dedicados à reza, tirando ofícios e terços nos velórios, cânticos e chorando.

Dona Rosinha é uma personagem rara na história de Juazeiro do Norte. Lembra de momentos marcantes. Um deles a morte do Padre Cícero, quando tinha 14 anos. Aos 15, se casou. Da união, teve cinco filhos, a pobreza e a fome, falta de médico e remédio foi vitimando um a um. Nascia e depois morria. “O que durou mais tinha seis anos”, diz.

E assim, morreu pai, mãe, marido, os irmãos, um deles deficiente físico, ficou aos cuidados de dona Rosinha. Também morreu. “Fiquei cega de tanta fome e sono”. Depois recuperou a vista. Um olhar brilhante, distante, e um riso no rosto. Como alguém que conviveu tanto tempo diante da morte e do sofrimento, convivendo ainda com a dor e a solidão, como ela mesmo diz: “sou número um no mundo”, pode ser tão feliz. A carpideira, que nem sabe o que significa esse nome, tem a resposta na ponta da língua de que o dia de todos chegará. É algo muito normal.

A senhora franzina na quarta-feira passada, bem cedo, estava atarefada pela manhã. Mais uma alma para encomendar. Era “Maria de Pedro Contente”, uma velha amiga da Rua do Horto, onde reside há mais de 35 anos. Quando chegou à casa, tinha gente rezando. Acompanhou até o final para em seguida iniciar o seu. A amiga Maria Aparecida Silva é do Apostolado da Oração e sempre que pode vai junto. São as Missionárias das Santas Missões Populares. Tem até certificado pendurado na parede de casa. Desde 1950, dona Rosinha assumiu a missão de ser zeladora da igreja, isso depois de nove comunhões nas primeiras sextas-feiras dos nove primeiros meses do ano. “Continuarei sendo zeladora até morrer. Enquanto andar, irei rezar por quem me chama”, acrescenta.

Vida sofrida

Dona Rosinha é de Alagoas. Uma vida ´severina´. Aos 6 anos, enfrentou a estrada com os pais e mais dois irmãos, a pé, para Juazeiro do Norte. Na época, a notícia dos milagres de Juazeiro ganhava o mundo. Quando morou mais próxima ao Centro da cidade, acompanhava quem morria por lá. “O pessoal ia me chamar de bicicleta ou de carro, como ainda fazem”. Mas, as funerárias, conforme a carpideira, fazem um papel de cuidar do defunto. “Já cheguei a ficar sozinha com o morto e a família todinha vai dormir. Aí chega um bêbado pela madrugada, gente que conheço, e só no amanhecer o povo vem chegando”, conta.

São histórias de dor e sofrimento. A morte, para dona Rosinha, é um alívio para os que sofrem. “Chorei muito, sentindo aquela dor das pessoas que perdem um ente querido. Não tem quem não chore. Hoje, as lágrimas secaram. Às vezes, três dias depois do enterro lembro e começo a derramar lágrimas”, conta.

Os cânticos de uma noite inteira faziam a família e até quem não conhecia o falecido cair no choro. O “Pranto de Nossa Senhora ” é um deles, considerado muito penoso. “Ninguém ficava sem chorar”, diz dona Rosinha. Amanhecia o dia com a “Ladainha Cantada”, “Ofício Cantado de Maria Valei-me”, e haja bendito até o dia raiar. Essa prática, conforme ela, praticamente não existe mais. “O povo começou a fazer bagunça nas sentinelas”, lamenta a carpideira.

´DIA DE HORROR´
Rezadeira participou de enterro do ´Padim´

Juazeiro do Norte. “Um dia de horror em Juazeiro”. É dessa forma que dona Rosinha faz referência ao dia 20 de julho de 1934. Um mar de gente seguia nas ruas de Juazeiro do Norte e as mulheres gritavam desesperadas sendo, a partir daquele momento, ovelhas sem pastor. Aos 14 anos, dona Rosinha, em meio à multidão, seguia até o Socorro para enterrar Padre Cícero. “Foi o dia mais triste”, lembra.

Tem gente, segundo ela, que não acredita, mas chegou a participar de missas onde estava presente o “Padim”, naquele momento suspenso de ordens. Não podia celebrar, mas estava rezando de joelhos, assistindo outro sacerdote fazer a celebração. Comungava. Era um cidadão comum. “Uma prova de humildade do Padre Cícero”, diz dona Rosinha.

Na Matriz de Nossa Senhora das Dores, uma zeladora presente. Amiga de monsenhor Murilo de muitos anos. Ele sempre a visitava em sua casa e no dia 23 de dezembro fazia a renovação. “Rosinha, tu vai viver muito tempo ainda saltitando nessa ladeira do Horto”, dizia o monsenhor.

E dona Rosinha, cheia de vida, logo cedo, às 4 horas, levanta, faz o café “para esquentar as carnes” e pega na palha, trançando o chapéu. Este é o seu passatempo, até que chegue o próximo portador.

Elizângela Santos
Repórter

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