30 março 2008

Hoje no DN - Segurança do Castanhão em xeque

TREMORES NO CASTANHÃO


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Volume atingiu o máximo em 2004, quando as comportas foram abertas. Neste ano, uma foi aberta para manutenção, mas há expectativa de nova abertura devido à chuva (Foto: Fábio Lima)

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Tremores, profecia, chuvas fortes e volume de água aumentado reforçam as preocupações em torno da barragem

“Sismo sentido por pessoas dentro de casas. Ruídos semelhantes à passagem de caminhão pesado. Duração pode ser estimada”. Os aspectos caracterizam o nível III de intensidade de um tremor, conforme a escala Mercalli. A situação poderia se aplicar a Sobral, onde, neste ano, foram registrados 630 abalos, sendo quatro com magnitude acima de três pontos na escala Richter.

Mas a classificação de intensidade refere-se a tremores contabilizados no Açude Padre Cícero, mais conhecido como Castanhão, no ano passado. As ocorrências provocaram outras características: água borbulhando e estrondos são as que mais assustam a população do Vale do Jaguaribe, que soma três milhões de habitantes. Em uma situação extrema — descartada pelo poder público, minimizada por especialistas, mas real para quem mora no entorno do açude —, os sismos poderiam danificar a barragem e até fazê-la romper.

Embora a possibilidade, oficialmente, seja distante, ganha cada vez mais força no imaginário popular. Quem conhece a história da rocha encontrada durante as escavações para construção da barragem vai além. O que está escrito na pedra — “obra do Fim dos Tempos” — deixaria claro que a barragem seria responsável por uma tragédia na região, mesmo que, hoje, o açude contribua com o abastecimento de pelo menos dez cidades cearenses, incluindo Fortaleza.

Quando a chuva começou a se intensificar, em março, o alívio pela garantia de água se misturou ao medo. As precipitações coincidem com a previsão da Fundação Cearense de Meteorologia (Funceme), que anunciou, no início do ano, chuvas normais ou até 30% acima da média histórica. Nessa semana, a chuva fez a cota do açude atingir mais de 60% da capacidade total, e a Companhia de Gerenciamento de Recursos Hídricos (Cogerh) considera a possibilidade de abrir as comportas do açude, o que não acontece, com esse fim, desde o ano de 2004.

Imprecisão

De acordo com o supervisor de Operação e Manutenção da Barragem do Castanhão, Getúlio Peixoto Maia, o ideal é que as barragens tenham dados geológicos antes, na construção e durante seu funcionamento. “Com acompanhamento tecnológico, são avaliadas todas as fases do projeto para garantir a segurança, no caso de ocorrerem abalos sísmicos na sua estrutura”, entende, acrescentando que essa rotina diz respeito ao Castanhão.

Mas uma das preocupações refere-se ao fato de o açude ficar perpendicular à zona de sismos, segundo o geólogo Afonso Rodrigues de Almeida, da Universidade Federal do Ceará (UFC). “Com um peso maior em cima da região propensa aos movimentos e a reativação das placas tectônicas, fatalmente os abalos acontecerão”.

Os rios são controlados pelo cisalhamento (deformação) de certas regiões. Como os grandes açudes são construídos considerando-se o curso natural do manancial, a água corre ao longo da linha de falhas. Por conta disso, os estudos seguem na direção de adequar as construções às características geológicas da área, a fim de que a interferência seja controlada. “Dependendo do volume de água, pode-se induzir um sismo de até cinco graus”, alerta.

De acordo com o geofísico David Lopes de Castro, também da UFC, quando a água do açude penetra no solo com um volume maior, exerce também uma pressão mais intensa sobre o solo. Isso, umas vezes mais outras menos, influi sobre a estabilidade das placas tectônicas. Por isso, após a construção de grandes barragens nessas zonas, os sismos aparecem.

É o que tem acontecido no Castanhão, localizado a 243 quilômetros de Fortaleza, no Município de Alto Santo, no Vale do Jaguaribe. O açude começou a represar o Rio Jaguaribe em 2003, quando foi inaugurado, em 23 de dezembro, após oito anos de obra, realizada com R$ 300 milhões de recursos federais.

Nas cidades próximas ao açude, em especial em Alto Santo, Nova Jaguaribara e São João do Jaguaribe, os moradores temem algo semelhante ao que aconteceu na cheia de 1960. O Orós, que estava sendo construído e não suportou o volume de água vindo do Rio Jaguaribe, arrombou. Plantações e até edificações sofreram danos. Embora o problema não esteja relacionado à ocorrência de Sismos Induzidos por Reservatório (SIR), a população que testemunhou o incidente associa a ocorrência ao Castanhão.

“Aquilo que aconteceu em 1960 ninguém esquece. Mas é bom nem pensar nisso. Dizem que o Castanhão agüenta os tremores, mas quem garante?”, especula o morador do distrito de Peixe Gordo (Tabuleiro do Norte), às margens do Rio Jaguaribe, Raimundo Rocimar Ribeiro. “Ninguém está desejando que quebre, mas se a terra tremer mais forte, se cair uma chuva como em Aracati (de 200 milímetros, de 12 para 13 de março), talvez prejudique a barragem”, teme.

Fonte: Jornal Diário do Nordeste.
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