28 março 2008

A Descendência de Caim



“ Que fizeste ! Eis que a voz do sangue
do teu irmão clama por mim desde a terra. De ora
em diante , serás maldito e expulso da terra, que abriu
sua boca para beber de tua mão o sangue do teu irmão.
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Caim retirou-se da presença do Senhor , e foi habitar
na região de Nod, ao oriente do Éden”
Gênesis 4.10-4.16


A violência tem se tornado uma irmã siamesa da sociedade moderna. Mal se abrem as folhas do jornal ou comprime-se o botão do remoto, imediatamente salta à nossa frente a rubra tinta com que é escrita, hoje, -- mais que nunca-- a história da nossa humanidade. O leitor há de lembrar não ter sido nos últimos anos o desencadeamento da luta fratricida. Desde as cavernas , até o Shopping Center , o homem tem uma terrível trajetória. À medida que a Ciência avançava, avassaladoramente, em busca do conhecimento e das descobertas que poderiam curar moléstias , minorar o sofrimento, proporcionar o conforto ia, por outro lado, criando as guerras, alimentando as diferenças, acendendo as fogueiras, forjando os grilhões. Ao descer das árvores nosso irmão primata trouxe consigo a inteligência criadora numa mão, mas na outra teimou em carregar ainda os rapaces instintos da floresta que havia acabado de abandonar. O homem é esta mescla de lobo e cordeiro , de anjo e demônio.
O que mudou, enfim, nos últimos anos ? Por que a violência tem se tornado cada vez mais presente e insuportável para nós ? Claro que com o boom dos meios de comunicação, começamos a ter olhos espalhados por todo planeta. O massacre dos monges budistas do Tibet nos entra de porta adentro, como se estivesse acontecendo na nossa calçada. E aí salta, de repente, a pergunta na nossa frente : até que ponto presenciar tanta chacina , tanto sangue escorrendo rua abaixo, até que ponto isto termina por nos embotar a vista e fazer com que toda violência se banhe num enganador molho de normalidade ? E ainda, qual a influência destas notícias em despertar o demônio dormente nas cotidianas testemunhas oculares dos crimes da humanidade ? Estas questões são polêmicas e aqui ficam para reflexão. Alguma coisa, no entanto mudou nos tempos modernos: a crescente capacidade destruidora humana com a fabricação de armas de destruição em massa. Bons tempos aqueles em que o homem dizia-se lobo do homem, hoje o homem é a alcatéia do seu semelhante.
Esta semana , aqui em Crato, todos se espantaram com a notícia do assassinato de um jovem e promissor advogado, aparentemente contratado pela própria esposa e o amante dela. O pretenso motivo, o mais antigo da história deste mundo : dinheiro que deveria vir de um seguro de vida. O grosso da população comentou em todos os cantos e lugares, aparentando uma consternação distante e mal disfarçando aquele ar sádico que permeia a maior parte das nossas relações sociais. No fundo, todos estavam, de alguma maneira, felizes com a notícia que haveria de alimentar as línguas nos próximos quinze dias, até ser substituída por uma outra, de preferência, igualmente cabeluda. Pouco se ativeram à tragédia terrível que tinham pela frente: um jovem advogado que teve a vida ceifada impiedosamente; uma adolescente plena de conflitos da própria idade e que tem a vida definitivamente arruinada e seu filho órfão de pai e mãe e que terá que crescer carregando consigo o peso de muitos cadáveres às costas. Antes dos nossos juízes de plantão, nas praças, clubes, mesas de bar, declararem as suas sentenças , lembremos que ninguém tem consigo os autos do sentimento, das emoções, das fragilidades pessoais para ter condições de fazer juízo de valor sobre o caso. As famílias envolvidas já carregam consigo tanta dor, tanto sofrimento que ninguém tem o direito de torturá-las mais ainda. Deixemos que a justiça siga seus passos , investigue e julgue imparcialmente . A vida, por outro lado, haverá de sorrateiramente fazer a sua parte, ninguém mexe no equilíbrio do universo impunemente.
E não se engane não, caro leitor, qualquer homem nesta terra é capaz da mais inimaginável atrocidade. Os maiores crimes da humanidade foram cometidos por pessoas perfeitamente normais aos olhos do povo, meros burocratas, a maior parte das vezes cumprindo ordens. Todos nós, queiramos ou não, fazemos parte da descendência de Caim. Se puros, perfeitos e imaculados estaríamos no Éden. Imperfeitos como somos, um dia tivemos de arrumar os trapos e nos mudamos para as frias terras de Nod.


J. Flávio Vieira

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