17 fevereiro 2008

GEORGE GARDNER : A LONGA ARTE DE UMA VIDA BREVE (Parte I)



S. A. T. O. R.
A. R. E. P. O.
T. E. N. E. T.
O. P. E. R. A.
R. O. T. A. S.


( Palíndromo latino encontrado por Gardner
em Pernambuco, utilizado magicamente para cura
de mordeduras de cobras, significando :
“O Criador mantém cuidadosamente o mundo em usa órbita”)



Inseridos no contexto político-histórico-cultural brasileiro, os habitantes de Pindorama têm a vista um pouco borrada pela beleza circundante. Atores e atrizes da tragicomédia tupiniquim sequer percebemos as mudanças de cenário, de figurino de adereços ao nosso derredor. O distante olhar estrangeiro sempre se mostrou importante para que nós compreendêssemos melhor os caminhos traçados pela jovem Nação Brasileira. O Século XIX(Foto 1)
Foto 1 - Mapa do Brasil Colônia
talvez tenha sido o período de ouro da vinda destes ilustres visitantes , dentre os quais eminentes naturalistas. O Visconde de Taunay (1800-1892) compilou algumas destas importantes presenças. Lembremos alguns: Langsdorff (1803 e 1813);Henry Koster (albor do Século XIX); Sellow (1814); Saint-Hilaire(1816 a 1822); Spix e Gaudichaud (1817); Lund(1825); Spruce(1849); Franz Müller(1852); Schwacke(1873) e muitos, muitos outros. Para o Ceará e especialmente para o Cariri, nenhum destes viajantes foi tão importante quanto George Gardner ( 1812-1849). Ele esteve no Cariri entre Setembro de 1838 até os primeiros meses de 1839 e simplesmente traçou o melhor retrato da nossa região no segundo quartel do Século XIX. Gardner encontrou um Crato de apenas 2000 habitantes, a maior parte de índios e mestiços. Presenciou ainda a rebeldia dos índios cariris e denunciou a vila por sua baixa moralidade e por perfazer um “esconderijo de assassinos”. A ocupação principal do povo era o carteado e os dois padres da cidade viviam maritalmente, com uma récua de filhos. Descreveu ainda o primeiro comerciante importante da cidade de que se tem notícia : “Francisco Dias Azede e Melo”. A vilazinha possuía, segundo noticiou, apenas um sobrado e as demais casas todas térreas. Irineu Pinheiro acredita que este sobrado provavelmente era na Rua do Pisa , onde nasceu o famoso Padre Cerbelon Verdeixas. Visitou Gardner alguns engenhos de açúcar, máxime o do Capitão João Gonçalves e fez uma detalhada descrição do feitio da rapadura . Ele foi ainda, talvez, o primeiro cientista a explorar os fósseis caririenses. Os fósseis classificados por George Gardner chegaram ás mãos do cientista Louis Agassiz(Foto2),

Louis Agassiz (1807-1873)
ainda em 1841 e este publicou um primeiro estudo sobre os eles: “On The Fossil Fishes Found by Mr. Gardner in the Province of Ceará in the North of Brazil”. Não bastasse isto, Gardner relatou uma Festa da Padroeira N. S. da Conceição e aquele que é o pioneiro relato de uma Banda Cabaçal. Reportou-se ainda àquele que seria o primeiro tratamento médico na região, quando ele curou a esposa do Capitão João Gonçalves de uma Oftalmia. No Cariri visitou ainda Jardim onde colheu vários fósseis numa localidade conhecida por Mundo Novo. Em Carta encaminhada ao presidente da Província de Pernambuco, Francisco Rego Barros- o Conde da Boa Vista( publicada numa segunda feira, em 16/06/1938, no Diário de Pernambuco) , ele narra o suicídio coletivo perpetrado pelos sebastianistas em Pedra Bonita ( hoje, São José do Belmonte, ocorrido entre 14-18 de Maio de 1838) (Foto 3)

Foto 3: Pedra Bonita palco da tragédia dos sebastianistas,
comandado pelo mameluco João Antônio dos Santos em 1838.

Visitou ainda Lavras da Mangabeira, as Guaribas, o Brejo Grande ( atual Santana do Cariri), o Olho D´àgua do Inferno,Poço do Cavalo (cercanias de Nova Olinda?), Cachoeira (proximidades de Potengi?), Rosário ( arredores de Araripe?) e finalmente Várzea da Vaca ( atual Campos Sales) . Não tendo pendores para a pintura, durante todo o percurso fez uma belíssima descrição literária da viagem, além de pontificar com esmero científico, aquilo que se tornara sua especialidade, a grandiosa fauna caririense. Foi no Cariri, ainda que Gardner sofreu na Fazenda Massapê, na Vila do Jardim, o acidente mais dramático da sua viagem. Em 03/01/1838, bateu com a cabeça num galho de árvore, tendo ficado desacordado por vários dias. Teria este trauma ligação com o possível Acidente Vascular Cerebral que terminou por ceifar-lhe a vida prematuramente, dez anos depois ?

J. Flávio Vieira

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