07 dezembro 2007

A Ilha e o Continente


Fernando Henrique Cardoso , um lobo travestido de cordeiro, governou o país por oito longos anos e poucas vezes se viu uma administração mais entreguista e elitista. Privatizou todo o patrimônio público nacional ( construído em quase quinhentos anos ) e até hoje não se sabe do dinheiro arrecadado no processo. Governou para uma cúpula paulista: para ele o Brasil só existe da Bahia para baixo. Esta é a visão exata do PSDB , um partido do Sudeste, que despreza o restante do país. Nem nomes como o do mineiro Aécio Neves ou o cearense Tasso Jereissati conseguem espaço: ali só há lugar para paulistas como Serra e Alckmin. Disto tudo já se sabia. Semana passada, no entanto, FHC, emitiu uma das suas mais preconceituosas e estapafúrdias opiniões, referindo-se ao Governo Lula : “ Queremos brasileiros melhor educados, e não liderados por gente que despreza a educação, a começar pela própria".
Esta citação merece, caros ouvintes, algumas reflexões, neste ensolarado sábado de dezembro. Claro que poderia ser apenas uma questão eminentemente política, nascida nas vésperas de um ano eleitoral. Não nos parece assim. FHC não consegue esconder o ciúme e o desespero. Lula ( apesar de toda mídia contrária) tem dado um verdadeiro banho nos seus antecessores , desde Deodoro. O país encontra-se com uma inimaginável saúde econômica, um IDH crescente e praticamente se quitou a dívida externa histórica. Alguém ainda ouviu falar de um tal de FMI? Mesmo na política externa, onde FHC pavoneava-se como doutor, Lula fez-se um estadista , empanando toda vaidade do seu antecessor. Não bastasse isso conseguiu , pela primeira vez, diminuir um pouco as desigualdades sociais, justamente com aqueles programas das bolsas , criticados sempre como eleitoreiros. Só que paulista não entende de miséria e tucano acredita ainda que o flagelo da seca e da fome pode esperar. Mas vamos um pouco adiante. FHC no discurso obtuso critica Lula por falar errado, cometer erros gramaticais. Pois com toda vida acadêmica , ele mesmo, na crítica, já cometeu um deslize imperdoável. Ao falar “Queremos brasileiros melhor educados...” já feriu mortalmente a gramática clássica. O Correto seria : “Queremos brasileiros mais bem educados...” Deixemos as gramatiquices de lado. Vamos a um ponto bem mais preocupante. FHC entende a educação como uma coisa eminentemente acadêmica e ligada à forma correta de se expressar. Para ele, não existe a família, não existe a modelagem do mundo, não existe caráter. Quanto tempo Patativa do Assaré freqüentou a escola? Chico Mendes ? Cego Aderaldo ? Cartola ? Gregório Bezerra ? Zé da Luz? Por outro lado, os maiores crimes brasileiros não são cometidos nos morros do Rio, mas nas duas torres do Planalto Central, cheias de engravatados de fala mansa e português escorreito.
Lula, a rigor, não se expressa linguisticamente de forma errônea. Ele fala a língua pura de 70% da população brasileira que inclusive pode reivindicar o status de língua oficial. Não discursa para os PhD´s da USP, mas sabe , como poucos, atingir o coração do povo brasileiro. Inteligente, formado nas faculdades das ruas e das fábricas, poderia ter estudado em universidades estrangeiras, mas preferiu alimentar o mito de ser o primeiro operário em mais de 500 anos a dirigir um país problemático como o Brasil e, para o desespero de tantos, com muito mais eficiência e capacidade do que os enfatiotados antecessores. Hoje possui uma popularidade imensa ( apesar de todo desgaste que lhe trouxe o PT) e tem todas as possibilidades de voltar para um terceiro mandato em 2014.
Lula incinerou, definitivamente, a mitologia elitista pregada por FHC. Ser poliglota , falar com correção, escrever livro de sociologia pode fazer qualquer homem mais informado, mas não o torna necessariamente mais culto. A academia , o mais das vezes, forma especialistas que não conseguem enxergar o mundo além da viseira imposta por sua profissão. Conseguem entender com todos os detalhes a reprodução da pulga, mas são incapazes de perceber a dor, o sofrimento, o sentimento do companheiro sentado do outro lado do microscópico. O mundo para eles acaba no quintal do laboratório universitário.
FHC não poderia ter sido mais destemperado. Ele que já pediu um dia se rasgassem todos os seus livros de sociologia, esta solicitando , agora, que apaguem seu nome , definitivamente, da história política do país. Sequer percebe que sua pequena ilha de elitismo acadêmico é cercada por um gigantesco continente de pessoas simples, trabalhadoras, muitas vezes pobres e semi-analfabetas, mas nem por isso menos dignas, cultas e felizes.

J. Flávio Vieira

Uma musa chamada WANDA !

Depois de algumas postagens no Cariricult que revelaram Wanda Medeiros como símbolo da beleza cratense, fiz um contato com ela, via e-mail, que me propiciou esta estrevista agora publicada:

Salatiel: Como era, saindo da adolescência, encarar um concurso de Miss Ceará?

Um concurso de Miss era um acontecimento espetacular. Eu estava com 17 anos, morando no interior do ceará, e esta disputa, como aconteceu para mim, foi um conto de fadas. A cidade inteira se envolveu. Eu me senti fazendo parte de uma “acontecimento” e sendo a " REPRESENTANTE" da minha cidade. Foi muito bom!

Salatiel: A família apoiava? Só era alegria ou você teve alguma decepção nos concursos?

A minha família me apoiava e me apoiou sempre. Meu pai um dia me chamou e disse que se era meu desejo ele estaria do meu lado.

Decepção... Propriamente, eu não tive! Talvez alguns acontecimentos que me fizeram pensar melhor e...

Salatiel: A disputa era acirrada?

Era acirrada sim. Nos anos 60 os concursos eram muito prestigiados e era muito importante ganhar. Logicamente, todas queriam. Era muito difícil para todas nós.

Apesar disso, foi muito prazeroso, nós nos divertíamos muito e no final... Ganhar era o que mais importava!.

Salatiel: Como convivia com assédio?

Era diferente de hoje. Era mais elegante. Até certo ponto era bom, somente quando começava o exagero é que a coisa pegava e ai era complicado.

Salatiel: A beleza ajuda sempre? Quando atrapalha?

Geralmente ajuda. À primeira vista uma figura bonita é aceita, dai depende de cada um se mostrar e continuar sendo o que é. Atrapalha quando o outro não consegue enxergar a tua pessoa n'aquela figura bonita.

Salatiel:O que voce fez depois que saiu do Crato?

Eu sai do Crato em 1964 quando me casei e fui morar em Fortaleza. Ai tive meus filhos e vivi como uma pessoa comum(que sou). A família é a coisa mais importante para mim e eu me dedico de tempo integral a cuidar dela. Depois vim morar em Sao Paulo onde bem mais tarde cursei a faculdade e fiz especialização. É onde moro atualmente.

Salatiel: Quantos casamentos? Quantos filhos?

Eu me casei somente uma vez. Tenho três filhos e quatro netos.

Salatiel: Como voce vai encarar a terceira idade(melhor idade)?

Na verdade, já estou encarando sem pensar muito.Tenho 64 anos e cada dia ainda vivencio uma nova experiência.Alguma coisa a gente perde e ganha outras –como esse negócio de ser avó. Procuro não perder o bom humor.

Salatiel: O que pensa da desigualdade social no pais, da fome no mundo,da agressão ao planeta(efeito estufa, etc)?

A desigualdade social no nosso país e a fome no mundo são feridas muito profundas na humanidade. Sabemos ( e é pra sentir vergonha) que é a falta de vontade política que não resolve ou pelo menos ameniza estes dois grandes problemas .

Convivo com pessoas que trabalham por todo o mundo, ajudando e desenvolvendo programas para instrumentalizar as comunidades, a fim de quesejam auto-suficientes e promovam o seu próprio desenvolvimento.

Eu penso que é por ai : educação, esclarecimentos e orientação! Esperar pela vontade dos políticos... NAO DÁ!

A agressão ao planeta, eu penso que vai pelo mesmo caminho. Temos que pensar juntos o que fazer para restaurar e conservar o que ainda nos resta.

Do efeito estufa, eu sou informada como a maioria das pessoas. Mudancas climáticas através dos tempos e ainda mais agravadas pelo descuido com o meio ambiente, a produção dos gases, aumento da temperatura e conseqüente nível do mar.Tudo isso é assustador .Novamente, penso que a conscientização -pela educação, pelo exemplo, pelo cuidado-, possa deter um pouco esse monstro aterrador que vem destruindo nosso planeta.

Salatiel: O que são Deus, a morte, a vida após a morte?

Para mim Deus é o Criador, nos fez responsáveis por nossas ações com o livre arbítrio. Sou católica e, como tal, acredito na vida após a morte.

A morte, com certeza, amedronta, a minha ou a de alguém querido.

Salatiel: Quais são as suas lembranças do Crato?

O Crato é a minha casa, o meu referencial de vida. O berço e onde aprendi e pude exercitar os valores morais formando o meu caráter, a minha personalidade e minha forma de ser no mundo.

As minhas lembranças vão desde a infância: o parque (como era no principio),o Grupo escolar, o Colégio Santa Tereza, as Bandeirantes, as festas do Instituto Brasil Estados Unidos -que movimentavam a moçada; as tertúlias e as festas de Sao João; mais festas no Crato Tenis Club; as voltinhas na Praça Siqueira Campos e muitos etcéteras.

Como podem ver, era uma vida movimentada. Daí, tenho boas lembranças; A triste foi o desaparecimento do meu pai.

Salatiel: Mais alguma coisa?

Aproveito o espaço para continuar com as lembranças que se foram ...

E um apelo para aqueles que nas próximas eleições forem eleitos: cuidem da nossa cidade! Não apaguem ou deixem apagar os melhores referenciais para que aqueles que voltarem ainda reconhecerem o Crato como sua casa.

Quero louvar aos que ficaram e continuam levando avante toda a parte cultural e intelectual que fez do Crato a Princesa do Cariri.

Salatiel: O Crato é que lhe agradece, Wanda!

Audiência pública sobre Ibama no Cariri

Abdoral Jamacaru e João do Crato cantam na abertura da audiência

Foi realizada hoje, em Crato, audiência pública da Comissão de Meio Ambiente da Assembléia Legislativa do Ceará sobre a possibilidade de desativação do Escritório Regional do Ibama no Cariri.
Presentes os deputados Cirilo Pimenta, que preside a Comissão; Vasquez Landim, autor do requerimento para realização da audiência; Ely Aguiar, Dedé Teixeira, Lula Morais e Agostinho Moreira. Também presentes, o presidente do Conselho de Políticas e Gestão do Meio Ambiente, André Barreto; o bispo diocesano de Crato, dom Fernando Panico e outras autoridades.
A ameaça de desativação do escritório do Ibama no Cariri é conseqüência de reforma administrativa implementada pelo Ministério do Meio Ambiente, que criou o Instituto Chico Mendes, com a função de assumir parte da competência do outro órgão, criado há 17 anos para efetivar as políticas de gerenciamento e fiscalização das demandas ambientais sob a jurisdição federal.
A tônica de todos os discursos foi a preservação do escritório local do Ibama, visto que nesta região estar localizada a Chapada do Araripe, com duas unidades de conservação, instituídas por leis federais: a Floresta Nacional do Araripe (FLONA), a primeira do Brasil, criada em 1946, no governo Eurico Dutra; e a Área de Proteção da Chapada do Araripe (APA-Araripe), instituída em 1996, no governo FHC.
Na perspectiva da importância ambiental do Cariri, foi enfatizado, também, o GeoPark Araripe, chancelado pela UNESCO a partir de projeto elaborado e aprovado na gestão do ex-reitor da URCA André Luiz Herzog Cardoso. Hoje, o GeoPark é considerado um dos grandes projetos internacionais encampados pelo governo do Ceará.
A fala destoante foi do ambientalista Luiz Carlos Salatiel (foto), que disse que antes da defesa da burocracia, é preciso defender, de fato, o meio ambiente e a vida presente na região. Neste sentido, entregou às autoridades um documento cuja íntegra publicamos a seguir.

Crato (CE), 6 de dezembro de 2007.


Excelentíssimos Senhores,


No ensejo deste auspicioso encontro, qual seja: propiciar uma reflexão proativa em busca de soluções para os graves problemas ambientais que assolam o nosso município e a região do Cariri,- vimos, respeitosamente, expor o nosso pensamento para ao final requerer.


Observamos, com pesar, que muitas preocupações acerca da qualidade de vida e das condições do meio ambiente regional vêm passando ao largo das políticas públicas que são implementadas nesta região, tanto no nível federal como nas esferas estadual e municipais.


É patente a falta de vigilância para com os recursos naturais da região, com ênfase na rica biodiversidade da Chapada do Araripe, que há muito vem sendo dilapidada por inescrupulosas e criminosas práticas de biopirataria, desmatamento e queimada, sem que se tenha, até o presente, sido encontrada uma solução definitiva.


Na mesma situação, encontram-se os nossos recursos hídricos, principalmente os provenientes das fontes araripenses,- o que vem acarretando a morte dos rios Batateiras e Granjeiro, dentre outros. O rio Batateiras, por exemplo, vem sendo vítima da captação de suas águas em total desrespeito à legislação vigente. O desvio das águas do rio Batateiras representa a morte de todo um ecossistema dependente, formado por animais nativos e plantas que formam a vegetação ciliar. Por sua vez, o rio Granjeiro foi transformado em um imundo e grande esgoto a céu aberto, cortando bairros e o centro do Crato, o que representa um dos mais contundentes atestados do subdesenvolvimento desta cidade.


Lamentável, também, é a situação pela qual passa a população mais pobre, desprovida, na sua grande maioria, de um requisito indispensável para a qualidade de vida, que é o saneamento básico. Neste ponto, é imprescindível fazer ecoar a opinião veiculada em uma revista de circulação nacional[1], que afirma que as vítimas preferenciais da falta de esgoto são mulheres grávidas e crianças de 1 a 6 anos. Mulheres não comandam o voto em casa. Crianças não votam. Ademais, saneamento não dá visibilidade política em época de eleição. O que é uma pena.


Por fim, gostaríamos de relacionar outro problema de preocupante impacto ambiental: a destinação e tratamento dos resíduos sólidos. Em pleno século XXI, é inadmissível atestar que os principais municípios do Cariri não dispõem, nem de forma consorciada, de um aterro sanitário. O lixo não tratado é outro atestado do estágio neolítico em que, por vezes, nos encontramos. Verdadeira situação de ameaça que coloca em risco todo um avanço conquistado, por séculos e séculos, pelas ondas prodigiosas da civilização.


Sabemos que todos esses problemas não são emergentes, no sentido de que não apresentam nenhuma novidade. Isso aumenta mais ainda a responsabilidade de todos, incluindo o segmento político e a sociedade civil. São problemas antigos, apesar de que, sob o calor da refrega, outras questões são colocadas como mais prementes. Claro que não podem ser desmerecidas, pois carecem, igualmente, de apoio. Porém, devemos ter claro o efetivo papel dos órgãos públicos no planejamento, gerenciamento e resolução das demandas ambientais desta região. E, por fim, como esses órgãos devem atuar cooperadamente no enfrentamento das mazelas que assolam o meio ambiente e, conseqüentemente, a vida da população local.Desta forma, excelentíssimos senhores, vimos solicitar especial atenção para os problemas elencados neste documento, subscrito por uma representação de cidadãos desta região, que reivindicam uma tomada de posição efetiva, a partir do encaminhamento desses problemas, com urgência e determinação, para as eclusas institucionais competentes, sejam das esferas federal, estadual ou municipal.


Atenciosamente,


Luiz Carlos Salatiel
Carlos Rafael Dias
Océlio Texeira de Souza
Ed Alencar
Tarso Araújo
Wilson Bernardo
Luciano Carneiro
Evaldo P. da Silva
Eldinho Pereira
Fábio Bezerra
José do Vale Pinheiro Feitosa
Marcos Vinícius Leonel Tavares
José Sales Costa Filho

[1] André Petry na revista Veja

TEM UM GRANDE HOTEL EM TEU MUNDO?

Um ambiente muito diferente de tudo que é conhecimento do mundo. Escadas que se sucedem com outras escadas de um andar acima do outro. E apenas sabia que as escadas iam do chão ao sótão. Em cada andar tantas portas, entradas uma após as outras e dentro delas vidas que se multiplicavam em adereços, livros, discos, uma escova para dentes, um pente para cabelos. E ninguém era da família, parente ou aderente.


Um Grande Hotel, numa esquina para a Praça Siqueira Campos, na rua que vai para o Cine Moderno é um portal mágico entre séculos. No mundo do ambiente rural, sem luz elétrica, com água de cacimba, um paiol de milho, estrado levantado de queijos, o silêncio dos automotores, mas o grito do pavão. Um Grande Hotel é, de fato, uma abertura da Aida de Verdi para o interior fabuloso do mundo Egípcio, de um Etíope que cobiçava tal civilização.


Lá morava o professor de Português que corrigia estas falas, os sujeitos e seus predicados. Morou um sujeito dos Inhamuns, saíra do sertão, fora para o Rio de Janeiro, viveu mais de 30 anos naquela cidade e voltou, como os elefantes para morrer em volta de seu lago africano. Tal sujeito dormia e dormia, acordava pelas onze horas e logo comia seu almoço numa bacia carregada de misturas alimentares. O resto do tempo, entre o Grande Hotel e longas conversas com gentes que andam pelas ruas do Crato em busca de conversa como sopro de vida.


O circo chegou na cidade. Isso no tempo que um circo era tão grande que um shopping, destes que sucedem os mitos arquitetônicos da identidade urbana, não chegavam aos seus pés. Eram muito mais variados, animais selvagens, daqueles que só as fitas de cinema fotografaram, palhaços, dramas, trapézios, equilibristas, dançarinas e bandas. Mas o maior de tudo, a multidão que se acotovelava para adquirir uma entrada do espetáculo.


Pois foi na porta do Grande Hotel que a mulher do circo, uma bailarina de seus 16 anos, linda de doer, um sorriso de derreter, um corpo de acender, cabelos em coque que prometiam a enxurrada de todas as paixões. E do Grande Hotel saiu um filete de amor que, feito os versos de Marti, postos na Guatanamera, encantaram mais que o mar, tão imenso a prometer eternidade.


Mas do meu mundo do prédio do Grande Hotel, Edifício Figueira Teles escorre pela Rua Dr. João Pessoa uma permanência que não necessita de substrato para viver. Saindo do número 114, era lá que a cidade me dava um endereço, passava, com algum dinheiro no bolso, na porta da Livraria Católica que conhecia como a palma da mão. Em seguida, estava em frente às portas da loja elegante de Ernani Silva, que além de tudo honrava o centro da cidade, morando num sobrado sobre o próprio negócio. A casa de Dr. Elísio, corpulento homem entre a medicina e seu belíssimo sítio com engenho d´água. Mais alguns passos e encontrava o Deputado Filemon Teles, cabelos brancos de neve, bengala, uma vivacidade de velho político conservador, adonado da vida política da cidade.


Qual o quê? Era na esquina do Grande Hotel, bem no bico com vista plena para exuberância da praça que o menino caia nos braços da urbe luminosa. Um bar, mesa com pés de ferro fundido, tampo de uma pedra branca, cadeiras confortáveis, balcão com mostruário de vidros, o barulho de um refrigerador de picolé e sorvete, azulejos, quadros pendurados nas paredes e móveis de madeira que subiam cheios de vendas acima do balcão.


Nesse bar, sob a vida do Grande Hotel, uma bomboneira de vidro, arredondada e compartimentada, giratória, cheia de sonhos de crianças. A cada pequeno giro os papeis chamativos dos bombons faiscavam nos olhos e mourejavam a boca. Eram tantas as possibilidades que só a cidade pode. O exercício era girar para ver antes de apontar o dedo para o desejo sobre todos outros desejos já conhecidos.


Uma perfeita cor transparente do vermelho com mistura de azul, um solferino de sedução. Impresso um casal, ele vestido com um fraque preto e ela com vestido longo amarelo, dançando aberto como asas em evolução de vôo. Em seguida, um papel alumínio, hoje tão comum, mas, então, um brilho de prata no olhar. Finalmente a terra dos sonhos, com mais da metade em formato de globo e no outro lado um pólo achatado. Tinha este cosmo uma crosta de chocolate puro. Abaixo do chocolate um biscoito crocante, aerado como os waffles. No centro deste mundo de sabor, o núcleo era um mistério doce, com lembranças de castanhas.


E disseram que o Grande Hotel irá abaixo para dar vida a mais uma rua Miguel Lima Verde mutilada ou quem sabe arremedada. E dos escombros, surgirá, como um fênix banal, sem qualquer vida nova, sem simpatia, qualquer identidade, o palco do faz de conta de um Shopping, em inglês mesmo, pois é deste tipo de suicídio que a inapetência urbana vive.


No final quem lembrará do Crato?




Mas um bombom SONHO DE VALSA ninguém me rouba.
O

Vereadores cassam nome da Imperatriz Leopoldina em rua de Crato


Vem de há muito um triste costume da Câmara de Vereadores de Crato: mudar os nomes das ruas da cidade. As do centro tiveram antigas e pitorescas denominações tocadas por nomes de personagens, em boa parte desconhecidas pela população.

Vejamos um caso recente. Em 1998, intelectuais, professores e monarquistas caririenses procuraram os vereadores Ailton Esmeraldo e Edna Almino e pediram a esses edis para apresentarem projeto, à Câmara Municipal, dando o nome de Imperatriz Leopoldina a uma nova rua de Crato. Foram de pronto atendidos.

Colocada a matéria em votação, uma surpresa: alguns vereadores alegaram desconhecer quem fora e qual a participação que tivera a Imperatriz Leopoldina na história do Brasil. O então presidente da Câmara Municipal, Cláudio Gonçalves Esmeraldo, usou de bom senso. Convidou-me a comparecer à sede do legislativo cratense para proferir palestra sobre a primeira imperatriz brasileira. Assim o fiz. Ao final da minha fala o projeto foi colocado em votação sendo aprovado por 20 votos a favor, com uma abstenção: a do vereador Amadeu de Freitas, do PT.

Àquela época, o Partido dos Trabalhadores apresentava-se com um ar de superioridade. Seus filiados julgavam-se os donos da verdade, críticos de tudo, vestais da ética... Bastou o PT chegar ao Governo Federal, em 2003, para conhecermos sua verdadeira face. A ficha caiu a partir do “mensalão” culminando com o acordo para salvar o mandato de Renan Calheiros em troca de votos para manter a CPMF. Mas esta é outra história. Voltemos à troca de nome das ruas de Crato.

O ex-prefeito Raimundo Bezerra sancionou a Lei nº. 1.774 de 10 de junho de 1998, denominando de “Rua Imperatriz Leopoldina” a artéria que tem inicio ao lado direito da Avenida Padre Cícero – sentido Crato-Juazeiro – que dá acesso ao Parque Getúlio Vargas-Morro da Coruja em toda a sua extensão.

Recentemente, como me informou o ex-vereador Ailton Esmeraldo, os atuais vereadores (provavelmente desconhecendo que aquela rua já tinha denominação oficial) aprovaram sua denominação como Orestes Costa.

Será que se lembraram de revogar a Lei nº. 1.774? Caso contrário, aquela rua tem agora duas denominações. Existem vereadores na atual legislatura, que já exerciam mandato em 1998 e se lembram do episódio que acabei de relatar.

Em tempo: acho justo que o Sr. Orestes Costa seja homenageado como patrono de uma rua de Crato. Mas que, para isso acontecesse não precisaria rasgar uma lei já existente. A Imperatriz Leopoldina, que tantos serviços prestou ao Brasil, não merecia uma desfeita dessas...

Dihelson Mendonça entrevista o Pianista João Carlos Martins !


"Adorei o Crato! Adorei o Ceará e a região do Cariri e fui pedir um milagre para o Padre Cícero". Com essas palavras concluiu-se a visita de um dos maiores gênios da nossa era à região do Cariri, o pianista Brasileiro João Carlos Martins, o único do mundo a gravar a obra inteira de Johann Sebastian BACH - O deus da música!"

Estêve ontem em Crato, dia 06 de Dezembro, para uma palestra no teatro Salviano Arraes, um dos maiores gênios da música clássica de todo o mundo. O pianista Brasileiro João Carlos Martins, o único pianista do mundo que gravou a obra completa de Johann Sebastian Bach, o mais importante e influente compositor da Música Clássica Universal.

João Carlos Martins veio proferir palestra no Teatro Salviano Saraiva Arraes sobre o tema Resiliência, Superação e Determinação. O pianista paulista, que não consegue mais tocar devido a inúmeros problemas de saúde com as mãos ao longo da vida, se tornou um símbolo de perseverança, de superação e de determinação no Brasil e no mundo!

João Carlos Martins começou seus estudos aos oito anos de idade, e após nove meses vencia o concurso da Sociedade Bach de São Paulo. Seus primeiros concertos trouxeram a atenção de toda a crítica musical brasileira. Aos dezoito anos foi escolhido no Festival Casals , dentre inúmeros candidatos das três Américas para dar o Recital Prêmio em Washington. Já aos vinte anos estreou no Carnegie Hall, em Nova York, patrocinado pela primeira dama dos Estados Unidos, Eleanora Roosevelt. Tocou com as maiores orquestras norte-americanas e gravou a obra completa de Bach ( pronúncia: BAR ) para piano.

Um amor tão grande pela música, uma dedicação tão intensa e meritória de admiração e respeito, João Carlos Martins viu-se por diversas vezes privado de seu contato com o piano, quando teve um nervo rompido e perdeu o movimento da mão direita em um acidente em um jogo de futebol em Nova Iorque. Com vários tratamentos, recuperou parte dos movimentos da mão, mas com o correr dos anos desenvolveu a doença chamada LER, que ocorre devido a movimentos repetitivos e causa o estressamento de nervos. Novamente teve que parar de tocar, e dessa vez acreditou seria para sempre. Vendeu todos seus pianos e tornou-se treinador de boxe, querendo estar o mais longe possível do que sua carreira significava como músico. Mas sua incontrolável paixão o fez retornar, e realizou grandes concertos, comprou novos instrumentos e tentou utilizar o movimento de suas mãos criando um estilo único de tocar e aproveitar ao máximo a beleza das peças clássicas. Mas ao realizar um concerto em Sófia na Bulgária, sofreu um ataque em um assalto, e um golpe na cabeça lhe fez perder parte do movimento de mãos novamente, e quando quer que ele se esforçasse sofria dores intensas em suas mãos, e novamente pensou que nunca mais voltaria a tocar.

João perdeu anos de sua carreira em tratamentos, treinamentos e encontrou novamente uma nova maneira de tocar, utilizando os dedos que podia em cada mão, mas dia a dia podia tocar menos e menos. Essa paixão de João Carlos pela música inspirou um documentário franco-alemão chamado Martins Passion, vencedor de quatro Festivais internacionais.

Hoje, João Carlos Martins praticamente parou de tocar, e apenas rege orquestras sinfônicas com grande dificuldade, mas ao mesmo tempo, demonstrou com o exemplo da sua vida, a imensa força de vontade que deve sempre nortear a vida do Ser Humano aqui na terra.

João Carlos Martins veio ao Crato por ocasião do quarto seminário de Desenvolvimento estratégico promovido pelo SEBRAE, sendo recebido por Boanerges.

O Blog do Crato estêve lá no Crato Tênis Clube, sendo gentilmente convidado por Luiz Wellington ( presidente do Rotary ), e Carlos Rafael, e juntos, de forma bastante rápida, porém concisa, realizamos uma completa entrevista com esse Ícone que representa a força de vontade, a determinação e a luta por um ideal, quando todo o mundo e as forças do destino parecem seguir um caminho totalmente contrário. A luta de João Carlos Martins prova que mesmo se não houvesse gravado uma só nota ao piano, seu exemplo de vida ainda seria um farol que guia os desespernçados, os aflitos e aqueles acometidos por tragédias pessoais.

Confira o Vídeo:

Parte 1:



Parte 2:




Reportagem:

Dihelson Mendonça - Repórter
Carlos Rafael - Cinegrafista
Luiz Wellington - Produtor Executivo
Lania Brito - Auxiliar de produção.

Foto acima: Luiz Wellington

Foto Acima: Carlos Rafael Dias.

P.S - O Blog do Crato deve passar sempre a empregar uma linguagem mais jornalística e impessoal, mas como pianista que sou, e a matéria a ser coberta tem tudo a ver, eu não poderia me furtar jamais a tecer algum comentário mais pessoal, até porque a emoção foi única, e o melhor presente de natal que umj pianista pode receber: Gostaria imensamente de agradecer aqui os amigos Luiz Wellington, Carlos Rafael e ao Boanerges pelo convite para conhecer pessoalmente esse homem que para mim foi sempre motivo de pesquisas e admiração desde a minha adolescência. É um espelho para minha inspiração e seu exemplo de vida, um facho de luz a ser seguido pelos homens. Creio que o encontro de ontem com João Carlos Martins é o mais próximo que um ser humano pode estar da presença de BACH aqui na terra. E isso é muito. Quantos pianistas gostariam de ver o que eu vi, e de receber o abraço de João Carlos Martins, e ainda melhor do que tudo isso, foi receber seus cumprimentos pelo meu trabalho como músico, pois ele disse que já conhecia, logo que o encontrei. Ao final da entrevista, ele ainda deixou a seguinte mensagem escrita:




"Dihelson, um abraço do colega, e obrigadíssimo pelas perguntas."

João Carlos Martins

João Carlos Martins: um artista abençoado no Cariri

Pois é, gente,

Estivemos há pouco com um dos maiores pianistas do planeta e de todos os tempos: João Carlos Martins. E mais uma vez por obra do acaso (será...).
Junto com Luiz Wellington Brandão e Júnior Brasil, e todas as respectivas famílias, estava no Crato Tênis Clube, mordendo umas brahmas, quando na minha frente estava lá... JCM.
Novamente a história parece se repetir, pois há poucos dias tive a sorte de conhecer Jorge Mautner, no mesmo local e por (quase) obra do acaso.
JCM estava acompanhado do pessoal do SEBRAE, depois de ministrar palestra, capitaneado por Boanerges Lopes. Esperava o jantar.
Assim que o reconheci, fui de supetão à sua mesa e disse: Maestro, permita-me a honra de bater uma foto com você.
E o resultado foi este:


Foto: Boanerges Lopes

Quando voltei, relatei o acontecido. Luiz Wellington ligou imediatamente pra Dihelson. Dihelson chegou quase em seguida, carregando sua parafernália usual (filmadora, microfone e máquina fotográfica). O resultado foi uma entrevista exclusiva com JCM, na qual atuei como cinegrafista e que será mostrada em breve.

Aguardem!

Em tempo:
JCM fez duas revelações:
1ª) Torcedor assíduo da Portuguesa de Desporto, ele sabe que no Crato teve um time, de primeira divisão, homônimo da sua querida Lusa.
2ª) Foi à estátua do Padre Cícero e fez uma promessa...