19 outubro 2007

Postando um comentário sobre o sítio Fundão.

Uma colcha de retalhos a respeito do Fundão.
A piada. No seminário São José e depois no Diocesano trabalhou e viveu um porteiro, segundo dizem, e eu vi, era muito feio. Chamava-se Ramiro. Muitas piadas foram contadas como feitos de Ramiro. Eram piadas ingênuas em certo sentido, mas absolutamente humoradas. Certa vez um monsenhor pediu para ele ir à feira e procurar por uma pessoa do Fundão, pois deseja enviar um recado. Pouco depois chegou Ramiro com uma senhora de avantajada bunda.
O homem. Seu Jefresco, como o povo o chamava, era um ardoroso militante das reformas de base do governo Goulart. A palavra corrente era que se dizia comunista e ateu. Era uma ateu, como se dizia dos anarquistas, graças à Deus. Mesmo os que ideologicamente discordavam dele o via com carinho, pois era um tipo magro, alto, muito elegante no falar e no trato.
O sítio. Era mágico. Isso ninguém nega. Havia nele as mais lindas e frondosas árvores, do estilo mata atlântica, que essa híbrida chapada do Araripe é capaz. Pés de Jatobá, Cocais, Cedros, de troncos tão estupendos para o menino que se guardaram como a imagem das sequoias gigantes da América do Norte. Agora, algo muito especial. Os pés de Cajá, com o perfume de seus frutos se espalhando no ar que a saudade respira. Soltando no ar o canto desafinado/ Sibilando a asma de poesias confinadas, / Cheirando o perfume do cajá amordaçado, / Sentindo a correnteza das águas erosivas.
O poço do Jatobá. Na fronteira do fundão. Havia um lago encantado: o poço do Jatobá. As levas de meninos soltos, do alto do seminário e da batateira. Pulando sobre a profundidade do poço desde os galhos altos das árvores sobre o leito. Gritos, desafios, a película de água formando dobras na vertente dos seus movimentos. Os reflexos da luzes como réstias da folhagem acima. O poço do jatobá logo a seguir um rio de pedras lavadas, arrendodandas e de lisas, pequenas correntezas e o cheiro seminal dos cajás. A felicidade de achá-los espalhados no chão e desgustá-los como Zeus no Olimpo.
Doce como um eleito ao céu. Seu Jefferson talvez tenha sido o primeiro grande plantador de banana prata na cidade. Naqueles tempos três bananas dominavam o consumo da cidade do Crato: a banana maçã, a banana sapo e a casca verde. Mas no fundão nasceu as bananas pratas mais doces que provei em todos os anos após tê-las comido pela primeira vez.
Só no Crato mesmo. Segundo se dizia na redondeza, seu Jefresco em seu modo de operar o singular, construíra a mais ousada casa de taipa. Uma casa de taipa, mostrada na foto da matéria postada neste blog, era um espanto de ousadia de construção. Nunca tirei o assunto por mais análise, mas ficou-me esta lembraça de mais um recorde da cidade.
A ilha do Fundão. Terminei meus estudos na UFRJ, cujo campus havia sido tranferido para ilha do fundão, em plena Baia da Guanabara. Nunca deixei de associar, como só fazem os sonhadores, o nome dos dois lugares.

A Porta Estreita





“Porfiai por entrar pela porta
Estreita ; porque eu vos digo
Que muitos procurarão entrar
E não conseguirão.”
Lucas , 14:24

São Lucas nasceu no primeiro século depois de Cristo. Tornou-se médico em Antilóquia, em território hoje pertencente à Síria. De profunda formação humanística , produziu com base em depoimentos, o terceiro dos evangelhos. Sendo o mais culto dos evangelistas , escreveu aquele que é considerado, literariamente, o mais bem esboçado dos textos sagrados.Lucas é ainda autor do livro “O Ato dos Apóstolos” que perfaz uma espécie de continuação dos evangelhos. Pouco mais se sabe sobre sua a vida . Há relatos de que teria sido martirizado pelos romanos, nas suas perseguições contra o Cristianismo e que esteja sepultado em Pádua, na Itália. Em todos os paises cristãos, desde 1463 , comemora-se, no Dia 18 de Outubro, consagrado a São Lucas, o Dia do Médico.
A comemoração é muito mais profética do que simbólica. Aos médicos no Brasil de hoje, já não se exige apenas sacerdócio, mas santidade. Após o corredor polonês de uma formação que muitas vezes se estende por doze longos anos, o médico cai num mercado de trabalho avassalador. Recebendo salários de fome ( o último Concurso do Estado oferecia salário de R$ 560,00 por 20 horas semanais) , o profissional de medicina tem que fazer muitos “bicos”, correndo por muitos serviços, para pagar as contas do final do mês. As tabelas vergonhosas do SUS humilham-nos a cada procedimento. Imersos numa Saúde Pública totalmente sucateada, com filas intermináveis nas Emergências, a cada instante tem-se que fazer a “Escolha de Sofia”. Angustiados, os médicos põem-se diariamente na fronteira movediça entre a Vida e a Morte. Do outro lado, a justiça de dentes reluzentes os esperam para a mordida feroz a qualquer tropeção a que lhes levem o cansaço e o desestímulo. Como São Lucas ,os médicos são martirizados a cada jornada de trabalho, a cada turno, a cada plantão. Vivendo numa selvageria capitalista, a sociedade lhes cobra posturas socialistas : socializaram sua profissão, sem socializar o Supermercado. Sem tempo para a família, sem nenhuma disposição física e mental para a atualização, os profissionais de saúde vão carregando sua procissão de infortúnios vida afora. Condenados às galés perpétuas.
Este ano, no entanto, não mais suportando as condições aviltantes e desumanas, os médicos, espontaneamente, resolveram reescrever o evangelho da Medicina Brasileira. Sequer houve maior interferência das entidades de classe, os profissionais simplesmente disseram: Não ! Cruzaram os braços, pediram demissão em massa e o caos se estabeleceu em várias capitais brasileiras. Dizem que nossa atividade é essencial e não pode parar. Se essencial, porque não temos salários compatíveis à essencialidade de nossa profissão? Ao menos a metade de um deputado , cuja função tem se mostrado totalmente desprezível na vida nacional. Calcula-se que se gasta mais de R$ 20 bilhões, anualmente, só com corrupção no Brasil, a metade do orçamento anual da Saúde, como reverter isto se os que mais se beneficiam são justamente os legisladores? A única política empreendida no sentido de minorar o problema é a criação absurda de Escolas de Medicina que pululam por todos confins do país, na tentativa de aumentar a oferta de profissionais e, assim, com vesgas regras de consumo, tentar manter os salários de fome da categoria. Sequer imaginam que apenas plantam a semente de uma Medusa, pois grande parte destas Escolas não tem a mínima estrutura para formar médicos capazes, responsáveis e com a vasta formação humanística e técnica que a profissão exige.
O 18 de Outubro deste ano é uma data especial. Os médicos saíram das catacumbas e enfrentaram juntos os leões no Coliseu. Basta de suplício, de esconderijo, de martírio. Crucificados há mais de 50 anos, chegou a hora da ressurreição. Recusamo-nos a continuar cúmplices do genocídio diário que se perpetra nos Hospitais do país. Queremos salários justos e condições dignas de trabalho. Porfiamos entrar pela porta estreita, sabemos todos da coroa de espinhos que temos que carregar sobre a cabeça. Médicos de corpos e almas, sabemos do nosso Calvário. Mas percebemos, hoje, que para exercer a nossa arte de curar precisamos, antes, estar sadios; para levar a felicidade ao próximo, necessitamos , primeiro, estar felizes e realizados; só livres e libertos poderemos entoar um canto de liberdade.

PROPAGANDA = COMPORTAMENTO = CONSUMO

Pesquisadoras da Fundação Oswaldo Cruz, Dóra Chor e Suely Rozenfeld, no Jornal O Globo, tomando por base conhecimentos atuais, concluem que "os comportamentos são fortemente influenciados por valores sociais". Isso ocorre porque os valores sociais são sinalizados pelo "grupo" a que se pertence. Então, em termos de comportamento, temos o sentimento de "pertencimento" em relação aos grupos sociais e aos valores que estes expressam. Outro dado desta relação é o que o pesquisador Geoffrey Rose encontrou entre atitudes individuais e coletivas, chamando a atenção para a indução de comportamentos "desviantes" nesta relação. Se o álcool é bem aceito pelo coletivo, maior a chance de se encontrar indivíduos consumindo excesso de álcool.
Nesta base da compreensão do comportamento humano é que se criou a equação moderna da propaganda de massas, usando o conhecimento a respeito deste comportamento em relação ao consumo de produtos. Já no século XIX, por outro lado, escritores haviam descoberto que a mercadoria não se resumia a seu "valor de uso", ou seja a utilidade do produto. Karl Marx, por exemplo, havia postulado o conceito de "fetiche da mercadoria" em que a mercadoria, além do valor de uso, tinha um valor relacionado à fantaisa (simbolismo) "que paira sobre o objeto, projetando nele uma relação social definida, estabelecida entre os homens" ou seja coletiva.
No século XX e neste, as empresas de propaganda usam em larga escala os recursos da cultura local e universal, especialmente nas manifestações de arte e esporte, através das quais criam padrões de estímulo ao consumo. Isso significa que os agentes da propaganda estão modificando, estimulando, induzindo consumo através da manipulação da propaganda sobre o comportamento coletivo. Por isso mesmo é que as peças de propaganda mudam de técnicas, mudam estéticas, mudam conteúdos ao longo do tempo.
Nos idos dos anos trinta e quarenta do século XX, no cinema a propaganda dos cigarros veio para o roteiro associando-se aos homens socialmente definidos, charmosos, encantadores, adultos bem resolvidos. Já no final daquele século, era com os ditames da cultura universal: liberdade de decidir, individualidade do estou na minha, esportes radicais, sucesso de yuppes, roupas da moda. Isso tudo para demonstrar claramente que as pessoas envolvidas na propaganda, por consciência do que pretendem, se tornam irmãs siamenses dos produtores de mercadoria na indução do comportamento de consumo. Nada mais justo que a liberdade de mercado seja associada à responsabilidade pelo consumo. A vinculação indivíduo e pertencimento ao grupo é a prova cabal que a responsabilidade dos atos individuais são sócias deste novo fenômeno do simbolismo do se estar no mundo. Ou seja as empresas do mercado livre têm responsabilidades sociais e, portanto, não são tão livres assim.
No final o texto das pesquisadores conclui pelo mais justo caminho da civilização: "ainda que decisões sobre parar de fumar ou não dirigir alcoolizado caibam ao indivíduo, é desejável criar oportunidades e alternativas coletivas que incentivem a mudança destes comportamentos". Isso, como é óbvio se dará pela criação de regras sociais legitimamente oriundas da sociedade e implementadas pelos seus mecanismo de rede ou pela ação do Estado. A verdade é que é preciso regular o consumo e a propaganda de coisas como o cigarro, drogas, bebidas alcoólicas, uso de veículos motorizados e tantos outros mais.