10 outubro 2007

Brizola em Crato

Emerson Monteiro

Por volta das dez horas do dia 18 de agosto de 1989, em plena campanha presidencial, chegava ao Cariri para atividades eleitorais o candidato Leonel Brizola, do Partido Democrático Trabalhista - PDT. À época, era eu o presidente do diretório municipal do partido em Crato, onde cumpria mandato de vereador, e acompanhei de perto toda as etapas daquela visita.
Do aeroporto, seguíramos ao centro de Juazeiro do Norte, onde se deu um comício, na rua larga que vai do Memorial Padre Cícero à praça Almirante Alexandrino, com palanque armando próximo da parada de ônibus. Achavam-se presentes os principais responsáveis pela agremiação no Ceará, Flávio Torres, deputado federal Lúcio Alcântara (então recém admitido no PDT), Mariano de Freitas, deputado estadual Paulo Quezado, Carlos Macedo, Hypérides Macedo e outros de Fortaleza, além de lideranças do interior.
Após as falas em Juazeiro, Mariano de Freitas, o coordenador da visita, passou a mim o compromisso de trazer Brizola até o Crato.
Na ponte do São José, divisa dos dois municípios, companheiros nossos aguardavam, em dezenas de carros, iniciando daí animada carreata, com som e fogos. Logo adiante, na Gráfica Universitária, houve uma pequena parada, em que Lázaro Fontenele, seu proprietário, ofereceu rápida recepção.
Seguimos, após, pela avenida Teodorico Teles, para o centro da cidade. Na noite anterior, fizéramos pichamento e puséramos faixas alusivas à data. Uma dessas faixas (“Brizola, campeão da democracia”) se instalava no cruzamento das ruas Tristão Gonçalves com Almirante Alexandrino, por onde passamos antes de entrar na rua Dr. João Pessoa, lida com atenção pelo visitante. Nas calçadas, as saudações efusivas de centenas de populares.
As maiores emoções se reservavam, no entanto, para a praça Siqueira Campos, quando Brizola desceu do carro e se dirigiu à multidão que o recebia com carinho. Lembro bem das palavras de Paulo Quezado, nessa hora, a comentar: - O Crato é sempre o Crato! -, referindo-se aos modos como aclamavam o personagem das lutas políticas nacionais de 1961, mentor da “Cadeia da Legalidade”, garantindo a posse de João Goulart na Presidência da República, depois da renúncia de Jânio Quadros.
A nossa organização não planejara concentração de rua em comício aberto, porquanto a exiguidade da agenda caririense isso impediria. Contudo, ali mesmo na Siqueira Campos, improvisou-se ato relâmpago, com Brizola subindo no capô do carro de som de Luzimar Alves e dirigindo-se ao povo no seu estilo inflamado.
Logo depois, marchamos ao Palácio do Comércio, que abrigava numerosa lotação. Políticos locais participavam da cena, no meio dos quais Humberto Mendonça, então membro do partido, sob cuja legenda eleger-se-ia, no futuro, a vice-prefeito do Município, para abandoná-la em pouco tempo.
No decorrer daquelas movimentações em ambiente fechado, senti alguma apreensão por conta da pouca margem de manobra que dispúnhamos num evento de tal envergadura, porém só restou aguardar com tranqüilidade a sua conclusão.
Ao sair, percorremos de carro algumas das ruas cratenses. Defronte ao Banco do Brasil, a pedido de Brizola, ainda fizemos rápida parada junto a banca de beira de calçada, a fim de que ele comprasse algumas frutas. Outra vez passamos pela rua Dr. João Pessoa, contornamos a Praça da Sé, subimos a avenida Duque de Caxias e rumamos de volta ao Aeroporto Regional do Cariri.

PADRES ASSASSINOS


Crato, a cidade brasileira, assim como a portuguesa, é uma cidade conservadora. A religiosidade prevalente é aquela vinculada à igreja de Roma, não cabem rebeldias como em Juazeiro. As famílias na minha infância eram muito religiosas. Religião Católica Apostólica Romana. A maioria de seus padres eram militantes do conservadorismo, por eles e pelas organizações de mulheres e homens religiosos, uma grande militância política anti-comunista, anti-reformas de base no governo Goulart. Os livros publicados pela CIA americana na época da guerra fria, acusando a ferocidade do regime comunista eram distribuídos por uma rede em que a igreja, ou parte dela pelos padres, era quem orientava. Quando do golpe militar de 64 derrubou o governo Goulart, o papel de padres locais foi fundamental para a realização da versão cratense da MARCHA DA FAMÍLIA COM DEUS PELA LIBERDADE. O presidente Castelo Branco visita sua terra, o Ceará, entrando pelo Cariri. Os alunos do Colégio Diocesano formaram a primeira fileira de homenagens na frente da Igreja da Sé. Num palanque armado estava o presidente e pela primeira e única vez vimos o histórico tenente Juarez Távora ao lado de outros militares, entre os quais o cratense General Adauto Esmeraldo.


Para uma criança nascida num ambiente como esse, a religião era o centro que divinizava a família, explicava a vida e todos os membros de seu clero já eram santos em vida. Com a simplicidade de que tudo na vida se resumia a simples obediência a dez regras, a vida era facilmente entendida e a relação entre as pessoas poderia, desde que no espírito da igreja católica, ser muito simples e santa. Mas aí o demasiado humano cai sobre nossas cabeças cratenses. A revista mais lida, a que fazia o papel do Jornal Nacional da época, a Revista O Cruzeiro repercute crime hediondo. Mais ainda, era um crime de natureza religiosa ao mesmo tempo que vulgar.


O Padre Hosana de Siqueira Castro, pároco de Quipapá em Pernambuco, no dia primeiro de julho de 1957 (há cinquenta anos) chega ao palácio episcopal de Garanhuns. Bate a porta e quem a abre é o Bispo Dom Francisco Expedito Lopes. O padre entra no salão e inicia uma discussão, terminando-a com o disparo de três tiros a queima-roupa sobre o bispo. Na madrugada daquele dia mesmo o bispo morre, o padre foge mas depois se entrega no Mosteiro de São Bento. A revista O Cruzeiro, como a Globo de hoje, fez a festa jornalística: transformou o padre num demônio vestido de santo e o bispo em santo antes das rotinas romanas. As mesmas regras de psicologia de massa já estavam em uso: a foto do bispo ferido sendo carregado por pessoas, o padre em ângulos que denunciavam sua maldade. O pior de tudo, era um crime passional, o padre mantinha uma prima na casa paroquial que engravidara e por isso tivera suas ordens suspensas.


O mundo desabou, aquilo era inédito. Segundo a história era o terceiro assassinato de um bispo por um padre de toda a vida da Igreja Católica. Antes, exatos cem anos (1857) um padre matara um bispo na França e dez anos depois (1867) o mesmo tipo de assassinato em Madri. O certo é que o fatores da ordem nas nossas cabeças embaralharam. Os padres não eram tão santo em vida, havia exceção. Os padres e os bispos eram humanos. Olhem que nesta altura nem imaginava a interessante história do padre Senador Alencar, filho de Bárbara de Alencar e pai de José de Alencar. Aliás a mesma relação, uma prima do padre Alencar engravidara e tivera o gênio da raça cearense e por eles nós vivemos e não morremos. Mas aquele desfecho do padre Hosana promove muita mudança.


Igual hoje nos jornais a condenação na Argentina do Capelão da Polícia da Capital, Christian Von Wernich. Prisão perpétua. Crime: co-autor de sete homicídios, partícipe em 31 torturas e 42 seqüestros dentro do marco de genocídio que ocorreu na Argentina entre 1976 e 1983. Após a senteça Tati Almeyda, líder das Mães da Praça Maio disse: Fez-se Justiça. É um dia histórico que jamais as Mães da Praça de Maio pensaram viver. O exemplo de 20 anos atrás também se repetiu em Ruanda, onde o sacerdote ruandês Athanase Seromba ordenou que militares da etnia Hutu destruíssem a paróquia que dirigia e massacrassem duas mil pessoas da etnia Tutsi que lá se refugiara. O padre se fugiu para o Congo, depois Quênia e por último na Itália exercendo o sacerdócio em Florença. Foi condenado pelo Tribunal Penal Internacional para Ruanda por crimes de extermínio.


Quanto ao padre Hosana? O seu julgamento foi demorado e polêmico. Em sua defesa acusa um outro padre e um sacristão de haver tramado para ele ser expulso de Quipapá pois queriam o seu lugar. A versão do padre Hosana era de que tudo se dava no campo da disputa política da própria igreja. Ele nunca encontrou provas que sustentassem sua versão. Foi condenado a 19 anos de prisão, ganhando liberdade condicional em 1968. Foi para sua fazenda na cidade de Correntes e aos 84 anos foi assassinado a pauladas. Os criminosos nunca foram identificados.


Quanto aos expostos à matéria de O Cruzeiro em 1957? É preciso conhecer a vida social, seus conflitos e desfechos. Tudo que frutifica na vida humana, mesmo que transcendental, tem como referência a vida e suas necessidades materiais, psicológicas, sociais e espirituais. Por tais necessidades os sentimentos se manifestam e se transformam em ação.