29 setembro 2007

Passarim em Céu Estrelado


Sempre imaginei como o maior gesto de desprendimento neste mundo : ser enterrado no caixão das almas , com o esquife carregado por quatro chapeados. O balanço da vida simplesmente fechado : ativo e passivo exatamente iguais. Sem que fiquem sobras para a avidez virulenta dos inventários, sem que reste uma lágrima forçada de saudade e com a exposição definitiva das amizades ocasionais e interesseiras. Só: sem o sacrifício da floricultura, sem uma palavra preparada às pressas, sem a cera precipitando das velas, sem uma prece balbuciada por obrigação. Leve : levando na saída exatamente os mesmos utensílios trazidos na viagem de vinda: nada.
Esta constatação me veio esta semana quando o Crato ficou mais triste. Um dos seus pássaros alçou vôo, sem que ao menos se lhe percebesse o ruflar das asas : anonimamente. Nascera Pereira da Silva , mas a nossa Maria ( este nomes que tantas histórias principia) chegou na cidade em 1959, e aqui foi batizada com o sobrenome que a tornou famosa: Passarim. Vinha de Araripina, onde nascera em 29/07/1935, e decidira pela mudança após se separar do primeiro marido. Boa na cozinha começou a trabalhar em restaurantes da cidade, até que , empurrada pela necessidade, abraçou aquela dificílima vida fácil. Com o passar dos anos, fenecendo-lhe as primeiras e fugazes flores da juventude, fez-se empresária do ramo de divertimentos e abriu a famosíssima casa : “Chão de Estrelas”, ali no finalzinho da hoje rua José Marrocos, por trás dos depósitos da REFESA. A casa abrigava uma infinidade de seres noctívagos em busca de novos horizontes hedonistas , novas janelas que lhes abrissem mais as frestas da percepção. Ali se uniam, magicamente, homens que se pensavam achados e mulheres que se tinham por perdidas. Se se reparasse bem, no entanto, perceber-se-ia que as jovens lutavam pela vida e pela sobrevivência com um élan inigualável e que talvez os mocinhos e velhos tentassem untar-se daquela força e determinação, no intuito de preencher a vacuidade comezinha de suas almas. Nos tempos de bonança Maria vivia bem, remediada, tinha três TV´s coloridas num tempo em que este aparelho fazia-se o objeto do desejo de quase todas madames do Crato.
A liberalidade avassaladora dos novos tempos fez com que as boates fossem se tornando kitchs e obsoletas. Os motéis as substituíram, assim como o Cd tomou o lugar do Vinil e o chilito engoliu o passa-raiva. A empresa de Maria murchou e a fez viver com o pouquíssimo que lhe restou, sozinha, numa ruazinha transversal ali nas proximidades do SESC. Os três filhos que teve os tinha distribuído logo após o nascimento deles, talvez porque não considerasse justo criá-los todos junto à aparente indignidade da sua profissão. Nos últimos anos ainda buscou algumas viagens místicas na região e em Brasília, investindo o pouco que ainda sobrara na espiritualidade, talvez buscando justificativas para seu infortúnio. Pobre e alquebrada retornou ao Crato, onde passou seus últimos e duros dias. Esta semana, quando o coração parou de bater, Maria viu-se naquela solidão dos quatro chapeados. Apenas um filho , Zé, esteve ao seu lado no réquiem derradeiro e precisou buscar ajuda de transeuntes para poder levá-la ao cemitério. Não se conseguiu padre para sua encomendação e nem sequer foi possível identificar um terreninho que Maria tinha comprado para a pousada derradeira: inumaram-na, como indigente, em terras da prefeitura. Apenas uma das antigas companheiras de luta a acompanhou na viagem final e três de suas irmãs ainda estiveram presentes ao velório, mas não puderam esperar para o enterro. É que não havia transporte para Araripina à noite e elas não tinham onde pernoitar.
Não sei de onde veio o Passarim que Maria carregava, muito a contragosto, no sobrenome. Mas só consigo imaginá-la como um pássaro. Viveu numa imensa gaiola que lhe foi imposta pelo destino, mas soube, como poucos, arrancar um canto pungente do seu sofrimento e das suas privações. Espalhou liberdade por entre as tariscas da gaiola em que estava confinada. Desapareceu ,também, silentemente como um passarinho: sem um pio sequer. Não sentirá muita diferença no lugar para onde foi: apenas trocou seu chão atapetado de estrelas , por um céu coberto de fulgurantes constelações. Lá , agora sem os grilhões e amarras da vida terrena, voltará a entoar o seu gorjeio na amplidão, como um doce e inocente passarim.


J. Flávio Vieira

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DUELO AO PÔR DO SOL - Mais uma Aventura de João de Barros - última parte


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Autor do tópico: José do Vale Pinheiro Feitosa.

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