26 agosto 2007

DUELO AO PÔR DO SOL - Mais uma aventura de João de Barros


Uma série em nove capítulos semanais. Duelo ao Pôr do Sol. Você já viu, vê e verá outros iguais. Não perca com início todo os domingos.

ARGUMENTO

PARTE 1

A Desfeita

Tomada 1

Kirk Douglas faz uma careta de dor.
Lento, caindo no chão poeirento.
Final da rua.
Currais.

No horizonte, também,
Vai se pondo
O sol.




Na tela a frase:

The End

Tomada 2

I

As luzes se acendem e a platéia começa a sair.
O lanterninha do Cine Cassino fecha a grade de saída logo após o último espectador e volta para apagar as luzes da sala de projeção.
II
Está lá.
Com o chapéu na cabeça, um cowboy fumando um cigarro.
III
O coração do lanterninha dispara com a visagem que saiu da tela para o mundo de fato.
De repente falta chão sob os pés da realidade do rapaz.
Volta correndo e se depara com a grade de saída que ele mesmo havia fechado. Se desespera de medo e não consegue reabrir o cadeado. Quase correndo retorna para a sala de projeção.
IV
Mais uma vez.
O cowboy.
Permanece sentado de costas, na anteprimeira fila do cinema, com a fumaça do cigarro subindo lentamente.
V
O lanterninha desesperado de medo.
Nunca imaginaria que a ficção poderia se meter na sua rotina de autoridade da sala de projeção.
Ele que tem o poder de expulsar o espectador bagunceiro, se treme de medo, contrastando com o sangue frio do cowboy.
Impassível, ao espaço e ao tempo, ocupa tranqüilamente a cena que deveria ser protagonizada pelo empregado do cinema.

Tomada 3

I
O rapaz sobe as escadas que dão acesso à sala de projeção em lances de dois e três degraus.
Entra de sopetão na cabine e esbarra em seu Antônio, o projetista. Agachado, de cabeça baixa, guarda os rolos de filme nas suas respectivas latas.
II
Seu Antônio dá um grito de susto com a entrada intempestiva do rapaz que invade a cabine com a sutileza de um furacão do Caribe.
- Qui é qui é isto rapaz? Tu endoidou?
- É o homi seu Ton-im!
III
Seu Antônio, já de pé, bate com o pé direito no chão e esmurrando o ar com os dois braços, grita:
- Qui homi macho?
- O homi da tela!
- Qui homi?
- O cóboi do filme.
- Qui homi? Qui históra é esta?
- O artista... O qui morreu no final do filme...
IV
Fazendo uma careta de dor das besteiras do Lanterninha, pergunta com ar de incompreensão:
- Quem?
- O homi seu Ton-im! Este do filme.
- Explica dereito esta históra, macho!
- O cóboi do filme tá aí...


V
O projetista dá um passo para trás, esbarra nas latas de filme com o cenho franzido e expressão de raiva, pergunta:
- O quê?
- O do filme! Tá sentado lá nas cadeiras...
- Onde?
- Nas cadeiras.. Venha vê!
VI
O lanterninha chama o projetista até o buraco da cabine e aponta para o salão.
Seu Antônio fica um minuto parado, olhando o cowboy solitário que continua de costas, virado para a tela de projeção, fumando um cigarro atrás do outro. O projetista coça a cabeça, pensa mais um pouco e resolve tomar uma iniciativa.
Afinal os dois tinham que fechar o cinema e irem para casa dormir. Aquela era a última sessão e já eram quase 23 horas.

Tomada 4

I
O especialista em fitas de cinema e máquinas de projetar ilusões, pega uma trave de madeira da porta real, chama o lanterninha e, ambos, se dirigem para a sala de projeção.
O condutor da excursão de reconhecimento vai avançando no terreno devagar. Passo pós passo, os dois escondendo o barulho, seu Antônio na frente e o lanterninha colado às suas costas, procurando ocultar-se do perigo à frente.
II
O cowboy parece ter um corpo forte, fuma lentamente, não se mexe ou faz qualquer barulho.
Seu Antônio aumenta os cuidados, os Cowboys têm olhos nas costas. Tem medo que de repente, ele se vire com a arma cuspindo chumbo grosso.
Os minutos parecem eternidade. De vez em quando, seu Antônio, dá uma cotovelada no lanterninha que nervosamente se coça de medo, fazendo barulho.
III
Já estão a cinco filas do cowboy.
Eles redobram o silêncio, procurando inventar um estado de coisas além da ausência total de sons. Mas é impossível, a respiração nervosa do lanterninha, lhe parece um fole de ferreiro. Mais uma cotovelada e mais dois passos a frente.
Agora na quarta fila.
Logo mais vão encarar o cowboy.
IV
Temem que surja, como num filme de terror, o rosto enganador da morte. Seus corações se agitam num mesmo ritmo e o sangue do rosto ferve de emoção. As pernas de seu Antônio tremem tanto, que chega a balançar o lanterninha, logo ali de junto dele. Dão mais um sofrido passo.
V
Foi o desastre.
O mundo explodiu.
Os dois caíram berrando, pedindo clemência, gritando, histericamente, por socorro. Se arrastam para trás das cadeiras, procurando se esconder da fúria assassina do pistoleiro. Seu Antônio, de quatro, tinha dificuldade de se locomover, o reumatismo havia lhe atacado. Não teve jeito, o lanterninha passou por cima dele, lhe dando chutes, lhe atropelando e saindo feito a besta fera na direção da porta do cinema.

Não perca. Domingo próximo. O que teria havido com os destemidos funcionários do cinema? Neste mesmo cinema à mesma hora.