16 julho 2007

Enquanto isto em Matozinho...

QUESTÃO FUNDIÁRIA EM MATOZINHO
J Flávio


Nezinho Pacífico andava meio irritadiço nos últimos tempos e, convenhamos, possuía profundas razões para isso. Sem que ao menos percebesse, os segundos passaram rápido com os minutos, os dias e os anos e com eles os costumes e os hábitos do povo de Matozinho. Montara uma das primeiras funilarias da cidade, há uns vinte anos, e com ela sustentava a família, antes que as limitações da idade o alcançassem. Fabricava latas d´água , armadores de rede, candeeiros, bicas para escorrer a chuva nas cumieiras das casas, bules, funis, bacias, cuscuzeiras, marmitas. Passara toda vida cortando e moldando folhas de zinco. Não bastasse isso, fazia ainda consertos , reformando peças antigas, praticando soldas e trocando fundos e aseias de panelas e outros utensílios domésticos. Os novos tempos, no entanto, não apareceram benfazejos para Nezinho. Credialistas pulularam por toda Matozinho vendendo um sem número de quinquilharias, a baixo custo, trazidas da China, com prazo quase que infinito. A Vila, de repente, montada no veloz corcel da globalização viu-se, pouco a pouco, embebida na cultura do descartável.A ninguém mais interessava consertar panelas, caçarolas, pinicos, se se tornava muito mais cômodo e interessante, comprar novos vasilhames a preço de banana.
Aos poucos o ganha pão de Nezinho começou a minguar. Ele passou a se sentir como uma espécie de vitrola velha: mero objeto de contemplação. Mesmo assim não se deu por vencido. Comprou uma pequena carrocinha , a equipou e passou a andar de porta em porta, oferecendo seus serviços de consertos e soldas. Instalou uma buzina de bicicleta e, aos poucos, foi acostumando os ouvidos dos matozenses. O fon-fon característico ligava toda a vizinhança aos trabalhos de Pacífico. A diferenciação fazia-se necessária para separar seus trabalhos dos outros inúmeros vendedores de porta a porta: o velho do cavaco chinês, o menino do pirulito, o rapaz da garapa de cana e do pão doce, o anão que oferecia o algodão doce, a mocinha que negociava os blocos de alfinim acomodados numa tábua envolta com um pano alvíssimo de murim. Em cima da carrocinha de pacífico uma tábua explanava toda sua atividade profissional : “Consertam-se panelas, frigideiras,guarda chuvas, sombrinhas e caçarolas .Serviços de solda em geral. Amolamos facas e tesouras.” De início o corpo a corpo até que ajudou, mas com o tempo, Nezinho percebeu a inexorabilidade da mudança . Sua arte tendia à extinção e deveria até ser defendida pelo IBAMA. Tinha ainda que agüentar o enchimento de saco do pessoal: “Nezinho, tem um candeeiro aqui em casa que ta dando choque, você conserta ?” “Quanto você cobra para consertar uma lata d´água, se eu te der o pau?” Talvez , por isto mesmo, andasse mais explosivo, menos condescendente com toda a clientela.
Semana passada, tardezinha, vinha voltando para casa depois de um dia de muito andar e pouco trabalho. De repente, em uma das casas próximo ao “Bar Alho”, um engraçadinho, com uma panela na mão, se dirige para Nezinho e estendendo o utensílio, pede um orçamento:
--- Nezinho, quanto você cobra para consertar esta panela que tá merejando ?
O funileiro a traz para a carrocinha , põe água, como teste, e observa-a escorrendo pelos inúmeros furos, como se fosse um chuveiro. Então , lança seu abalizado parecer:
---- Menino, é merejo pra tudo quanto é lado, vai gastar muita solda, vou ter que botar um fundo novo e só dá para fazer o serviço por dez reais.
O cliente, com ar de espanto, fecha questão:
--- Ta ficando doido , Nezinho ? Por dez reais eu compro umas duas bichas dessas no crediarista e novas, viu ? Me diga uma coisa e se eu te der o fundo, por quanto você faz o serviço?
Pacífico respirou profundamente e não perdoou:
--- Ah, meu filho, se você me der o fundo, aí a coisa é muito diferente: eu faço o conserto de graça e ainda te dou uns quinze reais...

Exposição de Arte - SESC /Crato


Zabumbeiros Cariris - Lançamento de CD


Caros Amigos,


Os Zabumbeiros Cariris finalmente lançam seu CD. Confiram o interessante trabalho deste grupo genuinamente caririense!
Aqui a apresentação do Cd feita por este enviesado blogueiro:
“Carrego meus primórdios num andor.
Minha voz tem um vício de fontes.
Eu queria avançar para o começo.
Chegar ao criançamento das palavras.
......................................................................
Pegar no estame do som !
Ser a voz de um lagarto escurecido
Abrir um descortínio para o arcano.”

Manoel de Barros



Eis o Cd dos Zambumbeiros Cariris ! Pleno de ângulos obtusos e faces pontiagudas.Traz no seu bojo toda coerência das nossas mais profundas incongruências. O Sacro/profano, o afro/indígena/ibérico, o cearense/pernambucano, o fúnebre/festivo e o romântico/erótico saltam , como um saci, no terreiro de cada acorde deste disco. Os Zabumbeiros beberam nas fontes pródigas das bandas cabaçais, do reisado, do coco de roda, do baião, dos benditos, do maracatu cearense e de além-Araripe. Souberam , no entanto, destilar, desta calda sonora, um mel puro e original. Fizeram deste amálgama de sons um trampolim e se projetaram para além do simplesmente telúrico/ regional. Sua música sabe a pequi e a morango, tem o doce aroma do canavial e o acre cheiro do asfalto. Não se avexe, pois, quando a forte batida do zabumba penetrar pelos poros e vier a invadir suas artérias e sentidos. Relaxe e embarque nesta viagem futurística em busca dos nossos primórdios, em procura das fontes de onde flui nossa essência. Avançando para o começo, criançando os instantes, enquanto os Zabumbeiros nos descortinam o arcano: o estame do Som !

J. Flávio Vieira

EXPOCRATO IDÉIAS


EXPOCRATO IDÉIAS!

Inaugurada ontem sob um sol por demais tropical, um dos maiores eventos da região do Cariri. Milhares de pessoas circularão pela cidade de Crato e visitarão a 56ª edição da EXPOCRATO. Já não podemos dizer trata-se apenas de um evento AGRO-PECUÁRIO, porque está perceptível uma gama de eventos paralelos, o que faz da EXPOCRATO, um MULTI-EVENTO, festivo e comercial ao mesmo tempo!
Daí uma preocupação que nos interroga enquanto anfitriões. O que estamos oferecendo aos nobres visitantes e conterrâneos que visitarão aquele recinto?
- Por exemplo, em termo de conforto? Penso que já era tempo de colocar em toda a sua extensão, banquinhos para que as pessoas, principalmente os simpáticos Senhores e Senhoras de idade, façam pausas e apreciem os transeuntes enquanto recobram as energias para prosseguir o passeio pelos diversos estandes instalados pelo Parque!
- Arborização: A verdade seja dita, mas, o parque precisa “urgente” de um sério programa de rearborização em todo o seu complexo! As árvores existentes são antigas! Depois, é preciso compreender que o recinto é utilizado ao longo do ano com outras finalidades, que vão desde atividades físicas, contemplativas e mesmo outros eventos que por lá acontecem!
- Por exemplo, ainda, as atrações culturais: Já foi por demais enfatizada a inversão de valores que acontece quando supervalorizamos atrações que vem de fora e levam as cifras que "deveriam não", devem ser investidas em programas culturais e com os artistas que de uma forma em geral, produzem artes que nos identificam e nos referenciam! É triste constatar o quanto os poderes públicos e privados local sentem vergonha de seus valores! O que mostramos aos visitantes, senão atrações pára-quedistas? O que ficam sabendo sobre o que produzimos aqui?
- Estética: aí é que a coisa pega e eu não vou nem enumerar a quantidade de coisas que precisam de uma outra ótica. A poluição visual e sonora desnecessária, o péssimo gosto das programações de áudio no recinto, é algo preocupante!
- Uma praçinha: Uma praçinha com um mine anfiteatro para apresentações à tarde dos artistas da cidade, englobando peças de teatros ao ar livre e transmissão de curtas metragens produzidas por gente nossa! Tudo isso onde hoje ficam os estandes dos carros que ocupam um espaço precioso ao lado da URCA, seria um caso, não a se pensar, mas a realizar urgente!

Por estas e outras questões, é que a EXPOCRATO precisa ser motivo de um debate sério e aberto, uma mesa redonda, onde sejam levantados os pontos críticos que façam com que este evento tenha a nossa cara!

Pachelly Jamacaru