06 março 2007

BLOWUP

GRAFITES

J. Flávio

Na entrada da Gruta do Sol, na Chapada da Diamantina, na Bahia, existe todo um paredão pictografado com impressionantes pinturas rupestres. Algumas , como uma mandala, gravada em quatro cores, enche os olhos de quem as vê. E lá estão postas, numa galeria toda especial, há pelo menos 10.000 anos Há desenhos que sugerem uma agenda , com inúmeros tracinhos empilhados , como se demarcando dias ou produtos de caça. Algumas figuras de animais e uns outros traços de espirais.Outras escrituras diversas existem aqui no Cariri, em Ingá, na Paraíba, no Amazonas. Que recado nossos irmãos primitivos desejavam deixar para a posteridade ?Certamente, de alguma maneira, gritavam para as gerações vindouras: Aqui estivemos ! Vivemos nestas terras, não nos esqueçam! É que não tinham quaisquer outras maneiras de registrar sua presença num mundo: sem escrita, sem TV, sem fotografia, sem cinema , sem internet. Aquela lhes pareceu a única possibilidade de deixar, para o futuro, alguma imagem que demarcasse sua presença nesta terra. Armstrong não fez muito diferente ao deixar a pegada do homem na lua e os alpinistas também fincam a bandeira de seus países nos picos mais inacessíveis . Os adolescentes grafitam os prédios mais altos para desespero dos proprietários, no intuito de afirmar : eu posso ! Mas , também , bravejam : Veja, estou vivo e sou capaz disso! Os enamorados gravam seus nomes nas árvores, no meio de um coração trespassado por uma seta de cupido, pretendendo mostrar para o mundo a força de seu amor, mas também para lhes imprimir um certo ar de eternidade.
Se repararmos bem, todas as nossas grandes ações, neste planeta, buscam, no fundo, a imortalidade. É que a vida é tão curta, de percurso tão frágil e imprevisível que todos , de alguma maneira, ensaiam deixar sua marca , seu registro, numa tentativa, última de eternizar-se. O escritor que publica o livro, o monge que ora no mosteiro, o pintor que expõe sua aquarela, o músico que compõe sua sinfonia , todos intimamente, pretendem, por caminhos diversos, sobreviver por aqui ,além da brevidade inevitável da vida. O empresário que constrói o arranha-céu, a grã-fina que compra a Hylux nova, o político que põe o próprio nome na rua recém construída , todos esforçam-se por saltar o caudaloso rio da morte e do esquecimento. Algumas vezes se utilizam até estratagemas terríveis: matam-se pessoas famosas, empreendem-se chacinas e guerras genocidas, no intuito de imprimir o nome no livro da história, mesmo que seja na página policial. Há em todos a vã esperança que será possível vencer e morte física através de nossos atos . Nosso pretensão não é muito diferente do faraó que construía a pirâmide e se acercava de todos seus utensílios terrenos, na certeza de que no outro mundo teria uma vida muito parecida com a que levou aqui embaixo.
O certo é que todos grafamos, cada um a seu modo, nossos pictogramas no paredão do nossa época.Alguns destes desenhos, como os da Gruta do Sol, resistirão aos anos e às intempéries, mas apenas legarão à posteridade vagas informações daquilo que um dia fomos e pensamos. Nossa individualidade esfumaça-se com a nossa partida. Podem ficar alguns poucos indícios do crime perpetrado, mas, no final a morte sempre ganha a questão e o esquecimento será sempre o desenho derradeiro que ficará aposto na gruta da vida , sempre esmaecido diuturnamente pelo apagador do tempo que prepara o quadro para ser pintado pelas gerações vindouras. .